NA MESA DE BAR

2 de abril 
2:12 da manhã 

-Mas tu não tem medo? 

Aquele sotaque baiano me matou. E aquele olhar cigano também, todo dissimulado, traiçoeiro. Quando ela me olhava, me sentia toda atravessada e transparente, como se meus segredos estivessem se rendendo um por um, de bom grado. Eu não gosto de ninguém que me olha nos olhos e exige minhas verdades. Mas eu gosto dela.

-Tenho medo de muita coisa. Me afogar no mar da Bahia. Ser picada por escorpião. Morrer sozinha. Mas de falar? De falar não tenho. 

-Pois eu morro de medo. 

Ela sempre sustentava o olhar, em silêncio, depois de cada frase. Eu nunca entendi o que fazia alguém ter mais medo de falar do que de olhar. Os olhos são tremendamente mais fracos que a boca, entregam o jogo ao menor sinal de sedução. Virei a cabeça pra esquerda e fingi soprar a fumaça do cigarro que eu nem tinha tragado. Torci pra ela nem perceber. Mas qualquer pessoa que joga mais com os olhos do que com a boca perceberia. 

Pensei no que tinha me levado a ser alguém que fala no lugar de alguém que guarda. Pensei no meu mapa astral, em todas as minhas ex, pensei no que Freud diria da minha infância. 

-Quando você vê o laranja espalhando no céu e o reflexo do pôr do sol no mar – comecei, olhando pra qualquer ponto do espaço que não estivesse ocupado pelas partículas do corpo dela – se tem alguém do seu lado, você fala, comenta. Fica com vontade de tirar uma foto e mostrar pro mundo. Né? 

Ela concordou em silêncio.

-Pois eu falo do que sinto pelo mesmo motivo. Porque é bonito. E também porque, se fico calada, é capaz de eu morrer. 

Ela riu, meio debochando, e falou alguma coisa sobre eu ser impulsiva. Não neguei. Fiquei esperando ela falar algo mais e, enquanto o silêncio se arrastava, deixei meus pensamentos viajarem por momentos que eu mal lembrava dos detalhes. Os meus pés na areia em uma noite de outono e o vento gelado cortando minha nuca. As caminhadas na orla, as paradas nos bares, as risadas altas por causa de todo o álcool que consumimos, os segredos quase ditos, aquele desejo ocupando todos os meus pensamentos. Todas as coisas que eu não disse naquele inverno que veio em seguida. As coisas que eu esperei que ela dissesse. 

Encarei-a por cima da mesa que nos separava, assim como aqueles anos gelados que construíram montanhas entre nós. 

-Bom, e o que ela te disse? – A voz dela abriu espaço entre as tantas outras que se sobrepunham naquela varanda de bar. Por um momento, aquele sentimento antigo me atingiu de novo; lembrei do quanto eu gostava de ouví-la falar por horas e horas, do quanto eu desejava tão intensamente que pudéssemos, uma vez que fosse, estar sozinhas.

-Nada. Ainda. – Dessa vez, traguei. – A gente deve se encontrar amanhã. 

Ela arregalou aqueles olhos castanhos em minha direção e eu senti como se fosse ser engolida por eles. Disse que não entendia como eu ficava tão tranquila com minha própria vulnerabilidade, que, pelo que ela se lembrava de mim, eu jamais estaria tão serena em uma situação como essa. 

-Aprendi com você que tem coisas que eu simplesmente não posso controlar. 

Pela primeira vez, ela desviou o olhar. Quase me arrependi por ter sido tão direta. Naquela época, mesmo com todo aquele silêncio, eu sabia que ela sabia.  Ela sabia quando eu a olhava nos olhos por alguns segundos a mais depois que ela já tinha terminado a frase. Ela sabia quando eu a abraçava por mais tempo do que o socialmente aceitável. Ela sabia quando as nossas mãos se encostaram sem querer enquanto andávamos e eu não fiz questão de me afastar. Ela sabia quando eu a entreguei aquele presente de aniversário feito à mão, sendo que eu nunca dava presentes de aniversário para ninguém. Ela sabia quando eu deixei de responder as mensagens dela contando sobre o novo namorado, aquele garoto meio chato que conhecemos em Vitória da Conquista. Ela sabia quando eu desapareci por um ano e meio e fui morar em outra cidade para aceitar uma proposta de emprego –  que eu nem mesmo queria – e me mudei sem avisar. 

