NA MESA DE BAR

2 de abril 
2:12 da manhã 

-Mas tu não tem medo? 

Aquele sotaque baiano me matou. E aquele olhar cigano também, todo dissimulado, traiçoeiro. Quando ela me olhava, me sentia toda atravessada e transparente, como se meus segredos estivessem se rendendo um por um, de bom grado. Eu não gosto de ninguém que me olha nos olhos e exige minhas verdades. Mas eu gosto dela.

-Tenho medo de muita coisa. Me afogar no mar da Bahia. Ser picada por escorpião. Morrer sozinha. Mas de falar? De falar não tenho. 

-Pois eu morro de medo. 

Ela sempre sustentava o olhar, em silêncio, depois de cada frase. Eu nunca entendi o que fazia alguém ter mais medo de falar do que de olhar. Os olhos são tremendamente mais fracos que a boca, entregam o jogo ao menor sinal de sedução. Virei a cabeça pra esquerda e fingi soprar a fumaça do cigarro que eu nem tinha tragado. Torci pra ela nem perceber. Mas qualquer pessoa que joga mais com os olhos do que com a boca perceberia. 

Pensei no que tinha me levado a ser alguém que fala no lugar de alguém que guarda. Pensei no meu mapa astral, em todas as minhas ex, pensei no que Freud diria da minha infância. 

-Quando você vê o laranja espalhando no céu e o reflexo do pôr do sol no mar – comecei, olhando pra qualquer ponto do espaço que não estivesse ocupado pelas partículas do corpo dela – se tem alguém do seu lado, você fala, comenta. Fica com vontade de tirar uma foto e mostrar pro mundo. Né? 

Ela concordou em silêncio.

-Pois eu falo do que sinto pelo mesmo motivo. Porque é bonito. E também porque, se fico calada, é capaz de eu morrer. 

Ela riu, meio debochando, e falou alguma coisa sobre eu ser impulsiva. Não neguei. Fiquei esperando ela falar algo mais e, enquanto o silêncio se arrastava, deixei meus pensamentos viajarem por momentos que eu mal lembrava dos detalhes. Os meus pés na areia em uma noite de outono e o vento gelado cortando minha nuca. As caminhadas na orla, as paradas nos bares, as risadas altas por causa de todo o álcool que consumimos, os segredos quase ditos, aquele desejo ocupando todos os meus pensamentos. Todas as coisas que eu não disse naquele inverno que veio em seguida. As coisas que eu esperei que ela dissesse. 

Encarei-a por cima da mesa que nos separava, assim como aqueles anos gelados que construíram montanhas entre nós. 

-Bom, e o que ela te disse? – A voz dela abriu espaço entre as tantas outras que se sobrepunham naquela varanda de bar. Por um momento, aquele sentimento antigo me atingiu de novo; lembrei do quanto eu gostava de ouví-la falar por horas e horas, do quanto eu desejava tão intensamente que pudéssemos, uma vez que fosse, estar sozinhas.

-Nada. Ainda. – Dessa vez, traguei. – A gente deve se encontrar amanhã. 

Ela arregalou aqueles olhos castanhos em minha direção e eu senti como se fosse ser engolida por eles. Disse que não entendia como eu ficava tão tranquila com minha própria vulnerabilidade, que, pelo que ela se lembrava de mim, eu jamais estaria tão serena em uma situação como essa. 

-Aprendi com você que tem coisas que eu simplesmente não posso controlar. 

Pela primeira vez, ela desviou o olhar. Quase me arrependi por ter sido tão direta. Naquela época, mesmo com todo aquele silêncio, eu sabia que ela sabia.  Ela sabia quando eu a olhava nos olhos por alguns segundos a mais depois que ela já tinha terminado a frase. Ela sabia quando eu a abraçava por mais tempo do que o socialmente aceitável. Ela sabia quando as nossas mãos se encostaram sem querer enquanto andávamos e eu não fiz questão de me afastar. Ela sabia quando eu a entreguei aquele presente de aniversário feito à mão, sendo que eu nunca dava presentes de aniversário para ninguém. Ela sabia quando eu deixei de responder as mensagens dela contando sobre o novo namorado, aquele garoto meio chato que conhecemos em Vitória da Conquista. Ela sabia quando eu desapareci por um ano e meio e fui morar em outra cidade para aceitar uma proposta de emprego –  que eu nem mesmo queria – e me mudei sem avisar. 

