A história do movimento LGBT+: origem e luta

Pessoas LGBT+ sempre existiram no mundo e existem diversos relatos documentados que comprovam a ocorrência de relacionamentos homossexuais e comportamentos de mudança de gênero nas mais variadas culturas.  No entanto, o marco inicial da formação de um movimento social organizado se consolidou na data 28 de junho de 1969, quando aconteceu, em Greenwich Village (Nova Iorque), a chamada Rebelião de Stonewall. 

A revolta de Stonewall, 28 de junho de 1969. Fonte: BBC, 2019.

Nos anos 60, ainda era crime ser homossexual em grande parte dos Estados Unidos, incluindo no estado de Nova Iorque. Na cidade, o bar Stonewall Inn era um ponto de encontro popular entre gays, lésbicas, bissexuais, transsexuais e travestis, uma vez que os donos do local, que faziam parte da máfia italiana, mantinham o policiamento afastado através do pagamento de propina. No entanto, isso não protegia a população LGBT+ que ali estava de sofrer discriminação e serem vítimas de violência. Frequentemente, policiais prendiam ou expulsavam indivíduos que “praticavam comportamento homossexual” ou que não estavam vestidos adequadamente para o seu sexo, o que configurava “crime contra a natureza”. (JIMÉNEZ, 2009; GEOGHEGAN, 2019; ROSSINI, 2019). 

Em 28 de junho, policiais invadiram o bar, agredindo e tentando levar, à força, o grupo que ali estava, que, finalmente, decidiu resistir, reagindo às agressões e atirando moedas e garrafas em direção às forças policiais. Apesar das tentativas da polícia de dispersar a multidão, cada vez mais chegavam pessoas para dar força à resistência, marcando o início de uma série de protestos e formações de grupos organizados que passaram a lutar pela garantia de direitos para a população LGBT+, sendo os principais deles o Gay Liberation Front (GLF) e o Gay Activists Alliance (GAA). (CARTER, 2004). A Rebelião de Stonewall foi um marco na história da luta pelos direitos LGBT+, provocando uma série de pressões sociais realizadas pelos grupos que se organizaram a partir desta data. O dia 28 de junho ficou consolidado como o dia do orgulho LGBT+ e é quando se realizam as inúmeras Paradas LGBT+ ao redor do mundo, que têm o objetivo de celebrar o orgulho de ser quem é e relembrar as necessidades e demandas de pessoas da sigla ainda nos dias de hoje. 

Primeira Parada do Orgulho LGBT+, Nova Iorque, 28 de junho de 1970. Fonte: CNN, 2016.

Entretanto, é interessante ressaltar que, mesmo antes de 1969, já haviam sido criados alguns grupos de organização homossexual, principalmente nos Estados Unidos, como o La Mattachine Society, fundado em 1951, em Los Angeles, por homens gays, e o The Daughters of Bilitis, um grupo lésbico criado em 1955 em São Francisco, que atuava em paralelo ao primeiro. Em relação ao movimento transsexual, a criação do periódico Transvestia: The Journal of the American Society for Equality in Dress, em 1952, é considerado um marco da organização de pessoas transsexuais e travestis em prol da luta por seus direitos. Desse modo, entende-se a articulação LGBT+ como um movimento gradual que foi sendo construído ao longo do início da segunda metade do século XX, através da criação uma rede de contatos que foi essencial para o fortalecimento do movimento que ocorreu após 1969. (FERRAZ, 2017; JIMÉNEZ, 2009).

No Brasil, o movimento LGBT+ articulou-se, principalmente, a partir da década de 1970, durante o período da ditadura civil – militar (1964 a 1985), através da publicação de periódicos e panfletos que expunham as pautas e reivindicações desta população. O jornal Lampião da Esquina foi fundado em 1978 e era abertamente homossexual, denunciando violências contra a população LGBT+, como prisões arbitrárias, além de abordar outras pautas sociais, fazendo oposição ao regime militar. No ano de 1981, um grupo de mulheres lésbicas criou o jornal ChanacomChana, que era comercializado no Ferro’s Bar, local do centro de São Paulo frequentado, principalmente, por mulheres lésbicas e bissexuais. A venda não era aprovada pelos donos do local que, em julho de 1983, tentaram expulsar as ativistas que vendiam os jornais, proibindo sua circulação. No mês seguinte, na noite de 19 de agosto, o Grupo de Ação Lésbica Feminista (Galf) articulou-se com a imprensa, outros ativistas e até mesmo figuras públicas como a vereadora Irene Cardoso e promoveu a invasão do Ferro’s Bar para a leitura de um manifesto em defesa dos direitos das mulheres lésbicas, conseguindo derrubar a proibição e restabelecer a circulação do periódico. O episódio ficou conhecido como “pequeno Stonewall brasileiro”. (COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2014; FÁBIO, 2017; FERRAZ, 2017). 