Ela abaixou a cabeça e deixou os cachos cobrirem o seu rosto. Quando me olhou de volta, me encarou como se estivesse se rendendo. 

-Faz sentido. 

-O que? 

-Falar. A sensação sufocante de que vamos morrer se não dissermos. 

-Eu sei. 

-Tenho morrido devagar desde aquele outono. 

Fiquei em silêncio. Ela entendeu como um passe livre para continuar falando. Talvez tivessem sido as cervejas que me faziam ficar com a cabeça meio flutuando, com uma sensação de corpo quente, mas senti meu estômago revirar inteiro. 

-A primeira vez que eu morri um pouquinho por dentro foi quando você foi dormir na minha casa depois de ficar na faculdade até tarde pra terminar um trabalho… Não sei se você lembra. No fim de semana anterior tínhamos ido pra balada e ficamos muito bêbadas. Foi quando você me disse que teve uma quedinha por mim logo no início da faculdade e que achava engraçado que acabamos virando muito amigas. Eu fiquei dias pensando nisso e não consegui dormir nem por um minuto com você no colchão, no chão do meu quarto. A segunda vez foi quando vimos o sol nascer na praia depois daquele luau da turma. Todo mundo foi embora antes das duas da manhã e eu continuava arrumando desculpas pra ficar, porque você ficava dizendo que nunca tinha visto o sol nascer na praia e que ia fazer aquilo nem que fosse sozinha. Ninguém te levou a sério, mas eu só não conseguia levantar de lá e ir pra casa, alguma coisa ficava me segurando… Foi tão gostoso. Continuei morrendo aos pouquinhos nos meses seguintes, por causa das coisas mais imprevisíveis. Mas eu não entendia nada daquilo que eu tava sentindo, Marina. Não queria entender. Tinha medo de entender. 

-Laura… – Comecei, mas fiquei grata por ela ter me interrompido, porque não tinha fôlego pra terminar a frase.

-É sério. Eu… Não sei. Quando conhecemos o Rodrigo naquela viagem e ele deu todos os sinais de que gostava de mim, pulei de cabeça porque queria fugir de toda a confusão que estava estabelecida dentro de mim. A gente passava tanto tempo juntas, todas as meninas comentavam coisas e eu não sabia como lidar. Quando você sumiu e eu fiquei sabendo que iria pro Rio… Senti que estava morrendo um pouco mais de novo. Eu só sabia que queria ter você por perto. Mas você não deu sinal nenhum e voltou pra Salvador como se nada tivesse acontecido, com um corte de cabelo novo… – Ela respirou fundo e engoliu em seco, como fazia quando estava prestes a chorar – Senti tudo de novo. Achei que não fosse sentir nada depois daquela distância toda. Achei que podíamos ser só grandes amigas, como eu sempre imaginei que seríamos. Mas cá estou eu, pensando que queria ser essa tal de… Fernanda? Queria que você estivesse se declarando pra mim, falando todas essas coisas bonitas que você diz não conseguir guardar.

-Você está noiva – Eu não conseguia pensar em mais nada além disso. Na verdade, estava atordoada com o fluxo de pensamentos que me atingiu, com as lembranças, com as perguntas que surgiam na minha cabeça. 

-Eu sei – Ela continuou me encarando, apesar das lágrimas caindo. – Exatamente, eu precisava admitir em voz alta pra entender que não consigo fugir disso.

– O que você quer que eu faça?

Ela não respondeu. Em vez de falar, se inclinou por cima da mesa e me beijou. Senti como se tivesse 21 anos de novo, olhando-a entrar na sala da faculdade vestindo uma blusa amarela que ficava incrível contra a pele escura dela, como se ela iluminasse todo o ambiente. 

Então agarrei sua nuca e a beijei de volta como queria ter feito desde aquele dia. 

O QUE A VIDA QUER DA GENTE

Maria Fernanda teve que se esforçar para não chorar ao olhar para ele, todo arrumado, em cima do altar. A barba recém feita e um sorriso estampado no rosto, o cabelo meio molhado de gel e o terno azul claro que combinava com seus olhos. Olhos que estavam rodeados de marcas, causadas não só pelo sorriso, mas também pelo tempo. Mesmo com as novas rugas, ela reconheceria aqueles olhos em qualquer lugar. Eram exatamente os mesmos que ela olhara pela primeira vez vinte anos antes, quando o novato perdido entrara na sala de aula com uma confiança que ela jamais havia visto em ninguém antes. 