Ela abaixou a cabeça e deixou os cachos cobrirem o seu rosto. Quando me olhou de volta, me encarou como se estivesse se rendendo. 

-Faz sentido. 

-O que? 

-Falar. A sensação sufocante de que vamos morrer se não dissermos. 

-Eu sei. 

-Tenho morrido devagar desde aquele outono. 

Fiquei em silêncio. Ela entendeu como um passe livre para continuar falando. Talvez tivessem sido as cervejas que me faziam ficar com a cabeça meio flutuando, com uma sensação de corpo quente, mas senti meu estômago revirar inteiro. 

-A primeira vez que eu morri um pouquinho por dentro foi quando você foi dormir na minha casa depois de ficar na faculdade até tarde pra terminar um trabalho… Não sei se você lembra. No fim de semana anterior tínhamos ido pra balada e ficamos muito bêbadas. Foi quando você me disse que teve uma quedinha por mim logo no início da faculdade e que achava engraçado que acabamos virando muito amigas. Eu fiquei dias pensando nisso e não consegui dormir nem por um minuto com você no colchão, no chão do meu quarto. A segunda vez foi quando vimos o sol nascer na praia depois daquele luau da turma. Todo mundo foi embora antes das duas da manhã e eu continuava arrumando desculpas pra ficar, porque você ficava dizendo que nunca tinha visto o sol nascer na praia e que ia fazer aquilo nem que fosse sozinha. Ninguém te levou a sério, mas eu só não conseguia levantar de lá e ir pra casa, alguma coisa ficava me segurando… Foi tão gostoso. Continuei morrendo aos pouquinhos nos meses seguintes, por causa das coisas mais imprevisíveis. Mas eu não entendia nada daquilo que eu tava sentindo, Marina. Não queria entender. Tinha medo de entender. 

-Laura… – Comecei, mas fiquei grata por ela ter me interrompido, porque não tinha fôlego pra terminar a frase.

-É sério. Eu… Não sei. Quando conhecemos o Rodrigo naquela viagem e ele deu todos os sinais de que gostava de mim, pulei de cabeça porque queria fugir de toda a confusão que estava estabelecida dentro de mim. A gente passava tanto tempo juntas, todas as meninas comentavam coisas e eu não sabia como lidar. Quando você sumiu e eu fiquei sabendo que iria pro Rio… Senti que estava morrendo um pouco mais de novo. Eu só sabia que queria ter você por perto. Mas você não deu sinal nenhum e voltou pra Salvador como se nada tivesse acontecido, com um corte de cabelo novo… – Ela respirou fundo e engoliu em seco, como fazia quando estava prestes a chorar – Senti tudo de novo. Achei que não fosse sentir nada depois daquela distância toda. Achei que podíamos ser só grandes amigas, como eu sempre imaginei que seríamos. Mas cá estou eu, pensando que queria ser essa tal de… Fernanda? Queria que você estivesse se declarando pra mim, falando todas essas coisas bonitas que você diz não conseguir guardar.

-Você está noiva – Eu não conseguia pensar em mais nada além disso. Na verdade, estava atordoada com o fluxo de pensamentos que me atingiu, com as lembranças, com as perguntas que surgiam na minha cabeça. 

-Eu sei – Ela continuou me encarando, apesar das lágrimas caindo. – Exatamente, eu precisava admitir em voz alta pra entender que não consigo fugir disso.

– O que você quer que eu faça?

Ela não respondeu. Em vez de falar, se inclinou por cima da mesa e me beijou. Senti como se tivesse 21 anos de novo, olhando-a entrar na sala da faculdade vestindo uma blusa amarela que ficava incrível contra a pele escura dela, como se ela iluminasse todo o ambiente. 

Então agarrei sua nuca e a beijei de volta como queria ter feito desde aquele dia. 

Eu sou lésbica. E esse é um desabafo.

Há pouco mais de 4 anos, escrevi um texto enorme (para mim mesma, um outro desabafo) contando como foi me descobrir bissexual.

Acontece que eu não sou bissexual.

Fonte: Pinterest

Qualquer pessoa que já se assumiu, ao menos para si mesmo, há algum tempo, entende o quão problemático foi crescer sem referências não-heterossexuais e os impactos disso no entendimento da própria identidade e sexualidade. Não me lembro de saber, pelo menos até meus 10 anos de idade, que meninas como eu nem sempre gostavam de meninos. Não me lembro de saber que essa era uma opção, e também não me lembro de saber que as pessoas também podem gostar de meninos e meninas.

