A história do movimento LGBT+: origem e luta

Pessoas LGBT+ sempre existiram no mundo e existem diversos relatos documentados que comprovam a ocorrência de relacionamentos homossexuais e comportamentos de mudança de gênero nas mais variadas culturas.  No entanto, o marco inicial da formação de um movimento social organizado se consolidou na data 28 de junho de 1969, quando aconteceu, em Greenwich Village (Nova Iorque), a chamada Rebelião de Stonewall. 

A revolta de Stonewall, 28 de junho de 1969. Fonte: BBC, 2019.

Nos anos 60, ainda era crime ser homossexual em grande parte dos Estados Unidos, incluindo no estado de Nova Iorque. Na cidade, o bar Stonewall Inn era um ponto de encontro popular entre gays, lésbicas, bissexuais, transsexuais e travestis, uma vez que os donos do local, que faziam parte da máfia italiana, mantinham o policiamento afastado através do pagamento de propina. No entanto, isso não protegia a população LGBT+ que ali estava de sofrer discriminação e serem vítimas de violência. Frequentemente, policiais prendiam ou expulsavam indivíduos que “praticavam comportamento homossexual” ou que não estavam vestidos adequadamente para o seu sexo, o que configurava “crime contra a natureza”. (JIMÉNEZ, 2009; GEOGHEGAN, 2019; ROSSINI, 2019). 

Em 28 de junho, policiais invadiram o bar, agredindo e tentando levar, à força, o grupo que ali estava, que, finalmente, decidiu resistir, reagindo às agressões e atirando moedas e garrafas em direção às forças policiais. Apesar das tentativas da polícia de dispersar a multidão, cada vez mais chegavam pessoas para dar força à resistência, marcando o início de uma série de protestos e formações de grupos organizados que passaram a lutar pela garantia de direitos para a população LGBT+, sendo os principais deles o Gay Liberation Front (GLF) e o Gay Activists Alliance (GAA). (CARTER, 2004). A Rebelião de Stonewall foi um marco na história da luta pelos direitos LGBT+, provocando uma série de pressões sociais realizadas pelos grupos que se organizaram a partir desta data. O dia 28 de junho ficou consolidado como o dia do orgulho LGBT+ e é quando se realizam as inúmeras Paradas LGBT+ ao redor do mundo, que têm o objetivo de celebrar o orgulho de ser quem é e relembrar as necessidades e demandas de pessoas da sigla ainda nos dias de hoje. 

Primeira Parada do Orgulho LGBT+, Nova Iorque, 28 de junho de 1970. Fonte: CNN, 2016.

Entretanto, é interessante ressaltar que, mesmo antes de 1969, já haviam sido criados alguns grupos de organização homossexual, principalmente nos Estados Unidos, como o La Mattachine Society, fundado em 1951, em Los Angeles, por homens gays, e o The Daughters of Bilitis, um grupo lésbico criado em 1955 em São Francisco, que atuava em paralelo ao primeiro. Em relação ao movimento transsexual, a criação do periódico Transvestia: The Journal of the American Society for Equality in Dress, em 1952, é considerado um marco da organização de pessoas transsexuais e travestis em prol da luta por seus direitos. Desse modo, entende-se a articulação LGBT+ como um movimento gradual que foi sendo construído ao longo do início da segunda metade do século XX, através da criação uma rede de contatos que foi essencial para o fortalecimento do movimento que ocorreu após 1969. (FERRAZ, 2017; JIMÉNEZ, 2009).

No Brasil, o movimento LGBT+ articulou-se, principalmente, a partir da década de 1970, durante o período da ditadura civil – militar (1964 a 1985), através da publicação de periódicos e panfletos que expunham as pautas e reivindicações desta população. O jornal Lampião da Esquina foi fundado em 1978 e era abertamente homossexual, denunciando violências contra a população LGBT+, como prisões arbitrárias, além de abordar outras pautas sociais, fazendo oposição ao regime militar. No ano de 1981, um grupo de mulheres lésbicas criou o jornal ChanacomChana, que era comercializado no Ferro’s Bar, local do centro de São Paulo frequentado, principalmente, por mulheres lésbicas e bissexuais. A venda não era aprovada pelos donos do local que, em julho de 1983, tentaram expulsar as ativistas que vendiam os jornais, proibindo sua circulação. No mês seguinte, na noite de 19 de agosto, o Grupo de Ação Lésbica Feminista (Galf) articulou-se com a imprensa, outros ativistas e até mesmo figuras públicas como a vereadora Irene Cardoso e promoveu a invasão do Ferro’s Bar para a leitura de um manifesto em defesa dos direitos das mulheres lésbicas, conseguindo derrubar a proibição e restabelecer a circulação do periódico. O episódio ficou conhecido como “pequeno Stonewall brasileiro”. (COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2014; FÁBIO, 2017; FERRAZ, 2017). 