Não conversaram muito durante aquele ano em que ele entrou na escola. Era o último ano do colegial, e ela soube que ele havia se mudado para a vizinhança junto com a mãe. Não sabia de onde ele havia vindo e o mistério fazia com que ele carregasse certo charme. A verdade é que ela o achava lindo, muito mais bonito que todos os garotos da escola, e, justamente por isso, não teve coragem de se aproximar e iniciar alguma conversa. Era muito tímida e suas poucas amigas não acharam nada de excepcional no “garoto novo” que, por sua vez, já tratou de se enturmar com o grupo dos mais populares da sala.

Ela se lembrava como se fosse ontem da primeira vez que conversaram. Era o baile de formatura e a festa já estava se encaminhando para acabar e, enquanto uma música lenta do ABBA tocava, ele se aproximou da mesa na qual ela estava sentada. 

-Não acredito que uma garota como você está sentada aí, sozinha, uma hora dessas – Ele disse, mas ela não entendeu a frase inteira, por causa da música alta, de modo que ele repetiu as palavras, dessa vez, bem perto do ouvido dela. 

-Uma garota como eu? – Perguntou, sem saber se ficava lisonjeada ou ofendida. 

-É. Linda desse jeito, com o vestido mais bonito da festa… 

Ela percebia que o hálito dele já cheirava a álcool e automaticamente decidiu que não ia ceder à nenhuma cantada barata, ainda mais sendo a última das últimas opções, porque todos os casais já haviam se formado muitas horas antes. 

-Não vai adiantar, é melhor você não desperdiçar seu tempo comigo – Ela respondeu, já meio impaciente – A festa está acabando e acho que você deveria procurar qualquer outra garota bêbada em vez de se esforçar para fingir que já estava interessado em mim. 

Apesar de achá-lo lindo (aliás, “lindo” poderia muito bem ser um eufemismo para “absolutamente maravilhoso” naquela noite, porque qualquer um fica dez vezes melhor vestindo roupas de gala), ela tinha amor próprio o suficiente para saber diferenciar aqueles com os quais valia a pena se envolver. Marcelo não era um deles. Marcelo era sinônimo de problema, e ela gostava de manter sua vida sob controle, pacífica e tranquila. 

-Fingir? De onde veio isso? – Ele sorriu, erguendo as sobrancelhas, e puxou uma cadeira ao lado dela. – Onde estão suas amigas? 

-Foram buscar alguma coisa para comer. Já devem estar voltando. – Mentiu ela, porque não iria admitir que, na verdade, estava esperando sua carona terminar de beijar um primo de alguém. 

Ele ficou um tempo em silêncio, olhando ao redor, sem pressa alguma de esclarecer o motivo de ter sentado ali. Ela evitava olhar diretamente para ele, sem saber o que fazer com as mãos, um pouco irritada. 

-Você deve me achar um idiota – Ele começou, fazendo contato visual. – Troquei no máximo quatro palavras com você em todos esses meses e agora venho aqui, tentando ser engraçadinho… 

-Acho, mesmo. – Ela respondeu, pensando que deveria ser por isso que continuava solteira, o que sua mãe fazia questão de lembrar sempre que podia. 

Mais alguns segundos de silêncio. O contato visual só acaba porque ela desvia o olhar, mas ele continua encarando-a. 

-Eu nunca tive coragem. Sempre fiquei te olhando meio de longe, sem saber o que fazer, porque você é muito calada e nunca me deu uma pista sobre qual assunto puxar. Prometi a mim mesmo que não ia me formar sem puxar assunto com a garota mais bonita da sala, que não ia perder essa chance. Achei que conseguiria hoje, mas aí… Você apareceu com esse vestido, e me deixou completamente sem ar. Precisei de uma ajudinha – Ele balançou o copo, já meio vazio, e deu um sorriso sem graça. 

Ela ainda se lembrava do modo com que seu coração começou a bater forte e rápido, sem acreditar no que estava ouvindo. Ela ainda lembrava de sustentar o olhar dele e tentar identificar alguma mentira, porque aquilo só poderia ser brincadeira… 

Não chegou a nenhuma conclusão, porque, nesse exato momento, Isadora – a carona – apareceu, com o batom todo borrado, dizendo que a mãe já estava esperando na porta para irem embora. 