A consequência disso é bem óbvia: o início da minha adolescência foi marcado pela reprodução de falas e comportamentos preconceituosos e, claro, como a pouca referência que eu tinha sobre a não-heterossexualidade era pejorativa, a última coisa que passava pela minha cabeça era questionar a minha — tida como certa, óbvia, fixa — heterossexualidade.

Beijei um garoto pela primeira vez quando eu tinha 11 anos. Continuei beijando exclusivamente garotos até os meus 15. E considero que me descobri cedo quando escuto falar casos de mulheres que se perceberam não-héteros só depois dos 20. Todo o processo de entender que eu não era heterossexual foi muito exaustivo, penoso. Eu não conseguia admitir em voz alta nem para mim mesma, sozinha no quarto e às 3 da manhã, que eu não era hétero. E toda essa exaustão se repetiu de maneira quase tão intensa dois anos depois, quando comecei a pensar que eu talvez gostasse  de meninas.

A palavra lésbica é um tanto assustadora. Por muitos anos, a escutei sendo dita com desprezo, raiva, nojo ou de maneira completamente sexualizada. Ninguém quer ser identificado como algo que tem essa conotação. Mesmo depois de entender que eu realmente era sexualmente e afetivamente atraída por mulheres (com muito, muito custo, choro e noites mal dormidas, porque isso significava uma mudança enorme na lógica da minha passagem por esse mundo), acreditei que o mesmo acontecia com homens. Mantê-los na equação era o que fazia mais sentido, afinal, eu já tinha ficado com vários deles e até namorado um por um bom tempo. Na minha cabeça, essa soma dava um resultado bem claro: se eu tinha histórico de me envolver com homens, a opção ser lésbica estava anulada. Fim dos meus problemas comigo mesma.

Na prática, eu me sentia fisicamente e psicologicamente deprimida depois de me envolver de qualquer forma com algum cara, mesmo que fossem só alguns beijos. Não entendia o motivo de me sentir tão mal. Queria tomar vários e vários banhos e fingir que nunca tinha acontecido nada; era uma ressaca moral que durava semanas. Não conhecia nenhuma outra garota que gostasse de garotas e a internet nunca sabe exatamente pelo que estamos passando, nunca responde todas as nossas perguntas. Isso fez com que eu me sentisse muito sozinha e deslocada de qualquer ambiente que eu estivesse, porque grande parte das coisas pelas quais eu estava passando e queria falar eram invalidadas: minhas amigas não entenderam quando eu disse que perdi a virgindade com uma menina (“ah, foi com uma menina! então você ainda é virgem, teoricamente, né?”) e também não entendiam como era namorar uma pessoa que não segurava a minha mão na rua, que só me recebia em casa me chamando de “amiga”, que não pretendia me levar como acompanhante em nenhum evento de família nem naquele momento, nem nunca.

Estar em contato com mulheres que se relacionavam com mulheres foi algo transformador e definitivo quando, lá para os meus 18, tive coragem de falar: eu sou lésbica. Bom, não saiu assim de primeira. Começou com “acho que prefiro garotas… mas também não é que não gosto dos meninos!”, chegou em “eu acho que não me interesso por homens” e… bom, na maior parte do tempo, eu afirmo com muita certeza que sou lésbica (agora quase com 21). Mas em vários momentos, esse medo da palavra e de tudo que ela traz ainda me perseguem. Em vários momentos, me pergunto se é realmente isso… mesmo que eu não me imagine estando com um homem sexualmente ou afetivamente em nenhuma situação a curto, médio ou longo prazo. Mesmo que eu não pretenda, de forma alguma, construir minha vida tendo um homem como companheiro. Então por quê a dúvida?

I'm lesbian, so what? - Home | Facebook

Parte disso talvez seja porque a comunidade lésbica, por vezes, continua usando termos como “lésbica gold star” (que nunca se relacionou com homens) que invalidam e deslegitimam a identidade de mulheres que se descobriram lésbicas apenas após terem tido experiências com homens. Alguns comportamentos da própria comunidade fazem com que acreditemos que não somos dignas de ocuparmos esse espaço — que é político. Mas, acredito que acima disso, o que mais faz falta são referências e espaços nos quais podemos nos expressar livremente, compartilhar dúvidas e experiências. Conheço poucas mulheres lésbicas, mesmo agora, e percebo que ainda me sinto muito sozinha. Percebo que não falo quase nunca sobre determinadas inseguranças e determinados sentimentos porque não sei onde ou quando falar. Porque ainda fala-se pouco sobre lesbianidade.