Capa do ChanacomChana, setembro de 1983. Fonte: Acervo Bajubá.

O primeiro grupo homossexual criado no Brasil foi o Somos (Grupo de Afirmação Homossexual), em 1978, que organizava, primordialmente, demandas de homens gays. No ano seguinte, mulheres lésbicas juntaram-se ao grupo, criando uma subdivisão denominada Lésbicas Feministas. No entanto, o grupo se dissolveu em 1983, devido à grande dificuldade de articulação de movimentos sociais durante a ditadura. No ano de 1992, foi fundado o primeiro coletivo de articulação política de travestis e transsexuais da América Latina, o ASTRAL (Associação de Travestis e Liberados). (FÁBIO, 2017). Nesse sentido, o debate acerca das necessidades de cada uma das letras da sigla numa escala nacional foi sendo construído em um período de intensa repressão, sendo a articulação também gradual e marcada por episódios de resistência contra o regime ditatorial. 

Na década de 1980, a explosão do vírus HIV representou uma nova fase para o movimento LGBT+ no Brasil e no mundo, pois a epidemia atingiu, em imensa escala, homens gays e bissexuais, além de transsexuais e travestis. Estes indivíduos ficaram marcados por um estigma de portadores e transmissores de uma doença mortal e sem cura, conhecida como o “câncer gay”. (FERRAZ, 2017). Houve uma reorganização das pautas políticas e a saúde pública tornou-se prioridade em lugar da demanda por libertação sexual. (FÁBIO, 2017). No entanto, o desconhecimento de um tratamento eficaz resultou em um índice de mortes muito alto, e, além disso, o preconceito e a discriminação fizeram com que muitos indivíduos infectados não tivessem acesso à um tratamento humanizado.

A eclosão da epidemia resultou na criação de diversos fundos e casas de apoio dedicados ao tratamento de pessoas com AIDS, fazendo com que o movimento LGBT+ se organizasse mais fortemente em busca de visibilidade e atenção adequada. Apesar do estigma prevalecer até hoje, por exemplo, na proibição de doação de sangue por homens gays no Brasil, a crise da AIDS foi um momento crucial para a reorganização política do movimento e determinação de pautas mais específicas e urgentes.

Ao longo da história, o movimento LGBT+ foi responsável pela criação de uma consciência de que qualquer indivíduo merece acesso à direitos básicos independente de sua orientação sexual ou identidade de gênero. O reconhecimento de que a não-heterossexualidade e não-cisgeneridade são expressões sexuais válidas, além de outra série de direitos (casamento homossexual e adoção por casais homossexuais, direitos trabalhistas, direito ao nome social) garantidos em grande parte do mundo são resultados de pressões realizadas durante anos, numa demanda por visibilidade e respeito. 

Todavia, ainda há muito no que se avançar no que diz respeito à direitos LGBT+, uma vez que, atualmente, 70 países ainda possuem legislações contra essa população, inclusive condenação à pena de morte em alguns deles. A homofobia internalizada na sociedade ainda é um problema até mesmo nos países mais desenvolvidos no quesito de garantia de direitos à esta população, e a luta contra os esteriótipos, a estigmatização e o preconceito é constante. Entretanto, grupos como a Associação Internacional de Gays e Lésbicas (ILGA) e ONGs como a Stonewall, no Reino Unido, são essenciais não só para dar suporte à essa população, mas também para realizar pressões na opinião pública, nos órgãos internacionais e até mesmo nos governos dos Estados para que se garanta direitos básicos aos quais qualquer indivíduo deveria ter acesso, além de ajudarem na construção de um ideal de respeito, empatia e da igualdade como algo saudável e desejável. 