Capa do ChanacomChana, setembro de 1983. Fonte: Acervo Bajubá.

O primeiro grupo homossexual criado no Brasil foi o Somos (Grupo de Afirmação Homossexual), em 1978, que organizava, primordialmente, demandas de homens gays. No ano seguinte, mulheres lésbicas juntaram-se ao grupo, criando uma subdivisão denominada Lésbicas Feministas. No entanto, o grupo se dissolveu em 1983, devido à grande dificuldade de articulação de movimentos sociais durante a ditadura. No ano de 1992, foi fundado o primeiro coletivo de articulação política de travestis e transsexuais da América Latina, o ASTRAL (Associação de Travestis e Liberados). (FÁBIO, 2017). Nesse sentido, o debate acerca das necessidades de cada uma das letras da sigla numa escala nacional foi sendo construído em um período de intensa repressão, sendo a articulação também gradual e marcada por episódios de resistência contra o regime ditatorial. 

Na década de 1980, a explosão do vírus HIV representou uma nova fase para o movimento LGBT+ no Brasil e no mundo, pois a epidemia atingiu, em imensa escala, homens gays e bissexuais, além de transsexuais e travestis. Estes indivíduos ficaram marcados por um estigma de portadores e transmissores de uma doença mortal e sem cura, conhecida como o “câncer gay”. (FERRAZ, 2017). Houve uma reorganização das pautas políticas e a saúde pública tornou-se prioridade em lugar da demanda por libertação sexual. (FÁBIO, 2017). No entanto, o desconhecimento de um tratamento eficaz resultou em um índice de mortes muito alto, e, além disso, o preconceito e a discriminação fizeram com que muitos indivíduos infectados não tivessem acesso à um tratamento humanizado.

A eclosão da epidemia resultou na criação de diversos fundos e casas de apoio dedicados ao tratamento de pessoas com AIDS, fazendo com que o movimento LGBT+ se organizasse mais fortemente em busca de visibilidade e atenção adequada. Apesar do estigma prevalecer até hoje, por exemplo, na proibição de doação de sangue por homens gays no Brasil, a crise da AIDS foi um momento crucial para a reorganização política do movimento e determinação de pautas mais específicas e urgentes.

Ao longo da história, o movimento LGBT+ foi responsável pela criação de uma consciência de que qualquer indivíduo merece acesso à direitos básicos independente de sua orientação sexual ou identidade de gênero. O reconhecimento de que a não-heterossexualidade e não-cisgeneridade são expressões sexuais válidas, além de outra série de direitos (casamento homossexual e adoção por casais homossexuais, direitos trabalhistas, direito ao nome social) garantidos em grande parte do mundo são resultados de pressões realizadas durante anos, numa demanda por visibilidade e respeito. 

Todavia, ainda há muito no que se avançar no que diz respeito à direitos LGBT+, uma vez que, atualmente, 70 países ainda possuem legislações contra essa população, inclusive condenação à pena de morte em alguns deles. A homofobia internalizada na sociedade ainda é um problema até mesmo nos países mais desenvolvidos no quesito de garantia de direitos à esta população, e a luta contra os esteriótipos, a estigmatização e o preconceito é constante. Entretanto, grupos como a Associação Internacional de Gays e Lésbicas (ILGA) e ONGs como a Stonewall, no Reino Unido, são essenciais não só para dar suporte à essa população, mas também para realizar pressões na opinião pública, nos órgãos internacionais e até mesmo nos governos dos Estados para que se garanta direitos básicos aos quais qualquer indivíduo deveria ter acesso, além de ajudarem na construção de um ideal de respeito, empatia e da igualdade como algo saudável e desejável. 