Mulheres lésbicas são historicamente excluídas de movimentos sociais mais encorpados, como o movimento LGBT+ ou o movimento feminista, porque não são contempladas por todas as suas pautas. É claro, somos um grupo com vivências específicas e, portanto, demandas específicas — mas se a estruturação de um movimento lésbico por si só já é complexa, aliar essa luta com outras é ainda mais, mesmo que nos micro-espaços. O pressuposto de que homens não são incluídos em nossas vidas afronta diretamente o patriarcado, que rege nossas relações sociais e, portanto, nossas próprias expressões de individualidade. A ausência masculina é uma declaração de guerra, algo impensado, blasfêmico. Sempre que eu lia algo nesse sentido em manifestos lésbicos achava um tanto exagerado, mas não é. Mulheres que planejam suas vidas sem considerar a presença de um cara são uma ameaça. E, por isso, deslegitimadas de todas as formas. É uma questão de observar dos mínimos detalhes à lesbofobia mais escancarada.

E é um ciclo infinito: a falta de espaços e de referências faz com que muitas mulheres passem por dificuldades ao se identificarem como lésbicas, e essa dificuldade de dizer essa palavra tão assustadora em voz alta e para o mundo faz com que poucas o façam e, logo, que poucas criem e ocupem espaços que sejam seguros para quem está no início do processo de entender a própria sexualidade.

Ainda estou na minha própria jornada de entender o meu lugar no mundo e nem tudo é transparente, ainda. Me cercar de espaços e mulheres que amam mulheres é uma medida que preciso tomar, pela minha saúde mental e meu esforço de autoconhecimento. Ninguém consegue se entender sozinho – e nem precisa. Porque em algum lugar do mundo, alguém já passou pelo mesmo que nós. Só precisamos nos conectar.

O CENTRO

N’outro dia desci lá pro centro da cidade e deixei meus olhos curiosos (mas míopes) tentarem explorar cada canto de cada prédio cada vidro de cada janela quebrada cada esquina virada feito dois recém nascidos num mundo sem vírgula nem tempo pra respirar. E mesmo com tudo embaçado, o centro não precisa ser visto; ele é imediatamente sentido. E me senti sozinha dentro de uma poesia imensa, tipo a Tabacaria, cheia de curvas inesperadas, bruscas, rápidas: me senti colocada num novo espaço assim, de repente. Saí de mim. Fui passear. 

Naquele asfalto plano, senti uma aventura. Atravessar o quarteirão era me colocar em outra dimensão, me permitir sentir outras coisas. Daquele outro lado, estavam cores que eu nunca havia pensado em ver, cheiros que não conhecia, detalhes que fugiam do meu olhar como se implorassem para não serem notados, exigindo privacidade, segredo. Me sinto uma fugitiva descrevendo em prosa algo tão urgentemente secreto quanto as particularidades daquele perímetro central, sempre tão exposto, que só queria ser um pouco de mistério. 

Mas luzes e os sons refletiam e ecoavam de forma tão singela naquele ambiente tão aberto, tudo parecia tão perfeitamente sincronizado, o caos sendo feito de bobo por uma beleza singular que só aquele exclusivo ponto de vista tornava possível, que parece quase pecado não registrar. Pensei que se existe um lugar para que os homens possam encontrar a si mesmos, seria ali, no meio de tantas existências colidindo que é impossível não esbarrar no seu próprio corpo, eventualmente. Fui passear ali, num lugar que tornava impossível com que eu me perdesse de mim mesma. Fixei raízes num chão sujo, no coração de tantos ruídos, gritos, debaixo de um viaduto. Plantei minhas sementes sem olhar para trás, sem querer saber do resultado; que o mundo tomasse conta delas agora, que essas sementes criassem suas próprias pernas e por sua vez saíssem andando por aí descobrindo outros detalhes secretos e observando outras colisões. 

Ao voltar pra casa, percebi que metade de mim havia ficado por lá. E a outra metade que voltou comigo já se regenerava, tomando outras formas, outras cores, gritando em outras vozes dentro de mim. Não pensei em voltar para buscar nada e me permiti sentir o desespero agridoce de perder o controle. Há algo de engrandecedor em deixar a parte fugitiva de mim enrolar-se nos mistérios centrais. Quem sabe, em breve, outro olhar míope, curioso e em busca de alguma coisa – qualquer coisa – me veja por aí, olhando de volta, entregando qualquer resposta que eu mesma não tinha consciência de que guardava em alguma parte de mim.