Em um momento como o atual, é importante ressaltar que a luta LGBT+ não existe se não há recortes de raça, gênero e classe, visto que não somos uma coletividade homogênea e, portanto, nossas demandas são divergentes quando consideramos esses aspectos. Mais do que nunca, que lembremos que Stonewall não foi um ato pacífico e teve em sua vanguarda mulheres lésbicas e transsexuais negras, corajosas o suficiente para reagir à repressão policial e dar início a um longo processo de conquista dos direitos que temos hoje. Não podemos nos esquecer disto.

Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, 2019. Fonte: GoHurb.

CARTER, David. Stonewall: The Riots That Sparked the Gay Revolution. Boston: Macmillan Publishers, 2004.

Chanacomchana. Chanacomchana Edição 4. Disponivel em: http://acervobajuba.com.br/chanacomchana-edicao-4/ Acesso em: 01 Ago. 2019.

Comissão da Verdade do Estado de São Paulo (Brasil). Ditadura e Homossexualidades: Iniciativas da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”, 2014. Disponivel em: http://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/relatorio/tomo-i/downloads/I_Tomo_Parte_2_Ditadura-e-Homossexualidades-Iniciativas-da-Comissao-da-Verdade-do-Estado-de-Sao-Paulo-Rubens-Paiva.pdf Acesso em: 01 Ago. 2019.

FÁBIO, André Cabette. A trajetória e as conquistas do movimento LGBT brasileiro, 2017. Disponivel em: https://www.nexojornal.com.br/explicado/2017/06/17/A-trajet%C3%B3ria-e-as-conquistas-do-movimento-LGBT-brasileiro Acesso em: 02 Ago. 2019.

FERRAZ, Thaiz. Dia do Orgulho LGBT: Conheça a história do movimento por direitos, 2017. Disponivel em: https://guiadoestudante.abril.com.br/blog/atualidades-vestibular/dia-do-orgulho-lgbt-conheca-a-historia-do-movimento-por-direitos/ Acesso em: 01 Ago. 2019.

GAUCHAZ. 30 anos após aids virar epidemia, homens gays ainda são impedidos de doar sangue, 2014.  Diaponivel em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/noticia/2014/10/30-anos-apos-aids-virar-epidemia-homens-gays-ainda-sao-impedidos-de-doar-sangue-4610201.html Acesso em: 01 Ago. 2019.

GEOGEGHAM, Tom. Stonewall: A riot that changed millions of lives, 2019. Disponivel em: https://www.bbc.com/news/world-us-canada-48643756 Acesso em: 01 Ago. 2019.

GMT. The first gay pride parades, 2016. Disponível em: https://edition.cnn.com/2016/06/16/us/gallery/tbt-first-pride-parades/index.html Acesso em: 02 Ago. 2019.

GUERRA, Veronica. As atrações da semana da Parada LGBT de São Paulo, 2019. Disponivel em: https://www.hurb.com/viajantehu/as-atracoes-da-semana-da-parada-lgbt-de-sao-paulo/ Acesso em: 31 Jul. 2019.

JIMÉNEZ, Rafael M. Mérida. Manifiestos gays, lesbianos y queer: Testimonios de una lucha (1969 – 1994). Barcelona: Icaria editorial, 2009.

O GLOBO. Apesar de avanços, ser gay ainda é crime em 70 países (em alguns deles com pena de morte), 2019. Disponivel em: https://oglobo.globo.com/celina/apesar-de-avancos-ser-gay-ainda-crime-em-70-paises-em-alguns-deles-com-pena-de-morte-23674176 Acesso em: 31 Jul. 2019.

ROSSINI, Maria Clara. O que foi a rebelião de Stonewall? 2019. Disponivel em: https://super.abril.com.br/historia/o-que-foi-a-rebeliao-de-stonewall/ Acesso em: 01 ago. 2019.

UNITED NATIONS. Living free and equal, 2016. Disponivel em: https://www.ohchr.org/Documents/Publications/LivingFreeAndEqual.pdf Acesso em: 01 Ago. 2019.

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