5 FILMES COM REPRESENTATIVIDADE LÉS/BI PARA ASSISTIR NA QUARENTENA

Na semana passada, falei um pouco sobre a importância de darmos voz à mulheres que amam mulheres para que elas possam contar suas histórias – seja de forma direta ou através de representações na televisão, no cinema e na literatura. Hoje, vou fugir um pouco do formato tradicional de texto/conto/prosa poética para dar espaço à divulgação de filmes com protagonistas lésbicas ou bissexuais dirigidos por mulheres (algumas delas assumidamente lésbicas/bissexuais). É necessário que obras como estas tenham, cada vez mais, um maior alcance: precisamos valorizar trabalhos que abordem a temática sáfica, principalmente aqueles feitos por mulheres lés/bi. Espero que aproveitem e que as sugestões sejam úteis em tempo de isolamento social!

RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS (Céline Sciamma, 2019)

O filme é um drama romântico que se passa na França, durante o século XVIII, e conta a história de Marianne, uma jovem pintora encarregada de pintar o retrato de casamento de Héloise secretamente, de modo que passa a observá-la ao longo do dia para retratá-la pela noite. Ao longo do tempo, as duas mulheres se aproximam e compartilham os últimos momentos da noiva antes de seu casamento.

A diretora, Céline Sciamma, é uma cineasta e roteirista francesa e foi premiada em Cannes pelo roteiro do filme. Em sua carreira, Sciamma busca representar histórias de jovens mulheres, inclusive participando de um movimento internacional pela representação feminina no cinema internacional.

“[…] eu queria produzir uma história de amor, um filme que fala sobre uma história de amor e descreve passo a passo como é se apaixonar e também mostra o escopo de uma história de amor – o filme foi construído em torno dessas duas ideias, desses dois pilares. E também queria falar sobre mulheres artistas, mulheres pintoras, em geral.”

Céline Sciamma

Assista ao trailer aqui.

D.E.B.S. – AS SUPER ESPIÃS (Angela Robinson, 2004)

Este filme de ação cômica estadunidense foi, na realidade, uma adaptação de um curta-metragem de mesmo nome lançado no ano anterior. Conta a história de um grupo de espiãs juvenis (as D.E.B.S.) que foram recrutadas por uma agência governamental por suas habilidades potenciais para espionagem e agora possuem a missão de capturar a vilã Lucy Diamond – a questão é que uma das espiãs acaba se envolvendo com Lucy.

A diretora, Angela Robinson, é também produtora e roteirista, e costuma abordar questões de vivência lésbica em seus trabalhos. Robinson é casada com Alexandra Kondracke – as duas se conheceram na faculdade, em Nova York – com quem teve um filho em 2009.

Angela Robinson

Assista ao trailer aqui. O filme está disponível na Netflix!

LIVRANDO A CARA (Alice Wu, 2008)

Esta comédia dramática conta a história de Wil Pang, uma jovem cirurgiã solteira aos 28 anos que se descobre lésbica quando se apaixona pela bailarina Vivian. As duas mulheres se encontram em segredo enquanto Wil pensa em como contará sobre o relacionamento para sua mãe viúva, Ma. Inesperadamente, a mãe aparece em sua casa contando que está grávida e que foi expulsa da comunidade chinesa onde vivia por se negar a revelar quem é o pai da criança – e agora mãe e filha terão que conversar.

A diretora, Alice Wu, declarou que o filme foi inspirado em sua própria história e no momento em que se assumiu lésbica na comunidade chinesa em que vivia. Ela afirmou que seu desejo era de que, ao assistirem seu filme, as pessoas sentissem que, independente de quem fossem ou a qual cultura pertencessem, nunca será tarde demais para conquistar aquilo que desejam secretamente – seja o desejo de viver um grande amor ou qualquer outro.

“Eu quero que eles [os espectadores] saiam do cinema com um sentimento de esperança e possibilidade”.

Alice Wu

Assista ao trailer aqui.