Em um momento como o atual, é importante ressaltar que a luta LGBT+ não existe se não há recortes de raça, gênero e classe, visto que não somos uma coletividade homogênea e, portanto, nossas demandas são divergentes quando consideramos esses aspectos. Mais do que nunca, que lembremos que Stonewall não foi um ato pacífico e teve em sua vanguarda mulheres lésbicas e transsexuais negras, corajosas o suficiente para reagir à repressão policial e dar início a um longo processo de conquista dos direitos que temos hoje. Não podemos nos esquecer disto.

Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, 2019. Fonte: GoHurb.

CARTER, David. Stonewall: The Riots That Sparked the Gay Revolution. Boston: Macmillan Publishers, 2004.

Chanacomchana. Chanacomchana Edição 4. Disponivel em: http://acervobajuba.com.br/chanacomchana-edicao-4/ Acesso em: 01 Ago. 2019.

Comissão da Verdade do Estado de São Paulo (Brasil). Ditadura e Homossexualidades: Iniciativas da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”, 2014. Disponivel em: http://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/relatorio/tomo-i/downloads/I_Tomo_Parte_2_Ditadura-e-Homossexualidades-Iniciativas-da-Comissao-da-Verdade-do-Estado-de-Sao-Paulo-Rubens-Paiva.pdf Acesso em: 01 Ago. 2019.

FÁBIO, André Cabette. A trajetória e as conquistas do movimento LGBT brasileiro, 2017. Disponivel em: https://www.nexojornal.com.br/explicado/2017/06/17/A-trajet%C3%B3ria-e-as-conquistas-do-movimento-LGBT-brasileiro Acesso em: 02 Ago. 2019.

FERRAZ, Thaiz. Dia do Orgulho LGBT: Conheça a história do movimento por direitos, 2017. Disponivel em: https://guiadoestudante.abril.com.br/blog/atualidades-vestibular/dia-do-orgulho-lgbt-conheca-a-historia-do-movimento-por-direitos/ Acesso em: 01 Ago. 2019.

GAUCHAZ. 30 anos após aids virar epidemia, homens gays ainda são impedidos de doar sangue, 2014.  Diaponivel em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/noticia/2014/10/30-anos-apos-aids-virar-epidemia-homens-gays-ainda-sao-impedidos-de-doar-sangue-4610201.html Acesso em: 01 Ago. 2019.

GEOGEGHAM, Tom. Stonewall: A riot that changed millions of lives, 2019. Disponivel em: https://www.bbc.com/news/world-us-canada-48643756 Acesso em: 01 Ago. 2019.

GMT. The first gay pride parades, 2016. Disponível em: https://edition.cnn.com/2016/06/16/us/gallery/tbt-first-pride-parades/index.html Acesso em: 02 Ago. 2019.

GUERRA, Veronica. As atrações da semana da Parada LGBT de São Paulo, 2019. Disponivel em: https://www.hurb.com/viajantehu/as-atracoes-da-semana-da-parada-lgbt-de-sao-paulo/ Acesso em: 31 Jul. 2019.

JIMÉNEZ, Rafael M. Mérida. Manifiestos gays, lesbianos y queer: Testimonios de una lucha (1969 – 1994). Barcelona: Icaria editorial, 2009.

O GLOBO. Apesar de avanços, ser gay ainda é crime em 70 países (em alguns deles com pena de morte), 2019. Disponivel em: https://oglobo.globo.com/celina/apesar-de-avancos-ser-gay-ainda-crime-em-70-paises-em-alguns-deles-com-pena-de-morte-23674176 Acesso em: 31 Jul. 2019.

ROSSINI, Maria Clara. O que foi a rebelião de Stonewall? 2019. Disponivel em: https://super.abril.com.br/historia/o-que-foi-a-rebeliao-de-stonewall/ Acesso em: 01 ago. 2019.

UNITED NATIONS. Living free and equal, 2016. Disponivel em: https://www.ohchr.org/Documents/Publications/LivingFreeAndEqual.pdf Acesso em: 01 Ago. 2019.

