A história do movimento LGBT+: origem e luta

Pessoas LGBT+ sempre existiram no mundo e existem diversos relatos documentados que comprovam a ocorrência de relacionamentos homossexuais e comportamentos de mudança de gênero nas mais variadas culturas.  No entanto, o marco inicial da formação de um movimento social organizado se consolidou na data 28 de junho de 1969, quando aconteceu, em Greenwich Village (Nova Iorque), a chamada Rebelião de Stonewall. 

A revolta de Stonewall, 28 de junho de 1969. Fonte: BBC, 2019.

Nos anos 60, ainda era crime ser homossexual em grande parte dos Estados Unidos, incluindo no estado de Nova Iorque. Na cidade, o bar Stonewall Inn era um ponto de encontro popular entre gays, lésbicas, bissexuais, transsexuais e travestis, uma vez que os donos do local, que faziam parte da máfia italiana, mantinham o policiamento afastado através do pagamento de propina. No entanto, isso não protegia a população LGBT+ que ali estava de sofrer discriminação e serem vítimas de violência. Frequentemente, policiais prendiam ou expulsavam indivíduos que “praticavam comportamento homossexual” ou que não estavam vestidos adequadamente para o seu sexo, o que configurava “crime contra a natureza”. (JIMÉNEZ, 2009; GEOGHEGAN, 2019; ROSSINI, 2019). 

Em 28 de junho, policiais invadiram o bar, agredindo e tentando levar, à força, o grupo que ali estava, que, finalmente, decidiu resistir, reagindo às agressões e atirando moedas e garrafas em direção às forças policiais. Apesar das tentativas da polícia de dispersar a multidão, cada vez mais chegavam pessoas para dar força à resistência, marcando o início de uma série de protestos e formações de grupos organizados que passaram a lutar pela garantia de direitos para a população LGBT+, sendo os principais deles o Gay Liberation Front (GLF) e o Gay Activists Alliance (GAA). (CARTER, 2004). A Rebelião de Stonewall foi um marco na história da luta pelos direitos LGBT+, provocando uma série de pressões sociais realizadas pelos grupos que se organizaram a partir desta data. O dia 28 de junho ficou consolidado como o dia do orgulho LGBT+ e é quando se realizam as inúmeras Paradas LGBT+ ao redor do mundo, que têm o objetivo de celebrar o orgulho de ser quem é e relembrar as necessidades e demandas de pessoas da sigla ainda nos dias de hoje. 

Primeira Parada do Orgulho LGBT+, Nova Iorque, 28 de junho de 1970. Fonte: CNN, 2016.

Entretanto, é interessante ressaltar que, mesmo antes de 1969, já haviam sido criados alguns grupos de organização homossexual, principalmente nos Estados Unidos, como o La Mattachine Society, fundado em 1951, em Los Angeles, por homens gays, e o The Daughters of Bilitis, um grupo lésbico criado em 1955 em São Francisco, que atuava em paralelo ao primeiro. Em relação ao movimento transsexual, a criação do periódico Transvestia: The Journal of the American Society for Equality in Dress, em 1952, é considerado um marco da organização de pessoas transsexuais e travestis em prol da luta por seus direitos. Desse modo, entende-se a articulação LGBT+ como um movimento gradual que foi sendo construído ao longo do início da segunda metade do século XX, através da criação uma rede de contatos que foi essencial para o fortalecimento do movimento que ocorreu após 1969. (FERRAZ, 2017; JIMÉNEZ, 2009).

No Brasil, o movimento LGBT+ articulou-se, principalmente, a partir da década de 1970, durante o período da ditadura civil – militar (1964 a 1985), através da publicação de periódicos e panfletos que expunham as pautas e reivindicações desta população. O jornal Lampião da Esquina foi fundado em 1978 e era abertamente homossexual, denunciando violências contra a população LGBT+, como prisões arbitrárias, além de abordar outras pautas sociais, fazendo oposição ao regime militar. No ano de 1981, um grupo de mulheres lésbicas criou o jornal ChanacomChana, que era comercializado no Ferro’s Bar, local do centro de São Paulo frequentado, principalmente, por mulheres lésbicas e bissexuais. A venda não era aprovada pelos donos do local que, em julho de 1983, tentaram expulsar as ativistas que vendiam os jornais, proibindo sua circulação. No mês seguinte, na noite de 19 de agosto, o Grupo de Ação Lésbica Feminista (Galf) articulou-se com a imprensa, outros ativistas e até mesmo figuras públicas como a vereadora Irene Cardoso e promoveu a invasão do Ferro’s Bar para a leitura de um manifesto em defesa dos direitos das mulheres lésbicas, conseguindo derrubar a proibição e restabelecer a circulação do periódico. O episódio ficou conhecido como “pequeno Stonewall brasileiro”. (COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2014; FÁBIO, 2017; FERRAZ, 2017). 

Capa do ChanacomChana, setembro de 1983. Fonte: Acervo Bajubá.

O primeiro grupo homossexual criado no Brasil foi o Somos (Grupo de Afirmação Homossexual), em 1978, que organizava, primordialmente, demandas de homens gays. No ano seguinte, mulheres lésbicas juntaram-se ao grupo, criando uma subdivisão denominada Lésbicas Feministas. No entanto, o grupo se dissolveu em 1983, devido à grande dificuldade de articulação de movimentos sociais durante a ditadura. No ano de 1992, foi fundado o primeiro coletivo de articulação política de travestis e transsexuais da América Latina, o ASTRAL (Associação de Travestis e Liberados). (FÁBIO, 2017). Nesse sentido, o debate acerca das necessidades de cada uma das letras da sigla numa escala nacional foi sendo construído em um período de intensa repressão, sendo a articulação também gradual e marcada por episódios de resistência contra o regime ditatorial. 

