Eu sou lésbica. E esse é um desabafo.

Há pouco mais de 4 anos, escrevi um texto enorme (para mim mesma, um outro desabafo) contando como foi me descobrir bissexual.

Acontece que eu não sou bissexual.

Fonte: Pinterest

Qualquer pessoa que já se assumiu, ao menos para si mesmo, há algum tempo, entende o quão problemático foi crescer sem referências não-heterossexuais e os impactos disso no entendimento da própria identidade e sexualidade. Não me lembro de saber, pelo menos até meus 10 anos de idade, que meninas como eu nem sempre gostavam de meninos. Não me lembro de saber que essa era uma opção, e também não me lembro de saber que as pessoas também podem gostar de meninos e meninas.

A consequência disso é bem óbvia: o início da minha adolescência foi marcado pela reprodução de falas e comportamentos preconceituosos e, claro, como a pouca referência que eu tinha sobre a não-heterossexualidade era pejorativa, a última coisa que passava pela minha cabeça era questionar a minha — tida como certa, óbvia, fixa — heterossexualidade.

Beijei um garoto pela primeira vez quando eu tinha 11 anos. Continuei beijando exclusivamente garotos até os meus 15. E considero que me descobri cedo quando escuto falar casos de mulheres que se perceberam não-héteros só depois dos 20. Todo o processo de entender que eu não era heterossexual foi muito exaustivo, penoso. Eu não conseguia admitir em voz alta nem para mim mesma, sozinha no quarto e às 3 da manhã, que eu não era hétero. E toda essa exaustão se repetiu de maneira quase tão intensa dois anos depois, quando comecei a pensar que eu talvez gostasse  de meninas.

A palavra lésbica é um tanto assustadora. Por muitos anos, a escutei sendo dita com desprezo, raiva, nojo ou de maneira completamente sexualizada. Ninguém quer ser identificado como algo que tem essa conotação. Mesmo depois de entender que eu realmente era sexualmente e afetivamente atraída por mulheres (com muito, muito custo, choro e noites mal dormidas, porque isso significava uma mudança enorme na lógica da minha passagem por esse mundo), acreditei que o mesmo acontecia com homens. Mantê-los na equação era o que fazia mais sentido, afinal, eu já tinha ficado com vários deles e até namorado um por um bom tempo. Na minha cabeça, essa soma dava um resultado bem claro: se eu tinha histórico de me envolver com homens, a opção ser lésbica estava anulada. Fim dos meus problemas comigo mesma.

Na prática, eu me sentia fisicamente e psicologicamente deprimida depois de me envolver de qualquer forma com algum cara, mesmo que fossem só alguns beijos. Não entendia o motivo de me sentir tão mal. Queria tomar vários e vários banhos e fingir que nunca tinha acontecido nada; era uma ressaca moral que durava semanas. Não conhecia nenhuma outra garota que gostasse de garotas e a internet nunca sabe exatamente pelo que estamos passando, nunca responde todas as nossas perguntas. Isso fez com que eu me sentisse muito sozinha e deslocada de qualquer ambiente que eu estivesse, porque grande parte das coisas pelas quais eu estava passando e queria falar eram invalidadas: minhas amigas não entenderam quando eu disse que perdi a virgindade com uma menina (“ah, foi com uma menina! então você ainda é virgem, teoricamente, né?”) e também não entendiam como era namorar uma pessoa que não segurava a minha mão na rua, que só me recebia em casa me chamando de “amiga”, que não pretendia me levar como acompanhante em nenhum evento de família nem naquele momento, nem nunca.

Estar em contato com mulheres que se relacionavam com mulheres foi algo transformador e definitivo quando, lá para os meus 18, tive coragem de falar: eu sou lésbica. Bom, não saiu assim de primeira. Começou com “acho que prefiro garotas… mas também não é que não gosto dos meninos!”, chegou em “eu acho que não me interesso por homens” e… bom, na maior parte do tempo, eu afirmo com muita certeza que sou lésbica (agora quase com 21). Mas em vários momentos, esse medo da palavra e de tudo que ela traz ainda me perseguem. Em vários momentos, me pergunto se é realmente isso… mesmo que eu não me imagine estando com um homem sexualmente ou afetivamente em nenhuma situação a curto, médio ou longo prazo. Mesmo que eu não pretenda, de forma alguma, construir minha vida tendo um homem como companheiro. Então por quê a dúvida?