Uma conversa sobre “Eu Nunca”, Fabíola Torres e heteronormatividade

Você provavelmente já ouviu falar da série Eu Nunca (Never Have I Ever), recentemente lançada pela Netflix, que conta a história de Devi, uma adolescente de origem indiana que, no meio do Ensino Médio, tenta lidar com questões comuns à qualquer pessoa que já teve 16 anos: mudanças nas amizades, busca por popularidade, perda da virgindade, conflitos familiares e, claro, suas paixões. Mas, para além disso, Devi também tenta lidar com a perda recente do pai e com seus questionamentos relativos à sua cultura e tradições. 

A série é leve, divertida e trata de assuntos sérios e profundos de uma maneira didática e cativante. Neste sentido, o que mais me chamou a atenção não foi a história da protagonista, mas sim de uma de suas melhores amigas: Fabíola Torres, uma menina negra, apaixonada por tecnologia e que começa a questionar sua sexualidade. Já devo me adiantar esclarecendo que a trajetória de Fabíola passa longe de ser o foco da primeira temporada, mas os poucos momentos em que a nossa atenção é voltada para a vida dela me proporcionou um sentimento de identificação e me fez pensar que a Eu Nunca retrata muito bem algumas vivências não-heterossexuais em uma sociedade heteronormativa. 

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A heteronormatividade, segundo a cientista política Cathy J. Cohen, é um conjunto de “práticas e instituições que legitimam e privilegiam a heterossexualidade e relacionamentos heterossexuais como fundamentais e ‘naturais’ dentro da sociedade”. 

Logo no começo da série, quando Devi começa a pensar em um plano para que ela e suas amigas sejam populares, uma das primeiras estratégias é que todas elas consigam namorados. O fato de Devi assumir, automaticamente, que suas amigas são heterossexuais reflete muito o que acontece a todo momento e em qualquer lugar. Quando todos ao nosso redor presumem o mesmo, não nos resta muito tempo e espaço para questionar isso, principalmente quando não temos mais ninguém para conversar sobre o que estamos pensando. Esse tipo de comportamento é uma consequência direta da heteronormatividade ao mesmo tempo que a reforça, alimentando a ideia de que o natural e esperado é que todos se atraiam pelo sexo oposto.

Em um outro momento, Fabiola e sua mãe estão na manicure juntas e, embora a garota deseje unhas limpas e simples, a mãe continua insistindo para que ela faça algo mais “feminino”. Poderíamos discutir uma infinidade de coisas a partir dessa cena: a pressão por feminilidade, a questão dos estereótipos e papéis de gênero, e, principalmente, ressaltar que o desinteresse por pintar as unhas não deveria dizer nada sobre a sexualidade de ninguém. O que mais me chamou atenção foi o diálogo entre mãe e filha que veio logo depois, quando Fabiola conta que acabou ficando mais tempo na escola fazendo um projeto de história com seus colegas de turma, Ben e Eve, e a mãe assume automaticamente que ela gosta de Ben. Não só nesta conversa, mas também em vários outros momentos da série, a mãe pressiona a filha para que ela tenha logo um namorado, o que também diz muito sobre as expectativas que são colocadas sobre nós ao nascermos: assim que a notícia de que “é uma menina!” é dada, as paredes do quarto são pintadas de rosa, os parentes tratam de comprar vestidos, saias e lacinhos e, na infância, já começam as brincadeiras sobre os “namoradinhos”. O que é esperado de nós é que, no momento certo – e jamais antes disso – nos casemos com um homem forte e viril. Essa expectativa desde que nascemos reflete que a instituição da família é uma grande perpetuadora dos valores heteronormativos. 

Never Have I Ever Recap Season 1 Episode 3: …Gotten Drunk

A primeira vez que Fabiola tem coragem de admitir que gosta de outras garotas é quando ela programa um robô para dizer a frase “i’m gay”. A cena me lembrou do momento em que, nos meus 15 anos, às três e meia da manhã, falei pela primeira vez que não era heterossexual. Com a voz baixa, quase sumida, no escuro e na solidão do meu quarto e de porta fechada, depois de horas sem conseguir dormir. De certa forma, o que mais poderíamos esperar de um momento que exige que finalmente nos reconheçamos como o que toda a sociedade rotula como “anormal”, “doentio” ou “perverso”? É cruel pensar quantos de nós tenham de passar por uma dor tão intensa simplesmente para poderem ser livremente quem são e o quanto de nossa juventude é roubada por este processo.