Na década de 1980, a explosão do vírus HIV representou uma nova fase para o movimento LGBT+ no Brasil e no mundo, pois a epidemia atingiu, em imensa escala, homens gays e bissexuais, além de transsexuais e travestis. Estes indivíduos ficaram marcados por um estigma de portadores e transmissores de uma doença mortal e sem cura, conhecida como o “câncer gay”. (FERRAZ, 2017). Houve uma reorganização das pautas políticas e a saúde pública tornou-se prioridade em lugar da demanda por libertação sexual. (FÁBIO, 2017). No entanto, o desconhecimento de um tratamento eficaz resultou em um índice de mortes muito alto, e, além disso, o preconceito e a discriminação fizeram com que muitos indivíduos infectados não tivessem acesso à um tratamento humanizado.

A eclosão da epidemia resultou na criação de diversos fundos e casas de apoio dedicados ao tratamento de pessoas com AIDS, fazendo com que o movimento LGBT+ se organizasse mais fortemente em busca de visibilidade e atenção adequada. Apesar do estigma prevalecer até hoje, por exemplo, na proibição de doação de sangue por homens gays no Brasil, a crise da AIDS foi um momento crucial para a reorganização política do movimento e determinação de pautas mais específicas e urgentes.

Ao longo da história, o movimento LGBT+ foi responsável pela criação de uma consciência de que qualquer indivíduo merece acesso à direitos básicos independente de sua orientação sexual ou identidade de gênero. O reconhecimento de que a não-heterossexualidade e não-cisgeneridade são expressões sexuais válidas, além de outra série de direitos (casamento homossexual e adoção por casais homossexuais, direitos trabalhistas, direito ao nome social) garantidos em grande parte do mundo são resultados de pressões realizadas durante anos, numa demanda por visibilidade e respeito. 

Todavia, ainda há muito no que se avançar no que diz respeito à direitos LGBT+, uma vez que, atualmente, 70 países ainda possuem legislações contra essa população, inclusive condenação à pena de morte em alguns deles. A homofobia internalizada na sociedade ainda é um problema até mesmo nos países mais desenvolvidos no quesito de garantia de direitos à esta população, e a luta contra os esteriótipos, a estigmatização e o preconceito é constante. Entretanto, grupos como a Associação Internacional de Gays e Lésbicas (ILGA) e ONGs como a Stonewall, no Reino Unido, são essenciais não só para dar suporte à essa população, mas também para realizar pressões na opinião pública, nos órgãos internacionais e até mesmo nos governos dos Estados para que se garanta direitos básicos aos quais qualquer indivíduo deveria ter acesso, além de ajudarem na construção de um ideal de respeito, empatia e da igualdade como algo saudável e desejável. 

Em um momento como o atual, é importante ressaltar que a luta LGBT+ não existe se não há recortes de raça, gênero e classe, visto que não somos uma coletividade homogênea e, portanto, nossas demandas são divergentes quando consideramos esses aspectos. Mais do que nunca, que lembremos que Stonewall não foi um ato pacífico e teve em sua vanguarda mulheres lésbicas e transsexuais negras, corajosas o suficiente para reagir à repressão policial e dar início a um longo processo de conquista dos direitos que temos hoje. Não podemos nos esquecer disto.

Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, 2019. Fonte: GoHurb.

CARTER, David. Stonewall: The Riots That Sparked the Gay Revolution. Boston: Macmillan Publishers, 2004.

Chanacomchana. Chanacomchana Edição 4. Disponivel em: http://acervobajuba.com.br/chanacomchana-edicao-4/ Acesso em: 01 Ago. 2019.

Comissão da Verdade do Estado de São Paulo (Brasil). Ditadura e Homossexualidades: Iniciativas da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”, 2014. Disponivel em: http://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/relatorio/tomo-i/downloads/I_Tomo_Parte_2_Ditadura-e-Homossexualidades-Iniciativas-da-Comissao-da-Verdade-do-Estado-de-Sao-Paulo-Rubens-Paiva.pdf Acesso em: 01 Ago. 2019.

FÁBIO, André Cabette. A trajetória e as conquistas do movimento LGBT brasileiro, 2017. Disponivel em: https://www.nexojornal.com.br/explicado/2017/06/17/A-trajet%C3%B3ria-e-as-conquistas-do-movimento-LGBT-brasileiro Acesso em: 02 Ago. 2019.

FERRAZ, Thaiz. Dia do Orgulho LGBT: Conheça a história do movimento por direitos, 2017. Disponivel em: https://guiadoestudante.abril.com.br/blog/atualidades-vestibular/dia-do-orgulho-lgbt-conheca-a-historia-do-movimento-por-direitos/ Acesso em: 01 Ago. 2019.

GAUCHAZ. 30 anos após aids virar epidemia, homens gays ainda são impedidos de doar sangue, 2014.  Diaponivel em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/noticia/2014/10/30-anos-apos-aids-virar-epidemia-homens-gays-ainda-sao-impedidos-de-doar-sangue-4610201.html Acesso em: 01 Ago. 2019.

