PARTO

Abra as fronteiras para mim,
ela disse, gritando
e do outro lado do mundo se fez ouvir.
Apesar de toda a confusão e ambiguidade
amor não é um ato de gratidão,
embora ela exigisse que fosse.
Embora soubéssemos que tudo seria mais fácil
se de fato fosse.
Mas a querência não é ato de realização, também.
Abra as fronteiras para mim,
ela continuou sussurrando
escondida nas esquinas em que viravam os anos
enquanto o outro lado fingia não ouvir.
Mas qualquer sussurro se faz mais intenso
do que todos os gritos do mundo
E nós sabíamos disso.
Abra suas fronteiras para mim,
porque um dia te abri as minhas.
Mas nós também sabíamos
que fronteiras imaginárias não podem
ser abertas ou fechadas
pela pura vontade ou
pelo puro querer.
Até mesmo porque
o muro que um dia separou Berlim
continuou erguido após 1989
mantendo os cachorros uivando
em lados opostos sem saber
que poderiam atravessar.
Derrube seus muros por mim,
ela disse
e eu continuei golpeando
e golpeando
o espaço vazio
sabendo que não derrubava
tijolo algum
embora pudéssemos ouvir
o barulho de dezenas deles
estralhançando-se no chão entre nós.

N’OUTRO DIA VI UM BARCO

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Pela janela lateral
n’outro dia vi um barco
domando as ondas
não
não domando
era como se o barco soubesse
do poder que as ondas têm
e as ondas soubessem
da coragem que o barco tem
só por se jogar ali,
naquele imenso azul
e parecer gostar muito.
Me lembrou você
que um dia trouxe até mim
todo esse amor atlântico
que leva consigo por todas as partes.
Essa força oceânica
vulcânica
terrena
de saber da tempestade que se forma
e olhar pro céu,
sorrindo.
É nos seus olhos, mulher
esses mesmos que
desafiam as nuvens
que entendo
percebo
me transbordo inteira
me permito ser mar
ser mais
pacífica
índica
quase mediterrânea
consciente de toda água
que carrego em mim:
a mesma que carrega o barco
que n’outro dia vi
pela janela lateral.

EM UMA CASCA DE NOZ

A arte é incapaz de imitar a vida
porque a linguagem é falha
e nem a música nem a matemática conseguem explicar o que eu sinto
ao enxergar aquele rosto no meio da multidão,
ao sustentar aquele olhar durante o café da manhã,
ou ao pisar em um lugar completamente desconhecido e me sentir em casa.
Há alguma coisa entre o instintivo e o calculado
entre a fé e a ciência
que ninguém sabe ainda como traduzir,
embora os poetas passem madrugadas tentando
e os profetas os observem, calados.
Mesmo que os físicos já tenham descoberto o caminho para a lua
ainda não se sabe muito sobre os buracos negros
e dentro de mim circulam as mesmas partículas que circulam por lá
há anos luz de distância.
Eu sei que sou feita dos mesmos átomos que galáxias desconhecidas
e a pessoa que senta ao meu lado no ônibus
é feita dos mesmos átomos que eu,
então como podemos nos sentir tão
inevitavelmente sozinhos e pequenos?
Entre todos os mundos
entre todos os tempos
e entre todos os universos paralelos
nos encontramos neste.
Agora.
E embora a minha arte seja incapaz de dizer
sobre toda a verdade que há em mim nesse momento
de alguma forma inexplicável,
consigo sentir meu coração sincronizado com os de quem me escuta
e peço que me escutem
peço que escutem meus batimentos cardíacos
e toda a gratidão contida neles.
Porque mesmo não sendo nada,
hoje
sinto como se carregasse o universo inteiro
dentro de mim.

fireeee

INCÊNDIO

fogo
Te sinto
finita e lúcida
transparente, nua
te inspiro

te olho
eterna e louca
tua vaidade pouca
te enforco

te tenho
permanente assim
viva em mim
te entendo.

Desisto
te mantenho fogo
meu desejo fosco
insisto

me entrego
vivendo em calor
às custas de um amor
incerto

(EU NEM SEI SE ISSO É VERSO OU SE É PROSA)

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Parece que você foi embora antes de chegar,
parece que eu tô vivendo atrasada,
correndo atrás de um tempo que não me espera e que nunca vou acompanhar
parece que perdemos a passagem, o embarque encerrou,
o terminal vazio e em silêncio
a partida já aconteceu
sem despedida nem cumprimento
só beijos soltos do que poderia ter sido
mas nunca chegou a ser
não sei qual tempo verbal usar quando me refiro à você
(acho que vou ter que reinventar a gramática)
meu pretérito
presente
futuro, talvez
tudo simultaneamente
a confusão representa bem o que somos
(?)
essa primeira pessoa do plural
é um erro gramatical
(e do destino, também)
grave

UM POEMA SOBRE SAUDADE

Buraco simétrico no peito
aumenta e diminui
dependendo do dia.

Cabeça cheia de momentos vazios
E um sentimento esquisito;
Talvez seja fome.

Escovas de dente sem par
Lençóis frios na direita,
mas a esquerda permanece aquecida.

Nunca mais houve disputa
pelo controle da TV.