A CADA ROTAÇÃO

Parece ter sido ontem que te vi entre esses morros mineiros, entre essas serras verdes e nuvens de cerrado. Parece ter sido ontem que vi as sombras do entardecer esconderem seu rosto, de um jeito ligeiramente diferente de como ele se esconde entre as minhas pernas, mas com o mesmo mistério. Parece ter sido ontem que tudo que eu enxergava no vazio da noite era seu olhar.

https://www.atlanticahotels.com.br/blog/viagem-de-inverno-conheca-minas-gerais-no-frio-e-apaixone-se/

Quando te conheci, meus pés eram ingênuos e tinham caminhado poucas distâncias – nem mesmo sabiam o quanto queriam andar. Seus olhos nunca foram inocentes e com o tempo os observei ganhar um tom a mais de malícia e sede de viver. Seu corpo e seu toque afiados nunca deixaram de ser contraste à sua voz macia. Poucas vezes tenho o gosto de revisitar quem eu era e quem era você, e a nostalgia me afoga e ponto de me deixar sem ar – mas se teve um tempo que sofri por causa de uma saudade infundada e irracional, hoje, não sofro mais. Aprendi a observar suas novas versões se formarem e irem ficando para trás e isso me dá certo desejo; fico curiosa para te conhecer a cada nascer do sol.

Sinto que amadureço como uma fruta – de um dia pro outro, mas lentamente, exatamente da maneira com que adormeço. Não sinto sempre aquele amor que incendeia tudo – às vezes, ele aparece de visita, mas, depois de uns dias, faz as malas e me deixa com o vento fresco que faz música com as folhas de árvores como se fossem pandeiros. E é melhor amar assim; um amor que caminha junto ao meu próprio, que respeita o tempo em vez de ir contra ele. Gosto assim: amo feito roda de samba na beira do mar sob a luz horizontal do sol, mas sei quando ser carnaval…

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