GEOGEGHAM, Tom. Stonewall: A riot that changed millions of lives, 2019. Disponivel em: https://www.bbc.com/news/world-us-canada-48643756 Acesso em: 01 Ago. 2019.

GMT. The first gay pride parades, 2016. Disponível em: https://edition.cnn.com/2016/06/16/us/gallery/tbt-first-pride-parades/index.html Acesso em: 02 Ago. 2019.

GUERRA, Veronica. As atrações da semana da Parada LGBT de São Paulo, 2019. Disponivel em: https://www.hurb.com/viajantehu/as-atracoes-da-semana-da-parada-lgbt-de-sao-paulo/ Acesso em: 31 Jul. 2019.

JIMÉNEZ, Rafael M. Mérida. Manifiestos gays, lesbianos y queer: Testimonios de una lucha (1969 – 1994). Barcelona: Icaria editorial, 2009.

O GLOBO. Apesar de avanços, ser gay ainda é crime em 70 países (em alguns deles com pena de morte), 2019. Disponivel em: https://oglobo.globo.com/celina/apesar-de-avancos-ser-gay-ainda-crime-em-70-paises-em-alguns-deles-com-pena-de-morte-23674176 Acesso em: 31 Jul. 2019.

ROSSINI, Maria Clara. O que foi a rebelião de Stonewall? 2019. Disponivel em: https://super.abril.com.br/historia/o-que-foi-a-rebeliao-de-stonewall/ Acesso em: 01 ago. 2019.

UNITED NATIONS. Living free and equal, 2016. Disponivel em: https://www.ohchr.org/Documents/Publications/LivingFreeAndEqual.pdf Acesso em: 01 Ago. 2019.

Uma conversa sobre “Eu Nunca”, Fabíola Torres e heteronormatividade

Você provavelmente já ouviu falar da série Eu Nunca (Never Have I Ever), recentemente lançada pela Netflix, que conta a história de Devi, uma adolescente de origem indiana que, no meio do Ensino Médio, tenta lidar com questões comuns à qualquer pessoa que já teve 16 anos: mudanças nas amizades, busca por popularidade, perda da virgindade, conflitos familiares e, claro, suas paixões. Mas, para além disso, Devi também tenta lidar com a perda recente do pai e com seus questionamentos relativos à sua cultura e tradições. 

A série é leve, divertida e trata de assuntos sérios e profundos de uma maneira didática e cativante. Neste sentido, o que mais me chamou a atenção não foi a história da protagonista, mas sim de uma de suas melhores amigas: Fabíola Torres, uma menina negra, apaixonada por tecnologia e que começa a questionar sua sexualidade. Já devo me adiantar esclarecendo que a trajetória de Fabíola passa longe de ser o foco da primeira temporada, mas os poucos momentos em que a nossa atenção é voltada para a vida dela me proporcionou um sentimento de identificação e me fez pensar que a Eu Nunca retrata muito bem algumas vivências não-heterossexuais em uma sociedade heteronormativa. 

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A heteronormatividade, segundo a cientista política Cathy J. Cohen, é um conjunto de “práticas e instituições que legitimam e privilegiam a heterossexualidade e relacionamentos heterossexuais como fundamentais e ‘naturais’ dentro da sociedade”. 

Logo no começo da série, quando Devi começa a pensar em um plano para que ela e suas amigas sejam populares, uma das primeiras estratégias é que todas elas consigam namorados. O fato de Devi assumir, automaticamente, que suas amigas são heterossexuais reflete muito o que acontece a todo momento e em qualquer lugar. Quando todos ao nosso redor presumem o mesmo, não nos resta muito tempo e espaço para questionar isso, principalmente quando não temos mais ninguém para conversar sobre o que estamos pensando. Esse tipo de comportamento é uma consequência direta da heteronormatividade ao mesmo tempo que a reforça, alimentando a ideia de que o natural e esperado é que todos se atraiam pelo sexo oposto.

Em um outro momento, Fabiola e sua mãe estão na manicure juntas e, embora a garota deseje unhas limpas e simples, a mãe continua insistindo para que ela faça algo mais “feminino”. Poderíamos discutir uma infinidade de coisas a partir dessa cena: a pressão por feminilidade, a questão dos estereótipos e papéis de gênero, e, principalmente, ressaltar que o desinteresse por pintar as unhas não deveria dizer nada sobre a sexualidade de ninguém. O que mais me chamou atenção foi o diálogo entre mãe e filha que veio logo depois, quando Fabiola conta que acabou ficando mais tempo na escola fazendo um projeto de história com seus colegas de turma, Ben e Eve, e a mãe assume automaticamente que ela gosta de Ben. Não só nesta conversa, mas também em vários outros momentos da série, a mãe pressiona a filha para que ela tenha logo um namorado, o que também diz muito sobre as expectativas que são colocadas sobre nós ao nascermos: assim que a notícia de que “é uma menina!” é dada, as paredes do quarto são pintadas de rosa, os parentes tratam de comprar vestidos, saias e lacinhos e, na infância, já começam as brincadeiras sobre os “namoradinhos”. O que é esperado de nós é que, no momento certo – e jamais antes disso – nos casemos com um homem forte e viril. Essa expectativa desde que nascemos reflete que a instituição da família é uma grande perpetuadora dos valores heteronormativos. 