A heteronormatividade é uma ferramenta muito eficaz para marginalizar sistematicamente um segmento da população. Essa marginalização causa não apenas efeitos psicológicos severos nesses indivíduos, como também – e principalmente – produz uma desvantagem social para este grupo, que acaba por ter seus direitos violados ou negados, e não possuem as mesmas oportunidades de inserção social ou o mesmo amparo legal que os indivíduos heterossexuais. A história de Fabiola retrata apenas uma face mais individual da heteronorma, que, muito mais gravemente, justifica agressões, torturas e até mesmo execuções de pessoas LGBT. Embora muito da discussão apresentada acima pareça ser privada, o fato de a heteronormatividade regular os modos de viver e os desejos corporais dos indivíduos também torna-se um debate de âmbito público ao estabelecer que indivíduos heterossexuais, por serem “normais”, merecem um tratamento privilegiado em relação aos que não o são. Esta noção hierárquica de sexualidades leva ao que chamamos de homofobia, que, muito mais que um preconceito relacionado à aversão e desprezo por homossexuais, compreende um conjunto de crenças, valores, padrões normativos e mecanismos discriminatórios que definem relações de poder e sistemas de exclusão.

É importante lembrar que o debate sobre homofobia não pode ser tido de maneira isolada e que estes sistemas de exclusão se intercalam quando consideramos outros fatores como classe social, gênero e raça. A própria Fabiola, por ser uma mulher negra, não sofre unicamente por ser lésbica, mas também por ser uma mulher e por ser negra. Dessa maneira, sua vivência também é afetada pela misoginia, pelo racismo e pela lesbofobia, ou seja, a intolerância e perseguição de mulheres que não cumprem com normas de gênero estabelecidas culturalmente pelo poder masculino. As vivências lésbicas sofrem dupla vulnerabilidade ao não serem completamente incluídas nas pautas de combate ao machismo e da homofobia. A lesbofobia não é, simplesmente, uma soma destas duas realidades e, portanto, demanda debates que não podem ser simplesmente uma reprodução de discursos anti-homofóbicos ou anti-misóginos. Mulheres que se relacionam com mulheres e, principalmente, mulheres lésbicas, possuem suas próprias demandas. Isto também é assunto para outro texto. 

Você shippa Fabiola e Eve? Vote agora! - Enquetepop

No fim das contas, a família de Fabiola aceita bem sua sexualidade e a garota engata um romance com Eve – que eu realmente espero que seja mais explorado nas próximas temporadas, já que há muito a ser dito. Li em uma resenha da série um comentário que criticava esse desfecho porque ele “não condizia com a realidade”. Bom, eu fico genuinamente feliz de ver histórias lésbicas serem narradas de forma leve e com um final feliz, já que isso é bem raro de se ver no audiovisual – quantos filmes de mulheres lésbicas você conhece e, mais do que isso, quantos deles contam uma história feliz? Imagino que poucos (se você ainda não viu o meu post recomendando cinco filmes de mulheres lésbicas ou bissexuais dirigidos por mulheres, clica aqui). Na verdade, quanto mais histórias assim forem contadas, mais condizente a realidade ficará com esse tipo de desfecho. E é exatamente isso que a gente quer. 

Algumas referências:

COHEN, Cathy J. Punks, bulldaggers, and welfare queen: The radical potential of queer politics? in “Black Queer Studies”. E. Patrick Johnson e Mae G. Henderson, eds. Duke UP, 2005. 24

JUNQUEIRA, Rogério Diniz. Homofobia: limites e possibilidades de um conceito em meio a disputas. Bagoas – estudos gays: gênero e sexualidades, Rio Grande do Norte, v. 1, n. 1, nov. 2012.

ME DEIXA GRITAR!

Olha, para de falar nesse tom baixo porque eu não nasci pra ser segredo. O que é pra ser sigilo escolho eu, e isso não vai ser nunca. A partir do momento que virou certeza para mim, eu não pretendo esconder de ninguém. Que me aceitem desse jeito – talvez não aceitem, mas que me respeitem e me engulam. Porque eu existo. 