ELISA Y MARCELA – ALÉM DOS HOMENS (Isabel Coixet, 2019)

Baseado em uma história real sobre a primeira (e única) união católica lésbica na Europa, o filme se passa na Espanha de 1901 e retrata como a jovem Elisa Sánchez Loriga adotou uma identidade masculina para conseguir se casar na igreja com a mulher que amava, Marcela Gracia Iberas.

Isabel Coixet é uma cineasta espanhola que conheceu a história das duas mulheres em uma viagem para Galícia, decidindo levá-la para as telas pelo seu desejo de “retratar mulheres fortes” e por acreditar que “as pessoas deveriam conhecer uma história como essa”. Aqui também tem uma entrevista em que a diretora fala um pouco sobre o filme.

Isabel Coixet

Assista ao trailer aqui. O filme está disponível na Netflix!

I CAN’T THINK STRAIGHT (Shamim Sarif, 2008)

O filme retrata a descoberta do amor entre duas jovens de origens muito distintas que vivem em Londres. Tala, de ascendência palestina, é uma cristã que está planejando seu casamento com um homem jordano, enquanto Leyla é uma muçulmana tímida que conhece Tala através de seu amigo em comum, Ali. 

Shamim Sarif é uma novelista, roteirista e diretora de descendência sul-asiática que aborda questões LGBT e relativas aos direitos das mulheres em suas obras. I Can’t Think Straight foi vencedor de 11 prêmios na época em que foi lançado.

Shamim Sarif

Assista ao trailer aqui.

“Secreto e Proibido”: por que devemos contar as nossas histórias?

Ontem eu decidi assistir o novo documentário original da Netflix, Secreto e Proibido (ou “A Secret Love”, em inglês), que conta a história de vida de Terry e Pat, duas senhoras que se conheceram na década de 1940 e viveram um romance de quase 70 anos. Durante a maior parte desse tempo, no entanto, esconderam a verdade da maior parte das pessoas que conheciam, afirmando continuamente que eram apenas “duas grandes amigas” que decidiram viver juntas pois “a vida nos Estados Unidos é muito cara”. 

Não consigo imaginar como deve ser amar alguém por tantas décadas e esperar até a velhice para soltar a respiração e poder ser quem você é e amar livremente. Por mostrar essa vivência de forma tão crua e real, intercalando relatos sobre a juventude de ambas com momentos do presente, quando elas estão aprendendo a lidar com a velhice (e, por vezes, reencontrando o passado), o documentário é muito emocionante. É realmente impressionante assistir uma história de amor entre mulheres que atravessou tantas fases, especialmente uma que teve início em uma época em que a noção de liberdade feminina mal existia, fosse ela individual, sexual ou afetiva. É doloroso pensar no quanto deve ter sido difícil viver como um casal lésbico durante a maior parte do século passado e é, de fato, muito bonito ver o quanto esse amor foi resiliente. 

Imagem recortada do pôster oficial do documentário original da Netflix, “A Secret Love”.

Qualquer pessoa que seja LGBT e, principalmente, qualquer mulher que se relacione com mulheres, vai se identificar com inúmeros sentimentos retratados ao longo do filme. A identificação é algo poderoso, porque percebemos que não andamos sozinhos e que, na realidade, muitas outras pessoas, em muitos outros lugares, experienciam vivências similares às nossas. Terry e Pat se mudaram do Canadá, seu país de origem, para Chicago, nos EUA, ainda muito novas, em uma tentativa de se livrarem das pressões familiares para se casarem com seus respectivos pretendentes e motivadas pelo medo que sentiam de serem descobertas por suas famílias e conhecidos. Talvez não nos identifiquemos com a situação de um casamento precoce, mas quantos de nós não escolhem viver longe de suas famílias para poderem, finalmente, ser quem são? Quantos de nós escolhem, propositalmente, uma faculdade longe de casa, para poderem “começar” a viver aos quase 20 anos? 

As senhoras também relembram o medo que sentiram quando finalmente decidiram contar às sobrinhas que eram um casal. Isso aconteceu apenas após muitas décadas juntas, e Terry descreve a sensação de “estar vivendo uma mentira”. Não há nada mais exaustivo do que viver fingindo e nada mais doloroso do que esconder uma parte tão grande de nós de pessoas que amamos. O medo da perda, do abandono, simplesmente por revelarmos ser quem somos – só o fato de termos que passar por isso já é absolutamente injusto. Mas a gente acaba se acostumando com as inúmeras injustiças que somos submetidos e, apesar de tanta coisa ter mudado no mundo desde 1940 até hoje, não é curioso como ainda compartilhamos desse medo de forma tão idêntica? 