Never Have I Ever Recap Season 1 Episode 3: …Gotten Drunk

A primeira vez que Fabiola tem coragem de admitir que gosta de outras garotas é quando ela programa um robô para dizer a frase “i’m gay”. A cena me lembrou do momento em que, nos meus 15 anos, às três e meia da manhã, falei pela primeira vez que não era heterossexual. Com a voz baixa, quase sumida, no escuro e na solidão do meu quarto e de porta fechada, depois de horas sem conseguir dormir. De certa forma, o que mais poderíamos esperar de um momento que exige que finalmente nos reconheçamos como o que toda a sociedade rotula como “anormal”, “doentio” ou “perverso”? É cruel pensar quantos de nós tenham de passar por uma dor tão intensa simplesmente para poderem ser livremente quem são e o quanto de nossa juventude é roubada por este processo.

A heteronormatividade é uma ferramenta muito eficaz para marginalizar sistematicamente um segmento da população. Essa marginalização causa não apenas efeitos psicológicos severos nesses indivíduos, como também – e principalmente – produz uma desvantagem social para este grupo, que acaba por ter seus direitos violados ou negados, e não possuem as mesmas oportunidades de inserção social ou o mesmo amparo legal que os indivíduos heterossexuais. A história de Fabiola retrata apenas uma face mais individual da heteronorma, que, muito mais gravemente, justifica agressões, torturas e até mesmo execuções de pessoas LGBT. Embora muito da discussão apresentada acima pareça ser privada, o fato de a heteronormatividade regular os modos de viver e os desejos corporais dos indivíduos também torna-se um debate de âmbito público ao estabelecer que indivíduos heterossexuais, por serem “normais”, merecem um tratamento privilegiado em relação aos que não o são. Esta noção hierárquica de sexualidades leva ao que chamamos de homofobia, que, muito mais que um preconceito relacionado à aversão e desprezo por homossexuais, compreende um conjunto de crenças, valores, padrões normativos e mecanismos discriminatórios que definem relações de poder e sistemas de exclusão.

É importante lembrar que o debate sobre homofobia não pode ser tido de maneira isolada e que estes sistemas de exclusão se intercalam quando consideramos outros fatores como classe social, gênero e raça. A própria Fabiola, por ser uma mulher negra, não sofre unicamente por ser lésbica, mas também por ser uma mulher e por ser negra. Dessa maneira, sua vivência também é afetada pela misoginia, pelo racismo e pela lesbofobia, ou seja, a intolerância e perseguição de mulheres que não cumprem com normas de gênero estabelecidas culturalmente pelo poder masculino. As vivências lésbicas sofrem dupla vulnerabilidade ao não serem completamente incluídas nas pautas de combate ao machismo e da homofobia. A lesbofobia não é, simplesmente, uma soma destas duas realidades e, portanto, demanda debates que não podem ser simplesmente uma reprodução de discursos anti-homofóbicos ou anti-misóginos. Mulheres que se relacionam com mulheres e, principalmente, mulheres lésbicas, possuem suas próprias demandas. Isto também é assunto para outro texto. 

Você shippa Fabiola e Eve? Vote agora! - Enquetepop

No fim das contas, a família de Fabiola aceita bem sua sexualidade e a garota engata um romance com Eve – que eu realmente espero que seja mais explorado nas próximas temporadas, já que há muito a ser dito. Li em uma resenha da série um comentário que criticava esse desfecho porque ele “não condizia com a realidade”. Bom, eu fico genuinamente feliz de ver histórias lésbicas serem narradas de forma leve e com um final feliz, já que isso é bem raro de se ver no audiovisual – quantos filmes de mulheres lésbicas você conhece e, mais do que isso, quantos deles contam uma história feliz? Imagino que poucos (se você ainda não viu o meu post recomendando cinco filmes de mulheres lésbicas ou bissexuais dirigidos por mulheres, clica aqui). Na verdade, quanto mais histórias assim forem contadas, mais condizente a realidade ficará com esse tipo de desfecho. E é exatamente isso que a gente quer. 

Algumas referências:

COHEN, Cathy J. Punks, bulldaggers, and welfare queen: The radical potential of queer politics? in “Black Queer Studies”. E. Patrick Johnson e Mae G. Henderson, eds. Duke UP, 2005. 24

JUNQUEIRA, Rogério Diniz. Homofobia: limites e possibilidades de um conceito em meio a disputas. Bagoas – estudos gays: gênero e sexualidades, Rio Grande do Norte, v. 1, n. 1, nov. 2012.

ME DEIXA GRITAR!

Olha, para de falar nesse tom baixo porque eu não nasci pra ser segredo. O que é pra ser sigilo escolho eu, e isso não vai ser nunca. A partir do momento que virou certeza para mim, eu não pretendo esconder de ninguém. Que me aceitem desse jeito – talvez não aceitem, mas que me respeitem e me engulam. Porque eu existo. 

“Lesbian kiss steals spotlight at French anti-gay parenting protest”, France 24.

Eu não me importo com o que vão pensar, ou falar, ou sussurrar entre eles. Eu não me importo se vão rir de mim, ridicularizar o meu cabelo, a minha voz, as minhas roupas, as minhas opiniões, o meu jeito de rir ou o meu senso de humor. Eu não me importo se quiserem dizer que estou errada, que nasci doente, que estou desvirtuando as crianças deles: eu tenho dó das crianças deles. Estou aqui e existo, faço barulho, ocupo espaço. Também sou matéria e falarei tão alto quanto for necessário para incomodá-los. 