“Lesbian kiss steals spotlight at French anti-gay parenting protest”, France 24.

Eu não me importo com o que vão pensar, ou falar, ou sussurrar entre eles. Eu não me importo se vão rir de mim, ridicularizar o meu cabelo, a minha voz, as minhas roupas, as minhas opiniões, o meu jeito de rir ou o meu senso de humor. Eu não me importo se quiserem dizer que estou errada, que nasci doente, que estou desvirtuando as crianças deles: eu tenho dó das crianças deles. Estou aqui e existo, faço barulho, ocupo espaço. Também sou matéria e falarei tão alto quanto for necessário para incomodá-los. 

Eu não sou fetiche, eu não sou piada, eu não sou vergonha. Não sou estranha, doente, anormal. E eu não vou me esconder numa gaveta, calar meu riso frouxo, me pintar de preto e branco ou deixar que queimem e escondam nosso passado, que finjam que nunca existimos. Não volto para mais nenhum armário e não vou mais apresentar a mulher que amo como uma amiga ou inventar histórias sobre o meu namorado para as pessoas do trabalho. Não vou me manter atrás de uma cortina fechada ou deixar de apertar a mão de outra igual a mim no meio da avenida. Não vou, porque o mundo precisa é de mais saúde, e qualquer amor já é um pouco. Eu não vou passar despercebida, porque eu também narro essa história.

Quando narro, narro com minha voz lésbica e gesticulo com minhas mãos lésbicas. Escrevo minhas vivências com meus dedos lésbicos que tocam outros corpos – femininos – e deixam por aí as minhas digitais lésbicas. Se me agridem, sangro lésbica e quando grito também não deixo para trás essa parte de mim. Que, é verdade, não me define unicamente, mas que em sua ausência não me sou inteira. E não me permito esconder nem um milímetro meu: não tenho outra possibilidade a não ser a de me jogar no mundo como sou, sendo como posso. E a liberdade mais bonita e intensa a certeza de que nada nesse mundo pode me fazer sentir vergonha da pessoa que vejo quando encaro o espelho. 

Eu não quero saber, não é pra falar nesse tom baixo sobre mim, porque eu não vou esconder de ninguém esse carnaval que carrego no peito e esse sorriso aberto que mostra o meu orgulho de ser quem sou. 

Me deixa gritar, porque eles precisam ouvir.

Eu disse que não escreveria mais sobre isso.

Decidi não escrever mais sobre o amor quando descobri que tudo que um dia me ensinaram sobre o que era amar era uma armadilha. Uma história bem contada, floreada e bonita, mas fictícia. Ilusória e enganosa, calculada, que contrariava tudo que aparentava ser – nada espontânea ou quente; apenas um lençol frio e branco cobrindo mentiras. Porque quando descobri quem eu era, me disseram também que o amor não era para pessoas como eu.

O ato de amar me foi negado. Mais do que negado; impossibilitado. Porque o que me ensinaram sobre o amor contraria tudo o que eu sou capaz de sentir;  contraria também o que eu sou e ponto. Me ensinaram que as pessoas são divididas em dois tipos: as que são merecedoras de amor e as que não são. Como se amor fosse uma moeda de troca, um tipo de benefício que recebe quem preenche alguns requisitos. 

Me vi sem saber quem era – ou desejando não ser o que era – porque arrancaram as minhas verdades de mim. Todos os livros, filmes e músicas pareciam dizer que eles estavam certos e eu, errada. O mundo despencou e dependurou-se de ponta cabeça na direção contrária à minha caminhada. 

Tentei redescobrir o que era o amor nas entrelinhas, entre toda aquela informação bombardeada de manuais e listas que tomavam o sentimento como uma verdade dada, com limites bem delineados, regras bem estabelecidas. Vaguei no meu cotidiano e fui percebendo amor nas coisas mais minúsculas. Nas manhãs amarelas de março que cheiravam a café fresco e ovos mexidos, no barulho do arrastar das cadeiras de madeira, no ato de observar em silêncio as nuvens se arrastarem no céu e sentir as bochechas espremerem os olhos imaginando formas improváveis de animais branquinhos – essa sensação de infância e conforto. Nas mãos enrugadas que me entregavam potes de biscoito recém assados, no cheiro de laranjas sendo cortadas ao meio, na textura das roupas recém-lavadas em casa. No tom de preocupação genuína em uma pergunta sobre o que quer que fosse e no toque de mãos cheias de ternura. Em um olhar demorado. 