O documentário também provoca uma  percepção muito importante do quanto mulheres lésbicas e bissexuais de gerações passadas tiveram que lutar para conquistar alguns direitos que nos parecem tão corriqueiros hoje, como simplesmente sentar em um bar conhecidamente LGBT sem ter medo de ser preso. Nas décadas de 1950 e 1960 eram muito comuns, nos EUA, as batidas policiais à bares queer, que resultaram em centenas de pessoas presas. Não sendo suficiente, os nomes dessas pessoas e suas profissões eram publicados nos jornais de grande circulação das cidades, de modo que a maioria delas – senão todas – ficavam desempregadas e tinham grande dificuldade de serem contratadas novamente. Algumas ativistas relatam, ainda, que as mulheres que não estivessem vestidas com, no mínimo, três peças consideradas femininas, eram levadas para a cadeia acusadas de “crime homossexual”. Em 1969, uma dessas batidas acabou provocando a chamada Revolução de Stonewall, um marco para a organização do movimento LGBT de forma mais consolidada e, consequentemente, da garantia de direitos para essa população – mas isso eu vou contar em outro texto. 

Pat e Terry em sua casa, em Chicago.
Mais um registro do casal em sua juventude.

De qualquer maneira, como lésbica, não conheço muitas histórias de mulheres como eu que sejam assumidas aos quase 80 anos e estejam dispostas a relatar suas vivências, como Terry e Pat. Essa falta de referências não é puro acaso. A história de indivíduos LGBT em geral e de mulheres lésbicas em específico é apagada de forma sistemática e constante, com um propósito político que serve àqueles que se beneficiam da heteronorma sobre a qual nossa sociedade se constitui. A falta de evidências de nossa existência nos séculos passados justifica o argumento da lesbianidade como uma patologia, já que sua ocorrência é tão rara, e que a heterossexualidade é inata aos indivíduos. Esta é uma ideia desenvolvida pela pensadora estadunidense Adrienne Rich (1929 – 2012) em seu artigo “Existência Lésbica e Heterossexualidade Compulsória”, no qual a autora cita uma passagem da historiadora Blanche W. Cook, que afirma:

“Em um mundo hostil em que não se supõe que as mulheres sobrevivam a não ser através das relações com e a serviço dos homens, comunidades inteiras de mulheres são simplesmente apagadas. A História tende a enterrar o que ela procura rejeitar.”

Se na história não há registros de vivência lésbica, nos tornamos frágeis e vulneráveis, pois vivemos sem referências, sem tradição e acreditando que não existem – nem nunca existiram – mulheres como nós. Não temos acesso à como grupos de ação lésbica se organizaram politicamente na sociedade, ou como pressionaram as instâncias de poder para concretizar suas demandas. Desse modo, crescemos acreditando que nunca existimos politicamente – e tendemos a continuar assim, inertes, por não saber como fazer com que nossas vozes sejam ouvidas. Pior que isso – crescemos acreditando que não temos o direito de sermos ouvidas, porque nossas demandas não importam. 

Em âmbito mais pessoal, também não temos acesso à histórias de amor entre mulheres que resistiram através do anos, apesar do preconceito e de todas as dificuldades, e também crescemos acreditando que uma vida “comum” e feliz ao lado de nossa parceira não é uma realidade possível para nós. O casamento, a família e a felicidade nos é negada, porque simplesmente não conhecemos outras mulheres lésbicas que viveram dessa maneira, logo, como poderíamos? 