Eu não sou fetiche, eu não sou piada, eu não sou vergonha. Não sou estranha, doente, anormal. E eu não vou me esconder numa gaveta, calar meu riso frouxo, me pintar de preto e branco ou deixar que queimem e escondam nosso passado, que finjam que nunca existimos. Não volto para mais nenhum armário e não vou mais apresentar a mulher que amo como uma amiga ou inventar histórias sobre o meu namorado para as pessoas do trabalho. Não vou me manter atrás de uma cortina fechada ou deixar de apertar a mão de outra igual a mim no meio da avenida. Não vou, porque o mundo precisa é de mais saúde, e qualquer amor já é um pouco. Eu não vou passar despercebida, porque eu também narro essa história.

Quando narro, narro com minha voz lésbica e gesticulo com minhas mãos lésbicas. Escrevo minhas vivências com meus dedos lésbicos que tocam outros corpos – femininos – e deixam por aí as minhas digitais lésbicas. Se me agridem, sangro lésbica e quando grito também não deixo para trás essa parte de mim. Que, é verdade, não me define unicamente, mas que em sua ausência não me sou inteira. E não me permito esconder nem um milímetro meu: não tenho outra possibilidade a não ser a de me jogar no mundo como sou, sendo como posso. E a liberdade mais bonita e intensa a certeza de que nada nesse mundo pode me fazer sentir vergonha da pessoa que vejo quando encaro o espelho. 

Eu não quero saber, não é pra falar nesse tom baixo sobre mim, porque eu não vou esconder de ninguém esse carnaval que carrego no peito e esse sorriso aberto que mostra o meu orgulho de ser quem sou. 

Me deixa gritar, porque eles precisam ouvir.

5 FILMES COM REPRESENTATIVIDADE LÉS/BI PARA ASSISTIR NA QUARENTENA

Na semana passada, falei um pouco sobre a importância de darmos voz à mulheres que amam mulheres para que elas possam contar suas histórias – seja de forma direta ou através de representações na televisão, no cinema e na literatura. Hoje, vou fugir um pouco do formato tradicional de texto/conto/prosa poética para dar espaço à divulgação de filmes com protagonistas lésbicas ou bissexuais dirigidos por mulheres (algumas delas assumidamente lésbicas/bissexuais). É necessário que obras como estas tenham, cada vez mais, um maior alcance: precisamos valorizar trabalhos que abordem a temática sáfica, principalmente aqueles feitos por mulheres lés/bi. Espero que aproveitem e que as sugestões sejam úteis em tempo de isolamento social!

RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS (Céline Sciamma, 2019)

O filme é um drama romântico que se passa na França, durante o século XVIII, e conta a história de Marianne, uma jovem pintora encarregada de pintar o retrato de casamento de Héloise secretamente, de modo que passa a observá-la ao longo do dia para retratá-la pela noite. Ao longo do tempo, as duas mulheres se aproximam e compartilham os últimos momentos da noiva antes de seu casamento.

A diretora, Céline Sciamma, é uma cineasta e roteirista francesa e foi premiada em Cannes pelo roteiro do filme. Em sua carreira, Sciamma busca representar histórias de jovens mulheres, inclusive participando de um movimento internacional pela representação feminina no cinema internacional.

“[…] eu queria produzir uma história de amor, um filme que fala sobre uma história de amor e descreve passo a passo como é se apaixonar e também mostra o escopo de uma história de amor – o filme foi construído em torno dessas duas ideias, desses dois pilares. E também queria falar sobre mulheres artistas, mulheres pintoras, em geral.”

Céline Sciamma

Assista ao trailer aqui.

D.E.B.S. – AS SUPER ESPIÃS (Angela Robinson, 2004)

Este filme de ação cômica estadunidense foi, na realidade, uma adaptação de um curta-metragem de mesmo nome lançado no ano anterior. Conta a história de um grupo de espiãs juvenis (as D.E.B.S.) que foram recrutadas por uma agência governamental por suas habilidades potenciais para espionagem e agora possuem a missão de capturar a vilã Lucy Diamond – a questão é que uma das espiãs acaba se envolvendo com Lucy.

A diretora, Angela Robinson, é também produtora e roteirista, e costuma abordar questões de vivência lésbica em seus trabalhos. Robinson é casada com Alexandra Kondracke – as duas se conheceram na faculdade, em Nova York – com quem teve um filho em 2009.

Angela Robinson

Assista ao trailer aqui. O filme está disponível na Netflix!

LIVRANDO A CARA (Alice Wu, 2008)

Esta comédia dramática conta a história de Wil Pang, uma jovem cirurgiã solteira aos 28 anos que se descobre lésbica quando se apaixona pela bailarina Vivian. As duas mulheres se encontram em segredo enquanto Wil pensa em como contará sobre o relacionamento para sua mãe viúva, Ma. Inesperadamente, a mãe aparece em sua casa contando que está grávida e que foi expulsa da comunidade chinesa onde vivia por se negar a revelar quem é o pai da criança – e agora mãe e filha terão que conversar.

