ME DEIXA GRITAR!

Olha, para de falar nesse tom baixo porque eu não nasci pra ser segredo. O que é pra ser sigilo escolho eu, e isso não vai ser nunca. A partir do momento que virou certeza para mim, eu não pretendo esconder de ninguém. Que me aceitem desse jeito – talvez não aceitem, mas que me respeitem e me engulam. Porque eu existo. 

“Lesbian kiss steals spotlight at French anti-gay parenting protest”, France 24.

Eu não me importo com o que vão pensar, ou falar, ou sussurrar entre eles. Eu não me importo se vão rir de mim, ridicularizar o meu cabelo, a minha voz, as minhas roupas, as minhas opiniões, o meu jeito de rir ou o meu senso de humor. Eu não me importo se quiserem dizer que estou errada, que nasci doente, que estou desvirtuando as crianças deles: eu tenho dó das crianças deles. Estou aqui e existo, faço barulho, ocupo espaço. Também sou matéria e falarei tão alto quanto for necessário para incomodá-los. 

Eu não sou fetiche, eu não sou piada, eu não sou vergonha. Não sou estranha, doente, anormal. E eu não vou me esconder numa gaveta, calar meu riso frouxo, me pintar de preto e branco ou deixar que queimem e escondam nosso passado, que finjam que nunca existimos. Não volto para mais nenhum armário e não vou mais apresentar a mulher que amo como uma amiga ou inventar histórias sobre o meu namorado para as pessoas do trabalho. Não vou me manter atrás de uma cortina fechada ou deixar de apertar a mão de outra igual a mim no meio da avenida. Não vou, porque o mundo precisa é de mais saúde, e qualquer amor já é um pouco. Eu não vou passar despercebida, porque eu também narro essa história.

Quando narro, narro com minha voz lésbica e gesticulo com minhas mãos lésbicas. Escrevo minhas vivências com meus dedos lésbicos que tocam outros corpos – femininos – e deixam por aí as minhas digitais lésbicas. Se me agridem, sangro lésbica e quando grito também não deixo para trás essa parte de mim. Que, é verdade, não me define unicamente, mas que em sua ausência não me sou inteira. E não me permito esconder nem um milímetro meu: não tenho outra possibilidade a não ser a de me jogar no mundo como sou, sendo como posso. E a liberdade mais bonita e intensa a certeza de que nada nesse mundo pode me fazer sentir vergonha da pessoa que vejo quando encaro o espelho. 

Eu não quero saber, não é pra falar nesse tom baixo sobre mim, porque eu não vou esconder de ninguém esse carnaval que carrego no peito e esse sorriso aberto que mostra o meu orgulho de ser quem sou. 

Me deixa gritar, porque eles precisam ouvir.

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