Em certo momento do filme, Pat encontra algumas cartas de amor que ela escreveu para Terry. A sobrinha delas pergunta o motivo de todas as folhas estarem com a parte de baixo rasgadas, e a resposta é: “tínhamos medo de algo acontecer com uma de nós e nossos familiares encontrarem as cartas e descobrirem que éramos lésbicas”. Isso demonstra o quanto a homofobia – mais especificamente, a lesbofobia – manipula indivíduos ao colocá-los em tamanho risco a ponto de que eles mesmos não possam deixar suas histórias registradas. É um ciclo que só pode – e deve – ser quebrado a partir de iniciativas como a desse próprio filme, de documentar e expor essas vivências para que gritemos para as próximas gerações: NÓS SEMPRE EXISTIMOS

Terry relembra seu romance com Pat através de fotos e cartas.

Outro exemplo de iniciativas neste sentido é o projeto Lesbian History Archives, organizado em Nova York com o objetivo de preservar  e expor, gratuitamente, registros contemporâneos sobre a existência de mulheres lésbicas e suas comunidades, atuando contra a censura e o apagamento de suas expressões culturais. Você pode ler um pouco mais sobre a história e o propósito da missão deste grupo clicando aqui

Quanto mais histórias de mulheres que amam mulheres forem difundidas, publicizadas, contadas nos bares entre grupos de amigas, mais seguras, confiantes e conscientes estaremos sobre quem somos e de onde viemos e mais palpáveis nos tornamos sob os olhos do resto do mundo. Isto também diz respeito à produção e divulgação de histórias fictícias na literatura, no cinema e na televisão, ou seja, à representatividade. A arte deve nos representar como as pessoas reais que somos, presentes em todos os âmbitos da sociedade, com as mais diversas narrativas, mostrando que o nosso amor é real. Em um dos primeiros bilhetes que Pat escreveu para Terry, ela diz:

“Eu sou uma leitora, Terry, e já li as mais diversas histórias. Mas em nenhuma delas havia uma mulher que se apaixonasse por outra.”

Escrevo esse e todos os meus outros textos na tentativa de que isso nunca mais seja dito por nenhuma jovem garota que descobre estar apaixonada por outra. Escrevo para que não sejamos nunca mais anônimas, invisíveis, para que existam milhões de histórias como as nossas, porque, então, se tornará impossível apagar todas elas. Escrevo porque cada vez que uma mulher lésbica fala em voz alta sobre o seu afeto, ela firma raízes cada vez mais profundas para todas as outras que são como ela. Eu escrevo para que nunca mais tenhamos que rasgar as assinaturas de nossas cartas de amor. 

Terry e Pat – finalmente casadas!

. . . 

Algumas referências: 

COOK, Blanche, W. “Women Alone Stir My Imagination”: lesbianism and the Cultural Tradition”. In: Journal Of Women in Culture and Society, x.4, p. 719-720, 1979. Disponível em: https://www.journals.uchicago.edu/doi/10.1086/493659?mobileUi=0&

RICH, A. Heterossexualidade compulsória e existência lésbica. Bagoas – Estudos gays: gêneros e sexualidades, v. 4, n. 05, 27 nov. 2012. Disponível em: https://periodicos.ufrn.br/bagoas/article/view/2309.

Projeto The Lesbian History Archives: http://www.lesbianherstoryarchives.org/

Eu sou lésbica. E esse é um desabafo.

Há pouco mais de 4 anos, escrevi um texto enorme (para mim mesma, um outro desabafo) contando como foi me descobrir bissexual.

Acontece que eu não sou bissexual.

Fonte: Pinterest

Qualquer pessoa que já se assumiu, ao menos para si mesmo, há algum tempo, entende o quão problemático foi crescer sem referências não-heterossexuais e os impactos disso no entendimento da própria identidade e sexualidade. Não me lembro de saber, pelo menos até meus 10 anos de idade, que meninas como eu nem sempre gostavam de meninos. Não me lembro de saber que essa era uma opção, e também não me lembro de saber que as pessoas também podem gostar de meninos e meninas.

A consequência disso é bem óbvia: o início da minha adolescência foi marcado pela reprodução de falas e comportamentos preconceituosos e, claro, como a pouca referência que eu tinha sobre a não-heterossexualidade era pejorativa, a última coisa que passava pela minha cabeça era questionar a minha — tida como certa, óbvia, fixa — heterossexualidade.