O QUE A VIDA QUER DA GENTE

Maria Fernanda teve que se esforçar para não chorar ao olhar para ele, todo arrumado, em cima do altar. A barba recém feita e um sorriso estampado no rosto, o cabelo meio molhado de gel e o terno azul claro que combinava com seus olhos. Olhos que estavam rodeados de marcas, causadas não só pelo sorriso, mas também pelo tempo. Mesmo com as novas rugas, ela reconheceria aqueles olhos em qualquer lugar. Eram exatamente os mesmos que ela olhara pela primeira vez vinte anos antes, quando o novato perdido entrara na sala de aula com uma confiança que ela jamais havia visto em ninguém antes. 

Não conversaram muito durante aquele ano em que ele entrou na escola. Era o último ano do colegial, e ela soube que ele havia se mudado para a vizinhança junto com a mãe. Não sabia de onde ele havia vindo e o mistério fazia com que ele carregasse certo charme. A verdade é que ela o achava lindo, muito mais bonito que todos os garotos da escola, e, justamente por isso, não teve coragem de se aproximar e iniciar alguma conversa. Era muito tímida e suas poucas amigas não acharam nada de excepcional no “garoto novo” que, por sua vez, já tratou de se enturmar com o grupo dos mais populares da sala.

Ela se lembrava como se fosse ontem da primeira vez que conversaram. Era o baile de formatura e a festa já estava se encaminhando para acabar e, enquanto uma música lenta do ABBA tocava, ele se aproximou da mesa na qual ela estava sentada. 

-Não acredito que uma garota como você está sentada aí, sozinha, uma hora dessas – Ele disse, mas ela não entendeu a frase inteira, por causa da música alta, de modo que ele repetiu as palavras, dessa vez, bem perto do ouvido dela. 

-Uma garota como eu? – Perguntou, sem saber se ficava lisonjeada ou ofendida. 

-É. Linda desse jeito, com o vestido mais bonito da festa… 

Ela percebia que o hálito dele já cheirava a álcool e automaticamente decidiu que não ia ceder à nenhuma cantada barata, ainda mais sendo a última das últimas opções, porque todos os casais já haviam se formado muitas horas antes. 

-Não vai adiantar, é melhor você não desperdiçar seu tempo comigo – Ela respondeu, já meio impaciente – A festa está acabando e acho que você deveria procurar qualquer outra garota bêbada em vez de se esforçar para fingir que já estava interessado em mim. 

Apesar de achá-lo lindo (aliás, “lindo” poderia muito bem ser um eufemismo para “absolutamente maravilhoso” naquela noite, porque qualquer um fica dez vezes melhor vestindo roupas de gala), ela tinha amor próprio o suficiente para saber diferenciar aqueles com os quais valia a pena se envolver. Marcelo não era um deles. Marcelo era sinônimo de problema, e ela gostava de manter sua vida sob controle, pacífica e tranquila. 

-Fingir? De onde veio isso? – Ele sorriu, erguendo as sobrancelhas, e puxou uma cadeira ao lado dela. – Onde estão suas amigas? 

-Foram buscar alguma coisa para comer. Já devem estar voltando. – Mentiu ela, porque não iria admitir que, na verdade, estava esperando sua carona terminar de beijar um primo de alguém. 

Ele ficou um tempo em silêncio, olhando ao redor, sem pressa alguma de esclarecer o motivo de ter sentado ali. Ela evitava olhar diretamente para ele, sem saber o que fazer com as mãos, um pouco irritada. 

-Você deve me achar um idiota – Ele começou, fazendo contato visual. – Troquei no máximo quatro palavras com você em todos esses meses e agora venho aqui, tentando ser engraçadinho… 

-Acho, mesmo. – Ela respondeu, pensando que deveria ser por isso que continuava solteira, o que sua mãe fazia questão de lembrar sempre que podia. 

Mais alguns segundos de silêncio. O contato visual só acaba porque ela desvia o olhar, mas ele continua encarando-a. 