A diretora, Alice Wu, declarou que o filme foi inspirado em sua própria história e no momento em que se assumiu lésbica na comunidade chinesa em que vivia. Ela afirmou que seu desejo era de que, ao assistirem seu filme, as pessoas sentissem que, independente de quem fossem ou a qual cultura pertencessem, nunca será tarde demais para conquistar aquilo que desejam secretamente – seja o desejo de viver um grande amor ou qualquer outro.

“Eu quero que eles [os espectadores] saiam do cinema com um sentimento de esperança e possibilidade”.

Alice Wu

Assista ao trailer aqui.

ELISA Y MARCELA – ALÉM DOS HOMENS (Isabel Coixet, 2019)

Baseado em uma história real sobre a primeira (e única) união católica lésbica na Europa, o filme se passa na Espanha de 1901 e retrata como a jovem Elisa Sánchez Loriga adotou uma identidade masculina para conseguir se casar na igreja com a mulher que amava, Marcela Gracia Iberas.

Isabel Coixet é uma cineasta espanhola que conheceu a história das duas mulheres em uma viagem para Galícia, decidindo levá-la para as telas pelo seu desejo de “retratar mulheres fortes” e por acreditar que “as pessoas deveriam conhecer uma história como essa”. Aqui também tem uma entrevista em que a diretora fala um pouco sobre o filme.

Isabel Coixet

Assista ao trailer aqui. O filme está disponível na Netflix!

I CAN’T THINK STRAIGHT (Shamim Sarif, 2008)

O filme retrata a descoberta do amor entre duas jovens de origens muito distintas que vivem em Londres. Tala, de ascendência palestina, é uma cristã que está planejando seu casamento com um homem jordano, enquanto Leyla é uma muçulmana tímida que conhece Tala através de seu amigo em comum, Ali. 

Shamim Sarif é uma novelista, roteirista e diretora de descendência sul-asiática que aborda questões LGBT e relativas aos direitos das mulheres em suas obras. I Can’t Think Straight foi vencedor de 11 prêmios na época em que foi lançado.

Shamim Sarif

Assista ao trailer aqui.

“Secreto e Proibido”: por que devemos contar as nossas histórias?

Ontem eu decidi assistir o novo documentário original da Netflix, Secreto e Proibido (ou “A Secret Love”, em inglês), que conta a história de vida de Terry e Pat, duas senhoras que se conheceram na década de 1940 e viveram um romance de quase 70 anos. Durante a maior parte desse tempo, no entanto, esconderam a verdade da maior parte das pessoas que conheciam, afirmando continuamente que eram apenas “duas grandes amigas” que decidiram viver juntas pois “a vida nos Estados Unidos é muito cara”. 

Não consigo imaginar como deve ser amar alguém por tantas décadas e esperar até a velhice para soltar a respiração e poder ser quem você é e amar livremente. Por mostrar essa vivência de forma tão crua e real, intercalando relatos sobre a juventude de ambas com momentos do presente, quando elas estão aprendendo a lidar com a velhice (e, por vezes, reencontrando o passado), o documentário é muito emocionante. É realmente impressionante assistir uma história de amor entre mulheres que atravessou tantas fases, especialmente uma que teve início em uma época em que a noção de liberdade feminina mal existia, fosse ela individual, sexual ou afetiva. É doloroso pensar no quanto deve ter sido difícil viver como um casal lésbico durante a maior parte do século passado e é, de fato, muito bonito ver o quanto esse amor foi resiliente. 

Imagem recortada do pôster oficial do documentário original da Netflix, “A Secret Love”.

Qualquer pessoa que seja LGBT e, principalmente, qualquer mulher que se relacione com mulheres, vai se identificar com inúmeros sentimentos retratados ao longo do filme. A identificação é algo poderoso, porque percebemos que não andamos sozinhos e que, na realidade, muitas outras pessoas, em muitos outros lugares, experienciam vivências similares às nossas. Terry e Pat se mudaram do Canadá, seu país de origem, para Chicago, nos EUA, ainda muito novas, em uma tentativa de se livrarem das pressões familiares para se casarem com seus respectivos pretendentes e motivadas pelo medo que sentiam de serem descobertas por suas famílias e conhecidos. Talvez não nos identifiquemos com a situação de um casamento precoce, mas quantos de nós não escolhem viver longe de suas famílias para poderem, finalmente, ser quem são? Quantos de nós escolhem, propositalmente, uma faculdade longe de casa, para poderem “começar” a viver aos quase 20 anos? 

As senhoras também relembram o medo que sentiram quando finalmente decidiram contar às sobrinhas que eram um casal. Isso aconteceu apenas após muitas décadas juntas, e Terry descreve a sensação de “estar vivendo uma mentira”. Não há nada mais exaustivo do que viver fingindo e nada mais doloroso do que esconder uma parte tão grande de nós de pessoas que amamos. O medo da perda, do abandono, simplesmente por revelarmos ser quem somos – só o fato de termos que passar por isso já é absolutamente injusto. Mas a gente acaba se acostumando com as inúmeras injustiças que somos submetidos e, apesar de tanta coisa ter mudado no mundo desde 1940 até hoje, não é curioso como ainda compartilhamos desse medo de forma tão idêntica? 