Beijei um garoto pela primeira vez quando eu tinha 11 anos. Continuei beijando exclusivamente garotos até os meus 15. E considero que me descobri cedo quando escuto falar casos de mulheres que se perceberam não-héteros só depois dos 20. Todo o processo de entender que eu não era heterossexual foi muito exaustivo, penoso. Eu não conseguia admitir em voz alta nem para mim mesma, sozinha no quarto e às 3 da manhã, que eu não era hétero. E toda essa exaustão se repetiu de maneira quase tão intensa dois anos depois, quando comecei a pensar que eu talvez gostasse  de meninas.

A palavra lésbica é um tanto assustadora. Por muitos anos, a escutei sendo dita com desprezo, raiva, nojo ou de maneira completamente sexualizada. Ninguém quer ser identificado como algo que tem essa conotação. Mesmo depois de entender que eu realmente era sexualmente e afetivamente atraída por mulheres (com muito, muito custo, choro e noites mal dormidas, porque isso significava uma mudança enorme na lógica da minha passagem por esse mundo), acreditei que o mesmo acontecia com homens. Mantê-los na equação era o que fazia mais sentido, afinal, eu já tinha ficado com vários deles e até namorado um por um bom tempo. Na minha cabeça, essa soma dava um resultado bem claro: se eu tinha histórico de me envolver com homens, a opção ser lésbica estava anulada. Fim dos meus problemas comigo mesma.

Na prática, eu me sentia fisicamente e psicologicamente deprimida depois de me envolver de qualquer forma com algum cara, mesmo que fossem só alguns beijos. Não entendia o motivo de me sentir tão mal. Queria tomar vários e vários banhos e fingir que nunca tinha acontecido nada; era uma ressaca moral que durava semanas. Não conhecia nenhuma outra garota que gostasse de garotas e a internet nunca sabe exatamente pelo que estamos passando, nunca responde todas as nossas perguntas. Isso fez com que eu me sentisse muito sozinha e deslocada de qualquer ambiente que eu estivesse, porque grande parte das coisas pelas quais eu estava passando e queria falar eram invalidadas: minhas amigas não entenderam quando eu disse que perdi a virgindade com uma menina (“ah, foi com uma menina! então você ainda é virgem, teoricamente, né?”) e também não entendiam como era namorar uma pessoa que não segurava a minha mão na rua, que só me recebia em casa me chamando de “amiga”, que não pretendia me levar como acompanhante em nenhum evento de família nem naquele momento, nem nunca.

Estar em contato com mulheres que se relacionavam com mulheres foi algo transformador e definitivo quando, lá para os meus 18, tive coragem de falar: eu sou lésbica. Bom, não saiu assim de primeira. Começou com “acho que prefiro garotas… mas também não é que não gosto dos meninos!”, chegou em “eu acho que não me interesso por homens” e… bom, na maior parte do tempo, eu afirmo com muita certeza que sou lésbica (agora quase com 21). Mas em vários momentos, esse medo da palavra e de tudo que ela traz ainda me perseguem. Em vários momentos, me pergunto se é realmente isso… mesmo que eu não me imagine estando com um homem sexualmente ou afetivamente em nenhuma situação a curto, médio ou longo prazo. Mesmo que eu não pretenda, de forma alguma, construir minha vida tendo um homem como companheiro. Então por quê a dúvida?

I'm lesbian, so what? - Home | Facebook

Parte disso talvez seja porque a comunidade lésbica, por vezes, continua usando termos como “lésbica gold star” (que nunca se relacionou com homens) que invalidam e deslegitimam a identidade de mulheres que se descobriram lésbicas apenas após terem tido experiências com homens. Alguns comportamentos da própria comunidade fazem com que acreditemos que não somos dignas de ocuparmos esse espaço — que é político. Mas, acredito que acima disso, o que mais faz falta são referências e espaços nos quais podemos nos expressar livremente, compartilhar dúvidas e experiências. Conheço poucas mulheres lésbicas, mesmo agora, e percebo que ainda me sinto muito sozinha. Percebo que não falo quase nunca sobre determinadas inseguranças e determinados sentimentos porque não sei onde ou quando falar. Porque ainda fala-se pouco sobre lesbianidade.