 

Lembrar daquilo parecia surreal agora, tantos anos depois. Tanta coisa havia se passado, tanta história no meio do caminho. Parecia meio ridículo pensar que Maria Fernanda se lembrava até mesmo da música que estava tocando quando essa primeira conversa aconteceu. E agora, com os violinistas tocando notas lentas, uma música completamente diferente preenchia o ambiente, mas as mesmas borboletas daquele dia da formatura tomavam conta de seu estômago. 

 

Por um tempo, ela acreditou que nunca mais ouviria falar de Marcelo. Ela queria estudar Farmácia e ele, pelo que diziam, Jornalismo. Não fazia ideia se ele ficaria na cidade ou iria fazer faculdade em outro lugar e, ao mesmo tempo, não queria pensar muito a respeito, porque depois de toda aquela declaração, ela mal olhou para ele ao se despedir correndo. 

Se sentia estúpida. E se ele estivesse falando a verdade, afinal? Bom, ela decidiu que não faria nada para procurá-lo, porque a parte racional do seu cérebro insistia que ele estava apenas bêbado e que ela não deveria inventar histórias de amor em sua cabeça. 

Mas ela não precisou inventar nada, porque, três semanas depois do baile, ele tocou o interfone da casa dela. 

-Acontece que aquela sua amiga, Isadora, estava beijando o Luís, que é primo do meu melhor amigo, Pedro Henrique, e, para um homem determinado, conseguir seu endereço até que foi uma tarefa fácil. – Foi a explicação que ele deu, alguns minutos depois, após ela ser convencida pela mãe a abrir a porta para o “rapaz bonito” que estava esperando, com o argumento de que é mal educado deixar as pessoas na rua. 

Naquela tarde, conversaram por horas e horas, apesar da desconfiança da moça. Ao pôr do sol, Marcelo já tinha conseguido arrancar algumas risadas dela, que começava a se convencer que o garoto havia sido sincero na formatura. 

O primeiro beijo dos dois aconteceu alguns dias depois, por iniciativa dela. Resolveu ser corajosa uma vez na vida e colou os lábios nos dele na hora de se despedir, depois que ele a levou para um piquenique na praça mais bonita da cidade. A coragem durou apenas alguns segundos – não o suficiente para a fazer olhar para trás e conferir o sorriso estampado no rosto dele.

 

O mesmo sorriso que agora aprofundava as rugas nos olhos dele. Tão bonito. No altar. Era difícil acreditar. 

 

O namoro era digno de aparecer nos cinemas: muita paixão, cartas de amor, surpresas clichês e buquês de flores. Os dois eram românticos incuráveis e se aventuravam juntos viajando pelas cidades do interior, bebendo vinhos baratos e participando de cantorias nas praças. Estudaram, afinal, Farmácia e Jornalismo, como bem queriam, mas, nas férias entre o primeiro e o segundo ano de faculdade, enquanto estavam deitados na grama do sítio de Maria Fernanda, olhando as estrelas, Marcelo fez o anúncio: 

-Mafê, quero largar a faculdade. 

-Como assim, Marcelo? 

-Acho que não é pra mim, isso de estudar. A gente aprende tão mais vivendo a vida real. Saindo pelo mundo. Tirando a cara dos livros. 

Ela não conseguia entender. Gostava de estabilidade, gostava de estudar Farmácia e queria um diploma para garantir uma vida boa para os filhos que, um dia, gostaria de ter com ele. Gostava das viagens, das praças e das cantorias, mas aquilo só tinha graça porque quebravam a rotina, e, antes de tudo, porque havia uma rotina para ser quebrada. Aquilo era seu tempo livre, não a vida que queria levar em tempo integral. 

Muito choro se seguiu, muitas tentativas de convencimento partiram das duas partes, mas ninguém deu o braço a torcer. Decidiram namorar à distância, e, sem mesmo passar em casa, Marcelo saiu pelo país apenas com a mala que havia levado para passar alguns dias no sítio de Maria Fernanda. Os primeiros três meses foram razoáveis. Ele sempre ligava, mandava cartas românticas pelo Correios, fotos de paisagens bonitas. Foi para o sul e conheceu os três estados da região. Nas ligações, contava sobre as grandes plantações, sobre as serras e sobre o clima. A partir do quarto mês, o contato começou a ficar menos frequente. Ele nem sempre atendia e quase nunca ligava. “Deve estar muito ocupado conhecendo tanta coisa”, pensava Maria Fernanda. O coração cheio de saudade que se misturava com um pouco de raiva e remorso. 