O documentário também provoca uma  percepção muito importante do quanto mulheres lésbicas e bissexuais de gerações passadas tiveram que lutar para conquistar alguns direitos que nos parecem tão corriqueiros hoje, como simplesmente sentar em um bar conhecidamente LGBT sem ter medo de ser preso. Nas décadas de 1950 e 1960 eram muito comuns, nos EUA, as batidas policiais à bares queer, que resultaram em centenas de pessoas presas. Não sendo suficiente, os nomes dessas pessoas e suas profissões eram publicados nos jornais de grande circulação das cidades, de modo que a maioria delas – senão todas – ficavam desempregadas e tinham grande dificuldade de serem contratadas novamente. Algumas ativistas relatam, ainda, que as mulheres que não estivessem vestidas com, no mínimo, três peças consideradas femininas, eram levadas para a cadeia acusadas de “crime homossexual”. Em 1969, uma dessas batidas acabou provocando a chamada Revolução de Stonewall, um marco para a organização do movimento LGBT de forma mais consolidada e, consequentemente, da garantia de direitos para essa população – mas isso eu vou contar em outro texto. 

Pat e Terry em sua casa, em Chicago.
Mais um registro do casal em sua juventude.

De qualquer maneira, como lésbica, não conheço muitas histórias de mulheres como eu que sejam assumidas aos quase 80 anos e estejam dispostas a relatar suas vivências, como Terry e Pat. Essa falta de referências não é puro acaso. A história de indivíduos LGBT em geral e de mulheres lésbicas em específico é apagada de forma sistemática e constante, com um propósito político que serve àqueles que se beneficiam da heteronorma sobre a qual nossa sociedade se constitui. A falta de evidências de nossa existência nos séculos passados justifica o argumento da lesbianidade como uma patologia, já que sua ocorrência é tão rara, e que a heterossexualidade é inata aos indivíduos. Esta é uma ideia desenvolvida pela pensadora estadunidense Adrienne Rich (1929 – 2012) em seu artigo “Existência Lésbica e Heterossexualidade Compulsória”, no qual a autora cita uma passagem da historiadora Blanche W. Cook, que afirma:

“Em um mundo hostil em que não se supõe que as mulheres sobrevivam a não ser através das relações com e a serviço dos homens, comunidades inteiras de mulheres são simplesmente apagadas. A História tende a enterrar o que ela procura rejeitar.”

Se na história não há registros de vivência lésbica, nos tornamos frágeis e vulneráveis, pois vivemos sem referências, sem tradição e acreditando que não existem – nem nunca existiram – mulheres como nós. Não temos acesso à como grupos de ação lésbica se organizaram politicamente na sociedade, ou como pressionaram as instâncias de poder para concretizar suas demandas. Desse modo, crescemos acreditando que nunca existimos politicamente – e tendemos a continuar assim, inertes, por não saber como fazer com que nossas vozes sejam ouvidas. Pior que isso – crescemos acreditando que não temos o direito de sermos ouvidas, porque nossas demandas não importam. 

Em âmbito mais pessoal, também não temos acesso à histórias de amor entre mulheres que resistiram através do anos, apesar do preconceito e de todas as dificuldades, e também crescemos acreditando que uma vida “comum” e feliz ao lado de nossa parceira não é uma realidade possível para nós. O casamento, a família e a felicidade nos é negada, porque simplesmente não conhecemos outras mulheres lésbicas que viveram dessa maneira, logo, como poderíamos? 

Em certo momento do filme, Pat encontra algumas cartas de amor que ela escreveu para Terry. A sobrinha delas pergunta o motivo de todas as folhas estarem com a parte de baixo rasgadas, e a resposta é: “tínhamos medo de algo acontecer com uma de nós e nossos familiares encontrarem as cartas e descobrirem que éramos lésbicas”. Isso demonstra o quanto a homofobia – mais especificamente, a lesbofobia – manipula indivíduos ao colocá-los em tamanho risco a ponto de que eles mesmos não possam deixar suas histórias registradas. É um ciclo que só pode – e deve – ser quebrado a partir de iniciativas como a desse próprio filme, de documentar e expor essas vivências para que gritemos para as próximas gerações: NÓS SEMPRE EXISTIMOS

Terry relembra seu romance com Pat através de fotos e cartas.

Outro exemplo de iniciativas neste sentido é o projeto Lesbian History Archives, organizado em Nova York com o objetivo de preservar  e expor, gratuitamente, registros contemporâneos sobre a existência de mulheres lésbicas e suas comunidades, atuando contra a censura e o apagamento de suas expressões culturais. Você pode ler um pouco mais sobre a história e o propósito da missão deste grupo clicando aqui

Quanto mais histórias de mulheres que amam mulheres forem difundidas, publicizadas, contadas nos bares entre grupos de amigas, mais seguras, confiantes e conscientes estaremos sobre quem somos e de onde viemos e mais palpáveis nos tornamos sob os olhos do resto do mundo. Isto também diz respeito à produção e divulgação de histórias fictícias na literatura, no cinema e na televisão, ou seja, à representatividade. A arte deve nos representar como as pessoas reais que somos, presentes em todos os âmbitos da sociedade, com as mais diversas narrativas, mostrando que o nosso amor é real. Em um dos primeiros bilhetes que Pat escreveu para Terry, ela diz:

“Eu sou uma leitora, Terry, e já li as mais diversas histórias. Mas em nenhuma delas havia uma mulher que se apaixonasse por outra.”