Mulheres lésbicas são historicamente excluídas de movimentos sociais mais encorpados, como o movimento LGBT+ ou o movimento feminista, porque não são contempladas por todas as suas pautas. É claro, somos um grupo com vivências específicas e, portanto, demandas específicas — mas se a estruturação de um movimento lésbico por si só já é complexa, aliar essa luta com outras é ainda mais, mesmo que nos micro-espaços. O pressuposto de que homens não são incluídos em nossas vidas afronta diretamente o patriarcado, que rege nossas relações sociais e, portanto, nossas próprias expressões de individualidade. A ausência masculina é uma declaração de guerra, algo impensado, blasfêmico. Sempre que eu lia algo nesse sentido em manifestos lésbicos achava um tanto exagerado, mas não é. Mulheres que planejam suas vidas sem considerar a presença de um cara são uma ameaça. E, por isso, deslegitimadas de todas as formas. É uma questão de observar dos mínimos detalhes à lesbofobia mais escancarada.

E é um ciclo infinito: a falta de espaços e de referências faz com que muitas mulheres passem por dificuldades ao se identificarem como lésbicas, e essa dificuldade de dizer essa palavra tão assustadora em voz alta e para o mundo faz com que poucas o façam e, logo, que poucas criem e ocupem espaços que sejam seguros para quem está no início do processo de entender a própria sexualidade.

Ainda estou na minha própria jornada de entender o meu lugar no mundo e nem tudo é transparente, ainda. Me cercar de espaços e mulheres que amam mulheres é uma medida que preciso tomar, pela minha saúde mental e meu esforço de autoconhecimento. Ninguém consegue se entender sozinho – e nem precisa. Porque em algum lugar do mundo, alguém já passou pelo mesmo que nós. Só precisamos nos conectar.

#LEIAMULHERES: UM ENCONTRO SOBRE LUTA

Há uma força poderosa e invisível, suprema, que paira sobre o ambiente quando mulheres conscientes do poder que possuem se reúnem em um só local. Mulheres que tem consciência do que são e do que podem chegar a ser. Dizem que mulheres que leem são um perigo; eu lhes pergunto: e as mulheres que leem e escrevem, então? E as mulheres que leem, escrevem e se organizam para publicar mais trabalhos de outras autoras?

Senti uma energia revigorante sentada naquela sala fresca e cercada de pessoas que lutam cotidianamente, buscando coragem para continuar expondo seus pensamentos e palavras, buscando entender melhor o lugar que ocupam em uma sociedade que não nos quer em lugar algum. Uma energia daquelas que só se sente quando há a percepção de que você não está sozinha. De que está entre semelhantes e de que pertence a uma luta, a uma causa, a uma busca.

O Leia Mulheres é um clube de leitura de Belo Horizonte que discute e incentiva a leitura de livros escritos por mulheres. O projeto busca dar mais visibilidade às escritoras dentro do mercado editorial e para que elas tenham mais voz dentro de um espaço que, como todo os outros, é tão machista e elitista. Me vi dentro de um dos debates proporcionados pelo grupo por acaso, por ter aceitado um convite em cima da hora e por pura coincidência de estar a três quarteirões de distância do local marcado para o encontro. Agora, algumas horas e várias reflexões depois, estou plenamente grata pelo acaso.

Foi, e sempre é, uma experiência engrandecedora ouvir tantas mulheres com diferentes experiências falarem sobre política, feminismo e literatura de uma forma tão única e carregada de bagagem. É tão revigorante participar de uma discussão que envolve tanto, desde o desabafo do que é conseguir falar sobre si e sobre as próprias vivências como mulher até o entendimento de como funciona a indústria da literatura dentro do patriarcado. O mercado editorial é demasiadamente protagonizado por homens, algo refletido não só nos livros que temos em nossa estante ou que somos obrigados a ler nas escolas, mas também na própria forma com que os livros são colocados e posicionados nas livrarias. Reparem, da próxima vez que visitarem uma, no destaque que recebem os livros escritos por homens, e compare com o lugar que as autoras ocupam em contraste. Reparem na quantidade de livros a venda e qual a proporção entre os escritos por homens e os escritos por mulheres. Identifiquem e problematizem as correntes invisíveis que existem ao redor de tudo.