-Eu nunca tive coragem. Sempre fiquei te olhando meio de longe, sem saber o que fazer, porque você é muito calada e nunca me deu uma pista sobre qual assunto puxar. Prometi a mim mesmo que não ia me formar sem puxar assunto com a garota mais bonita da sala, que não ia perder essa chance. Achei que conseguiria hoje, mas aí… Você apareceu com esse vestido, e me deixou completamente sem ar. Precisei de uma ajudinha – Ele balançou o copo, já meio vazio, e deu um sorriso sem graça. 

Ela ainda se lembrava do modo com que seu coração começou a bater forte e rápido, sem acreditar no que estava ouvindo. Ela ainda lembrava de sustentar o olhar dele e tentar identificar alguma mentira, porque aquilo só poderia ser brincadeira… 

Não chegou a nenhuma conclusão, porque, nesse exato momento, Isadora – a carona – apareceu, com o batom todo borrado, dizendo que a mãe já estava esperando na porta para irem embora. 

 

Lembrar daquilo parecia surreal agora, tantos anos depois. Tanta coisa havia se passado, tanta história no meio do caminho. Parecia meio ridículo pensar que Maria Fernanda se lembrava até mesmo da música que estava tocando quando essa primeira conversa aconteceu. E agora, com os violinistas tocando notas lentas, uma música completamente diferente preenchia o ambiente, mas as mesmas borboletas daquele dia da formatura tomavam conta de seu estômago. 

 

Por um tempo, ela acreditou que nunca mais ouviria falar de Marcelo. Ela queria estudar Farmácia e ele, pelo que diziam, Jornalismo. Não fazia ideia se ele ficaria na cidade ou iria fazer faculdade em outro lugar e, ao mesmo tempo, não queria pensar muito a respeito, porque depois de toda aquela declaração, ela mal olhou para ele ao se despedir correndo. 

Se sentia estúpida. E se ele estivesse falando a verdade, afinal? Bom, ela decidiu que não faria nada para procurá-lo, porque a parte racional do seu cérebro insistia que ele estava apenas bêbado e que ela não deveria inventar histórias de amor em sua cabeça. 

Mas ela não precisou inventar nada, porque, três semanas depois do baile, ele tocou o interfone da casa dela. 

-Acontece que aquela sua amiga, Isadora, estava beijando o Luís, que é primo do meu melhor amigo, Pedro Henrique, e, para um homem determinado, conseguir seu endereço até que foi uma tarefa fácil. – Foi a explicação que ele deu, alguns minutos depois, após ela ser convencida pela mãe a abrir a porta para o “rapaz bonito” que estava esperando, com o argumento de que é mal educado deixar as pessoas na rua. 

Naquela tarde, conversaram por horas e horas, apesar da desconfiança da moça. Ao pôr do sol, Marcelo já tinha conseguido arrancar algumas risadas dela, que começava a se convencer que o garoto havia sido sincero na formatura. 

O primeiro beijo dos dois aconteceu alguns dias depois, por iniciativa dela. Resolveu ser corajosa uma vez na vida e colou os lábios nos dele na hora de se despedir, depois que ele a levou para um piquenique na praça mais bonita da cidade. A coragem durou apenas alguns segundos – não o suficiente para a fazer olhar para trás e conferir o sorriso estampado no rosto dele.

 

O mesmo sorriso que agora aprofundava as rugas nos olhos dele. Tão bonito. No altar. Era difícil acreditar. 

 

O namoro era digno de aparecer nos cinemas: muita paixão, cartas de amor, surpresas clichês e buquês de flores. Os dois eram românticos incuráveis e se aventuravam juntos viajando pelas cidades do interior, bebendo vinhos baratos e participando de cantorias nas praças. Estudaram, afinal, Farmácia e Jornalismo, como bem queriam, mas, nas férias entre o primeiro e o segundo ano de faculdade, enquanto estavam deitados na grama do sítio de Maria Fernanda, olhando as estrelas, Marcelo fez o anúncio: 

-Mafê, quero largar a faculdade. 

-Como assim, Marcelo? 

-Acho que não é pra mim, isso de estudar. A gente aprende tão mais vivendo a vida real. Saindo pelo mundo. Tirando a cara dos livros. 

Ela não conseguia entender. Gostava de estabilidade, gostava de estudar Farmácia e queria um diploma para garantir uma vida boa para os filhos que, um dia, gostaria de ter com ele. Gostava das viagens, das praças e das cantorias, mas aquilo só tinha graça porque quebravam a rotina, e, antes de tudo, porque havia uma rotina para ser quebrada. Aquilo era seu tempo livre, não a vida que queria levar em tempo integral. 