Um ano se passou, depois dois. Às vezes, ela ouvia falar de Marcelo, principalmente porque Isadora, com quem ainda mantinha amizade, continuou com o primo do melhor amigo dele por muito tempo. O tal melhor amigo (“Pedro Henrique, certo?”, ela perguntou, certa vez), portanto, estava sempre presente nos aniversários de Isadora, e, obviamente, também aparecia nos encontros que a turma do colegial fazia todo ano. Maria Fernanda ouvia Pedro Henrique contar histórias e o via mostrar fotos de Marcelo nos mais diversos lugares. Ele passou por São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Mato Grosso, Tocantins, Maranhão, Bahia. Eventualmente, ela não conseguia mais acompanhar todos os casos. Ele parecia feliz, mas sempre sozinho. E ela se perguntava se ele sentia falta dela da maneira com que ela sentia dele. E se, um dia, ele voltaria. 

Ela se envolveu com outros homens. Alguns. Nenhum que fazia seu coração bater do jeito que batia quando olhava para Marcelo, nenhum que a olhava como um dia ele havia olhado. Ela não admitia isso para si mesma e nem tinha intenção de se afastar de Isadora ou de sua antiga turma de colegial porque, no fundo, gostava de ficar sabendo por onde Marcelo andava. Sempre perguntava à Pedro Henrique, num tom casual e como quem não quer nada, se ele tinha notícias do amigo. Gostava de ver, nas fotos, como Marcelo estava mudando. Gostava de imaginar que ouviria todas os casos das aventuras dele, um dia. 

E, depois de quinze anos, ele voltou. 

Ela não ficou sabendo por Isadora, nem por ninguém da turma. Por alguma ironia, o destino fez com que ele entrasse na mesma padaria em que ela sempre tomava um café depois do trabalho. Com a mesma confiança que havia entrado na sala de aula, na primeira vez que ela o viu. E ela não pôde evitar que seu estômago se revirasse num misto de excitação, medo e desejo. E saudade. Quanta saudade. 

Caminhou até ele e encostou em seu ombro, porque, com os anos, aprendeu que deveria ser corajosa sempre. E porque fantasmas do passado não entram pela porta de padarias todos os dias, e porque havia passado os últimos anos sem conseguir tirar aquele homem de sua cabeça. E não poderia deixar passar uma oportunidade daquelas. 

Os olhos dele brilharam ao vê-la e ele abriu os braços para envolvê-la num abraço forte. Meio desajeitados, sem saber como recuperar todos os anos de conversas perdidas, conversaram por horas no pequeno balcão de padaria. Ainda estavam se acostumando com o quanto haviam mudado depois de mais de uma década. Ela contou sobre seu emprego, seu novo apartamento, e sobre como estava sua família. Ele contou um pouco sobre o nordeste e de como se orgulhava de falar para os seus passageiros no Uber que, quando era adolescente, falou com sua mãe que iria passar uns dias no sítio da namorada e só voltou quinze anos depois. 

Ele continuava encantador e, quando perguntou se ela era casada, ela ficou um tempo em silêncio pensando no que responder. E decidiu ser sincera. 

-Não casei, Marcelo. 

Ele pareceu genuinamente surpreso. 

-Mas você sempre foi tão bonita, imaginei que com a nossa idade você já tivesse conhecido alguém… 

-Eu conheci. – Ela respirou fundo. “Coragem”, pensou. – No último ano do colegial, conheci. O homem da minha vida. Ele decidiu viajar por aí e tem quinze anos que estou esperando ele voltar. 

A frase o pegou de surpresa. Ela lembrava como se fosse ontem da maneira com que ele sustentou o olhar dela, sorriu e olhou para baixo, sem graça… 

 

Agora, alguns anos depois do reencontro, ela ouvia o padre falar, quase chegando na parte final, e a maior parte dos convidados já estava meio emocionada. Maria Fernanda, por sua vez, continuava na sua luta contra o choro, para não borrar a maquiagem cuidadosamente feita para aquele dia especial, mas toda aquela nostalgia e a cabeça cheia de lembranças tão vívidas não estava ajudando em nada. 

-Eles formam um casal tão bonito, não é? – Ela sentiu a mão de Pedro Henrique, o melhor amigo de Marcelo, apertando a sua. 

E, nessa hora, ela não conseguiu mais segurar o choro. Chorou, silenciosamente, enquanto apertava a mão do namorado – que não amava. 

Chorou enquanto observava o amor da sua vida dizer “sim” para outra mulher.