Mas não só os números e os grandes espaços significam aspectos de militância. É bonito ver uma jovem de vinte e poucos anos escutar conselhos de uma mulher de sessenta sobre a escrita erótica e a liberdade que as autoras devem permitir-se ter de escrever de forma explícita e realista, sem regras impostas. É um alívio poder falar sobre como nos sentimos tão presas na hora de nos colocarmos no papel, seja pela família ou pelos moldes sociais, e sobre como é importante, justamente por isso, ter a coragem de levantar a voz e escrever sobre o que bem entendermos e como bem entendermos, para servir de exemplos para outras novas autoras que se deixam calar pelo medo. Precisamos gritar para mostrar que não estamos sozinhas, nunca estivemos e nunca estaremos.

Escrever é um ato de urgência, publicar, sendo uma mulher por trás de todas as palavras, é um ato político. É ocupar um espaço que também é nosso. E que lembremos da pluralidade que somos: continuando a enaltecer e divulgar nossos trabalhos, reconhecendo todas as diferenças e necessidades existentes dentro do próprio movimento em busca de visibilidade e protagonismo.

Publiquem-se, mulheres, e mostrem a voz que têm.

Mais sobre o Leia Mulheres: http://leiamulheres.com.br/

POR MAIS ARMÁRIOS VAZIOS

Hoje, não trago um texto muito literário. Venho com algumas considerações:

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Sempre escrevi para mim mesma. Nenhuma das minhas palavras é para agradar ninguém além do meu próprio ser, que precisa transbordar em prosa e verso para que eu não me afogue em minha existência. A não ser, é claro, quando me abstenho dessa necessidade egoísta e resolvo dedicar qualquer rabisco a alguém que eu sinta vontade (nem assim, no entanto, deixo de ser sincera. Não sei mentir pro papel e nem quero aprender).

Sempre gostei de escrever utilizando pronomes femininos. Sou louca pelo “ela”, “dela”, enfim. Gosto dos meus textos escritos dessa forma. Para elas. Por elas. Sobre elas. É um gosto antigo, não sei explicar: é assim desde que abracei meu amor pela escrita.

Por último, sempre gostei de escrever sobre sentimentos, no geral. Adoro inventar qualquer romance, seja de forma totalmente fictícia e inventada ou baseada em qualquer experiência pessoal.

Ter o comprometimento de publicar toda semana exige certa produtividade constante. Mantenho-me escrevendo em todo tempo livre, sobre tudo que me interessa, tudo que me faz sentir. Expor meus textos sempre foi um ato de coragem: como eu disse, eu não minto pro papel. Expor meus textos é sinônimo de expor minhas verdades – ou pelo menos deveria ser.

Há meses, antes de publicar, modifico alguns textos para retirar os pronomes femininos que foram colocados (ou para trocá-los por pronomes masculinos) e faço de tudo para manter qualquer texto romântico dentro de um padrão de relação heterossexual. Faço isso por medo do que terei que escutar por ser uma mulher escrevendo sobre outra, faço isso por medo do que terei que escutar por retratar cotidianamente indivíduos do mesmo sexo que se amam.

Ando sendo incoerente comigo mesma. Se nunca escrevi dentro das exigências de ninguém, se o papel em branco sempre foi meu confessionário, por que devo, então, me autocensurar quanto a algo que tanto defendo?

Hoje, eu trouxe um aviso. Não mudarei pronomes, não me impedirei de escrever sobre o amor em geral porque ele existe, sim, em outras formas além do modelo tradicional. A censura, o silenciamento e o medo são formas de diminuir não apenas as coisas em que acredito, mas também quem sou. Representatividade literária é importante e, mesmo que em pequenas doses, posso contribuir com isso – e o farei.

Dia 17 de maio foi o dia internacional da luta contra a LGBTfobia e me fez pensar um pouco sobre tudo isso. Voltemos à sinceridade habitual: eles com elas, eles com eles, elas com elas. Com quem houver sentimento e reciprocidade.