Muito choro se seguiu, muitas tentativas de convencimento partiram das duas partes, mas ninguém deu o braço a torcer. Decidiram namorar à distância, e, sem mesmo passar em casa, Marcelo saiu pelo país apenas com a mala que havia levado para passar alguns dias no sítio de Maria Fernanda. Os primeiros três meses foram razoáveis. Ele sempre ligava, mandava cartas românticas pelo Correios, fotos de paisagens bonitas. Foi para o sul e conheceu os três estados da região. Nas ligações, contava sobre as grandes plantações, sobre as serras e sobre o clima. A partir do quarto mês, o contato começou a ficar menos frequente. Ele nem sempre atendia e quase nunca ligava. “Deve estar muito ocupado conhecendo tanta coisa”, pensava Maria Fernanda. O coração cheio de saudade que se misturava com um pouco de raiva e remorso. 

Um ano se passou, depois dois. Às vezes, ela ouvia falar de Marcelo, principalmente porque Isadora, com quem ainda mantinha amizade, continuou com o primo do melhor amigo dele por muito tempo. O tal melhor amigo (“Pedro Henrique, certo?”, ela perguntou, certa vez), portanto, estava sempre presente nos aniversários de Isadora, e, obviamente, também aparecia nos encontros que a turma do colegial fazia todo ano. Maria Fernanda ouvia Pedro Henrique contar histórias e o via mostrar fotos de Marcelo nos mais diversos lugares. Ele passou por São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Mato Grosso, Tocantins, Maranhão, Bahia. Eventualmente, ela não conseguia mais acompanhar todos os casos. Ele parecia feliz, mas sempre sozinho. E ela se perguntava se ele sentia falta dela da maneira com que ela sentia dele. E se, um dia, ele voltaria. 

Ela se envolveu com outros homens. Alguns. Nenhum que fazia seu coração bater do jeito que batia quando olhava para Marcelo, nenhum que a olhava como um dia ele havia olhado. Ela não admitia isso para si mesma e nem tinha intenção de se afastar de Isadora ou de sua antiga turma de colegial porque, no fundo, gostava de ficar sabendo por onde Marcelo andava. Sempre perguntava à Pedro Henrique, num tom casual e como quem não quer nada, se ele tinha notícias do amigo. Gostava de ver, nas fotos, como Marcelo estava mudando. Gostava de imaginar que ouviria todas os casos das aventuras dele, um dia. 

E, depois de quinze anos, ele voltou. 

Ela não ficou sabendo por Isadora, nem por ninguém da turma. Por alguma ironia, o destino fez com que ele entrasse na mesma padaria em que ela sempre tomava um café depois do trabalho. Com a mesma confiança que havia entrado na sala de aula, na primeira vez que ela o viu. E ela não pôde evitar que seu estômago se revirasse num misto de excitação, medo e desejo. E saudade. Quanta saudade. 

Caminhou até ele e encostou em seu ombro, porque, com os anos, aprendeu que deveria ser corajosa sempre. E porque fantasmas do passado não entram pela porta de padarias todos os dias, e porque havia passado os últimos anos sem conseguir tirar aquele homem de sua cabeça. E não poderia deixar passar uma oportunidade daquelas. 

Os olhos dele brilharam ao vê-la e ele abriu os braços para envolvê-la num abraço forte. Meio desajeitados, sem saber como recuperar todos os anos de conversas perdidas, conversaram por horas no pequeno balcão de padaria. Ainda estavam se acostumando com o quanto haviam mudado depois de mais de uma década. Ela contou sobre seu emprego, seu novo apartamento, e sobre como estava sua família. Ele contou um pouco sobre o nordeste e de como se orgulhava de falar para os seus passageiros no Uber que, quando era adolescente, falou com sua mãe que iria passar uns dias no sítio da namorada e só voltou quinze anos depois. 

Ele continuava encantador e, quando perguntou se ela era casada, ela ficou um tempo em silêncio pensando no que responder. E decidiu ser sincera. 

-Não casei, Marcelo. 

Ele pareceu genuinamente surpreso. 

-Mas você sempre foi tão bonita, imaginei que com a nossa idade você já tivesse conhecido alguém… 

-Eu conheci. – Ela respirou fundo. “Coragem”, pensou. – No último ano do colegial, conheci. O homem da minha vida. Ele decidiu viajar por aí e tem quinze anos que estou esperando ele voltar. 