Escrevo esse e todos os meus outros textos na tentativa de que isso nunca mais seja dito por nenhuma jovem garota que descobre estar apaixonada por outra. Escrevo para que não sejamos nunca mais anônimas, invisíveis, para que existam milhões de histórias como as nossas, porque, então, se tornará impossível apagar todas elas. Escrevo porque cada vez que uma mulher lésbica fala em voz alta sobre o seu afeto, ela firma raízes cada vez mais profundas para todas as outras que são como ela. Eu escrevo para que nunca mais tenhamos que rasgar as assinaturas de nossas cartas de amor. 

Terry e Pat – finalmente casadas!

. . . 

Algumas referências: 

COOK, Blanche, W. “Women Alone Stir My Imagination”: lesbianism and the Cultural Tradition”. In: Journal Of Women in Culture and Society, x.4, p. 719-720, 1979. Disponível em: https://www.journals.uchicago.edu/doi/10.1086/493659?mobileUi=0&

RICH, A. Heterossexualidade compulsória e existência lésbica. Bagoas – Estudos gays: gêneros e sexualidades, v. 4, n. 05, 27 nov. 2012. Disponível em: https://periodicos.ufrn.br/bagoas/article/view/2309.

Projeto The Lesbian History Archives: http://www.lesbianherstoryarchives.org/

Eu disse que não escreveria mais sobre isso.

Decidi não escrever mais sobre o amor quando descobri que tudo que um dia me ensinaram sobre o que era amar era uma armadilha. Uma história bem contada, floreada e bonita, mas fictícia. Ilusória e enganosa, calculada, que contrariava tudo que aparentava ser – nada espontânea ou quente; apenas um lençol frio e branco cobrindo mentiras. Porque quando descobri quem eu era, me disseram também que o amor não era para pessoas como eu.

O ato de amar me foi negado. Mais do que negado; impossibilitado. Porque o que me ensinaram sobre o amor contraria tudo o que eu sou capaz de sentir;  contraria também o que eu sou e ponto. Me ensinaram que as pessoas são divididas em dois tipos: as que são merecedoras de amor e as que não são. Como se amor fosse uma moeda de troca, um tipo de benefício que recebe quem preenche alguns requisitos. 

Me vi sem saber quem era – ou desejando não ser o que era – porque arrancaram as minhas verdades de mim. Todos os livros, filmes e músicas pareciam dizer que eles estavam certos e eu, errada. O mundo despencou e dependurou-se de ponta cabeça na direção contrária à minha caminhada. 

Tentei redescobrir o que era o amor nas entrelinhas, entre toda aquela informação bombardeada de manuais e listas que tomavam o sentimento como uma verdade dada, com limites bem delineados, regras bem estabelecidas. Vaguei no meu cotidiano e fui percebendo amor nas coisas mais minúsculas. Nas manhãs amarelas de março que cheiravam a café fresco e ovos mexidos, no barulho do arrastar das cadeiras de madeira, no ato de observar em silêncio as nuvens se arrastarem no céu e sentir as bochechas espremerem os olhos imaginando formas improváveis de animais branquinhos – essa sensação de infância e conforto. Nas mãos enrugadas que me entregavam potes de biscoito recém assados, no cheiro de laranjas sendo cortadas ao meio, na textura das roupas recém-lavadas em casa. No tom de preocupação genuína em uma pergunta sobre o que quer que fosse e no toque de mãos cheias de ternura. Em um olhar demorado. 

Li num livro de poemas que a ideia de morrer por amor não fazia sentido porque o amor é o contrário do fim. O amor perdura, terreno, se transforma em criaturas de tantas formas, tão mutável que não se explica. E não se acomoda com qualquer identidade que lhe é imposta – transcende o que quer que seja que chamamos de tempo.

E todas aquelas canções que deveriam ser sobre amar, de repente, não eram. E metade das pessoas que diziam falar sobre o amor, de repente, pareciam não entender do que falavam. Porque o amor não tem a ver com sacrifício; tem a ver com rendição. Não tem a ver com grandes atos, é uma peça de teatro independente num subúrbio qualquer. Não tem a ver com gaiolas e amarras – o amor é anarquista, insubordinado, não colonial. É persistente, preenche tudo – feito cheiro de hortelã molhado. O amor anda descalço.

O amor é tudo aquilo que disseram que não era.

(Acho que finalmente entendi Bukowski).

PARTO

Abra as fronteiras para mim,
ela disse, gritando
e do outro lado do mundo se fez ouvir.
Apesar de toda a confusão e ambiguidade
amor não é um ato de gratidão,
embora ela exigisse que fosse.
Embora soubéssemos que tudo seria mais fácil
se de fato fosse.
Mas a querência não é ato de realização, também.
Abra as fronteiras para mim,
ela continuou sussurrando
escondida nas esquinas em que viravam os anos
enquanto o outro lado fingia não ouvir.
Mas qualquer sussurro se faz mais intenso
do que todos os gritos do mundo
E nós sabíamos disso.
Abra suas fronteiras para mim,
porque um dia te abri as minhas.
Mas nós também sabíamos
que fronteiras imaginárias não podem
ser abertas ou fechadas
pela pura vontade ou
pelo puro querer.
Até mesmo porque
o muro que um dia separou Berlim
continuou erguido após 1989
mantendo os cachorros uivando
em lados opostos sem saber
que poderiam atravessar.
Derrube seus muros por mim,
ela disse
e eu continuei golpeando
e golpeando
o espaço vazio
sabendo que não derrubava
tijolo algum
embora pudéssemos ouvir
o barulho de dezenas deles
estralhançando-se no chão entre nós.