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Parte disso talvez seja porque a comunidade lésbica, por vezes, continua usando termos como “lésbica gold star” (que nunca se relacionou com homens) que invalidam e deslegitimam a identidade de mulheres que se descobriram lésbicas apenas após terem tido experiências com homens. Alguns comportamentos da própria comunidade fazem com que acreditemos que não somos dignas de ocuparmos esse espaço — que é político. Mas, acredito que acima disso, o que mais faz falta são referências e espaços nos quais podemos nos expressar livremente, compartilhar dúvidas e experiências. Conheço poucas mulheres lésbicas, mesmo agora, e percebo que ainda me sinto muito sozinha. Percebo que não falo quase nunca sobre determinadas inseguranças e determinados sentimentos porque não sei onde ou quando falar. Porque ainda fala-se pouco sobre lesbianidade.

Mulheres lésbicas são historicamente excluídas de movimentos sociais mais encorpados, como o movimento LGBT+ ou o movimento feminista, porque não são contempladas por todas as suas pautas. É claro, somos um grupo com vivências específicas e, portanto, demandas específicas — mas se a estruturação de um movimento lésbico por si só já é complexa, aliar essa luta com outras é ainda mais, mesmo que nos micro-espaços. O pressuposto de que homens não são incluídos em nossas vidas afronta diretamente o patriarcado, que rege nossas relações sociais e, portanto, nossas próprias expressões de individualidade. A ausência masculina é uma declaração de guerra, algo impensado, blasfêmico. Sempre que eu lia algo nesse sentido em manifestos lésbicos achava um tanto exagerado, mas não é. Mulheres que planejam suas vidas sem considerar a presença de um cara são uma ameaça. E, por isso, deslegitimadas de todas as formas. É uma questão de observar dos mínimos detalhes à lesbofobia mais escancarada.

E é um ciclo infinito: a falta de espaços e de referências faz com que muitas mulheres passem por dificuldades ao se identificarem como lésbicas, e essa dificuldade de dizer essa palavra tão assustadora em voz alta e para o mundo faz com que poucas o façam e, logo, que poucas criem e ocupem espaços que sejam seguros para quem está no início do processo de entender a própria sexualidade.

Ainda estou na minha própria jornada de entender o meu lugar no mundo e nem tudo é transparente, ainda. Me cercar de espaços e mulheres que amam mulheres é uma medida que preciso tomar, pela minha saúde mental e meu esforço de autoconhecimento. Ninguém consegue se entender sozinho – e nem precisa. Porque em algum lugar do mundo, alguém já passou pelo mesmo que nós. Só precisamos nos conectar.

Uma resposta para “Eu sou lésbica. E esse é um desabafo.”

  1. Oi Sofis. Deve ter sido libertador escrever este texto. É importante a gente ser o que somos. Para mim, a orientação sexual de alguém nunca é um problema. O que incomoda é preconceito, desonestidade, agressão gratuita, falta de empatia pelo outro, mentiras…

    Muitos têm inúmeros defeitos, graves, e os escondem sob um manto de boas ações calculadas, ou se afirmam ‘bons’, ‘corretos’, só porque professam uma crença ou outra. Em muitos casos, nem observam o que pregam. Afirmam uma coisa, agem inversamente. Dizem que amam o próximo e são os primeiros a atacar alguém que não têm as mesmas crenças que ela. Basta alguém ser um pouco diferente, ter um ponto de vista ou visão do mundo diverso delas e isso é suficiente para se enervarem. Esse é o grave defeito dos seres humanos. Não fazer questão de enxergar seu semelhante de maneira verdadeira.

    Sei que a sua dificuldade relatada acima significou, em muitos momentos, deparar com pessoas que não te entenderam. E vão ter muitas outras que irão continuar sem te entender. Porque há pessoas que não querem entender ninguém. Querem obrigar a todos a serem iguais a elas, custe o que custar.

    Fico feliz de você não ter nenhum dos graves defeitos que citei acima. Você é extremamente especial, sempre foi e sempre será! Uma pessoa doce, num mundo muitas vezes azedo.

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