Li num livro de poemas que a ideia de morrer por amor não fazia sentido porque o amor é o contrário do fim. O amor perdura, terreno, se transforma em criaturas de tantas formas, tão mutável que não se explica. E não se acomoda com qualquer identidade que lhe é imposta – transcende o que quer que seja que chamamos de tempo.

E todas aquelas canções que deveriam ser sobre amar, de repente, não eram. E metade das pessoas que diziam falar sobre o amor, de repente, pareciam não entender do que falavam. Porque o amor não tem a ver com sacrifício; tem a ver com rendição. Não tem a ver com grandes atos, é uma peça de teatro independente num subúrbio qualquer. Não tem a ver com gaiolas e amarras – o amor é anarquista, insubordinado, não colonial. É persistente, preenche tudo – feito cheiro de hortelã molhado. O amor anda descalço.

O amor é tudo aquilo que disseram que não era.

(Acho que finalmente entendi Bukowski).

O CENTRO

N’outro dia desci lá pro centro da cidade e deixei meus olhos curiosos (mas míopes) tentarem explorar cada canto de cada prédio cada vidro de cada janela quebrada cada esquina virada feito dois recém nascidos num mundo sem vírgula nem tempo pra respirar. E mesmo com tudo embaçado, o centro não precisa ser visto; ele é imediatamente sentido. E me senti sozinha dentro de uma poesia imensa, tipo a Tabacaria, cheia de curvas inesperadas, bruscas, rápidas: me senti colocada num novo espaço assim, de repente. Saí de mim. Fui passear. 

Naquele asfalto plano, senti uma aventura. Atravessar o quarteirão era me colocar em outra dimensão, me permitir sentir outras coisas. Daquele outro lado, estavam cores que eu nunca havia pensado em ver, cheiros que não conhecia, detalhes que fugiam do meu olhar como se implorassem para não serem notados, exigindo privacidade, segredo. Me sinto uma fugitiva descrevendo em prosa algo tão urgentemente secreto quanto as particularidades daquele perímetro central, sempre tão exposto, que só queria ser um pouco de mistério. 

Mas luzes e os sons refletiam e ecoavam de forma tão singela naquele ambiente tão aberto, tudo parecia tão perfeitamente sincronizado, o caos sendo feito de bobo por uma beleza singular que só aquele exclusivo ponto de vista tornava possível, que parece quase pecado não registrar. Pensei que se existe um lugar para que os homens possam encontrar a si mesmos, seria ali, no meio de tantas existências colidindo que é impossível não esbarrar no seu próprio corpo, eventualmente. Fui passear ali, num lugar que tornava impossível com que eu me perdesse de mim mesma. Fixei raízes num chão sujo, no coração de tantos ruídos, gritos, debaixo de um viaduto. Plantei minhas sementes sem olhar para trás, sem querer saber do resultado; que o mundo tomasse conta delas agora, que essas sementes criassem suas próprias pernas e por sua vez saíssem andando por aí descobrindo outros detalhes secretos e observando outras colisões. 

Ao voltar pra casa, percebi que metade de mim havia ficado por lá. E a outra metade que voltou comigo já se regenerava, tomando outras formas, outras cores, gritando em outras vozes dentro de mim. Não pensei em voltar para buscar nada e me permiti sentir o desespero agridoce de perder o controle. Há algo de engrandecedor em deixar a parte fugitiva de mim enrolar-se nos mistérios centrais. Quem sabe, em breve, outro olhar míope, curioso e em busca de alguma coisa – qualquer coisa – me veja por aí, olhando de volta, entregando qualquer resposta que eu mesma não tinha consciência de que guardava em alguma parte de mim.

A CADA ROTAÇÃO

Parece ter sido ontem que te vi entre esses morros mineiros, entre essas serras verdes e nuvens de cerrado. Parece ter sido ontem que vi as sombras do entardecer esconderem seu rosto, de um jeito ligeiramente diferente de como ele se esconde entre as minhas pernas, mas com o mesmo mistério. Parece ter sido ontem que tudo que eu enxergava no vazio da noite era seu olhar.

https://www.atlanticahotels.com.br/blog/viagem-de-inverno-conheca-minas-gerais-no-frio-e-apaixone-se/

Quando te conheci, meus pés eram ingênuos e tinham caminhado poucas distâncias – nem mesmo sabiam o quanto queriam andar. Seus olhos nunca foram inocentes e com o tempo os observei ganhar um tom a mais de malícia e sede de viver. Seu corpo e seu toque afiados nunca deixaram de ser contraste à sua voz macia. Poucas vezes tenho o gosto de revisitar quem eu era e quem era você, e a nostalgia me afoga e ponto de me deixar sem ar – mas se teve um tempo que sofri por causa de uma saudade infundada e irracional, hoje, não sofro mais. Aprendi a observar suas novas versões se formarem e irem ficando para trás e isso me dá certo desejo; fico curiosa para te conhecer a cada nascer do sol.

Sinto que amadureço como uma fruta – de um dia pro outro, mas lentamente, exatamente da maneira com que adormeço. Não sinto sempre aquele amor que incendeia tudo – às vezes, ele aparece de visita, mas, depois de uns dias, faz as malas e me deixa com o vento fresco que faz música com as folhas de árvores como se fossem pandeiros. E é melhor amar assim; um amor que caminha junto ao meu próprio, que respeita o tempo em vez de ir contra ele. Gosto assim: amo feito roda de samba na beira do mar sob a luz horizontal do sol, mas sei quando ser carnaval…

UMA FLOR AMARELA

Há uma flor amarela em meu jardim que se recusa a morrer e insiste na vida. Mesmo quando a chuva cessa e promete nunca mais voltar, como um amante magoado, e o sol castiga sem piedade; mesmo quando as nuvens descarregam sem dó nem trégua e tudo vira água; nem quando a humanidade se esquece da sua cor bonita e da sua vontade de permanecer. Ela permanece, independente de qualquer intensidade ou esquecimento.

É uma força visceral que faz com que ela permaneça ali. E é, também, uma escolha: sucumbir nada mais é que desistir de escolher estar, todos os dias, um após o outro. E ela permanece estando, permanece escolhendo, enquanto toda gente a observa das janelas, numa expectativa quase sádica, naquela apreensão toda enquanto a vida vai sendo vivida nas ruas: os bois passam, a cidade conversa, o sereno do anoitecer chega e os olhos continuam curiosos, tentando disfarçar que sempre olham para o quintal.

E em toda sua cor, a florzinha amarela continua, brilhante, viva, forte. Eu acho que é a música que a deixa com vontade de ficar. Aquele sambinha que me acorda de manhã, um violão que não gosta de ficar com as cordas paradas, o céu azulzinho trazendo toda a esperança. Com samba e sol não há tristeza que perdure, não há choro que valha a pena, não há flor que queira morrer.

E é nessa simplicidade toda que eu tomo consciência do quanto sou pequena frente ao mundo: quando escuto o barulho do rio que corre sem parar, quando deito na grama e olho para todas essas estrelas piscando para mim, quando encaro essa florzinha amarela, questiono meus desesperos, medos e inseguranças. Com todo esse horizonte banhado por montanhas, com toda a infinitude do planeta, com essa flor amarela que resiste primavera atrás de primavera, percebo que, mais do que dor, essa vida também pode ser paz. E que não devo me sentir na obrigação de lutar todas as lutas e de me atentar à todos os males, porque, enquanto eu eu estava olhando para o lugar errado, toda essa beleza, toda essa excelência, todo o magnífico, estava bem aqui, no meu jardim.

Quando olho para a flor amarela, sei que posso ser como ela e me recusar a ser morta. Ser morta por olhares, ou palavras, ou por qualquer chuva ou sol forte ou qualquer esquecimento. Porque não me importo mais com o que eles pensam, falam ou deixam de falar. A cada passo, eu deixo minha marca no mundo e, como ela, me deixo ser mistério, deixo com que não entendam, quase desejo que não entendam; nem a minha força, nem a minha esperança, nem a minha paz em ser tão pequena num mundo tão gigante.