A frase o pegou de surpresa. Ela lembrava como se fosse ontem da maneira com que ele sustentou o olhar dela, sorriu e olhou para baixo, sem graça… 

 

Agora, alguns anos depois do reencontro, ela ouvia o padre falar, quase chegando na parte final, e a maior parte dos convidados já estava meio emocionada. Maria Fernanda, por sua vez, continuava na sua luta contra o choro, para não borrar a maquiagem cuidadosamente feita para aquele dia especial, mas toda aquela nostalgia e a cabeça cheia de lembranças tão vívidas não estava ajudando em nada. 

-Eles formam um casal tão bonito, não é? – Ela sentiu a mão de Pedro Henrique, o melhor amigo de Marcelo, apertando a sua. 

E, nessa hora, ela não conseguiu mais segurar o choro. Chorou, silenciosamente, enquanto apertava a mão do namorado – que não amava. 

Chorou enquanto observava o amor da sua vida dizer “sim” para outra mulher.

A CADA ROTAÇÃO

Parece ter sido ontem que te vi entre esses morros mineiros, entre essas serras verdes e nuvens de cerrado. Parece ter sido ontem que vi as sombras do entardecer esconderem seu rosto, de um jeito ligeiramente diferente de como ele se esconde entre as minhas pernas, mas com o mesmo mistério. Parece ter sido ontem que tudo que eu enxergava no vazio da noite era seu olhar.

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Quando te conheci, meus pés eram ingênuos e tinham caminhado poucas distâncias – nem mesmo sabiam o quanto queriam andar. Seus olhos nunca foram inocentes e com o tempo os observei ganhar um tom a mais de malícia e sede de viver. Seu corpo e seu toque afiados nunca deixaram de ser contraste à sua voz macia. Poucas vezes tenho o gosto de revisitar quem eu era e quem era você, e a nostalgia me afoga e ponto de me deixar sem ar – mas se teve um tempo que sofri por causa de uma saudade infundada e irracional, hoje, não sofro mais. Aprendi a observar suas novas versões se formarem e irem ficando para trás e isso me dá certo desejo; fico curiosa para te conhecer a cada nascer do sol.

Sinto que amadureço como uma fruta – de um dia pro outro, mas lentamente, exatamente da maneira com que adormeço. Não sinto sempre aquele amor que incendeia tudo – às vezes, ele aparece de visita, mas, depois de uns dias, faz as malas e me deixa com o vento fresco que faz música com as folhas de árvores como se fossem pandeiros. E é melhor amar assim; um amor que caminha junto ao meu próprio, que respeita o tempo em vez de ir contra ele. Gosto assim: amo feito roda de samba na beira do mar sob a luz horizontal do sol, mas sei quando ser carnaval…

UMA FLOR AMARELA

Há uma flor amarela em meu jardim que se recusa a morrer e insiste na vida. Mesmo quando a chuva cessa e promete nunca mais voltar, como um amante magoado, e o sol castiga sem piedade; mesmo quando as nuvens descarregam sem dó nem trégua e tudo vira água; nem quando a humanidade se esquece da sua cor bonita e da sua vontade de permanecer. Ela permanece, independente de qualquer intensidade ou esquecimento.

É uma força visceral que faz com que ela permaneça ali. E é, também, uma escolha: sucumbir nada mais é que desistir de escolher estar, todos os dias, um após o outro. E ela permanece estando, permanece escolhendo, enquanto toda gente a observa das janelas, numa expectativa quase sádica, naquela apreensão toda enquanto a vida vai sendo vivida nas ruas: os bois passam, a cidade conversa, o sereno do anoitecer chega e os olhos continuam curiosos, tentando disfarçar que sempre olham para o quintal.

E em toda sua cor, a florzinha amarela continua, brilhante, viva, forte. Eu acho que é a música que a deixa com vontade de ficar. Aquele sambinha que me acorda de manhã, um violão que não gosta de ficar com as cordas paradas, o céu azulzinho trazendo toda a esperança. Com samba e sol não há tristeza que perdure, não há choro que valha a pena, não há flor que queira morrer.

E é nessa simplicidade toda que eu tomo consciência do quanto sou pequena frente ao mundo: quando escuto o barulho do rio que corre sem parar, quando deito na grama e olho para todas essas estrelas piscando para mim, quando encaro essa florzinha amarela, questiono meus desesperos, medos e inseguranças. Com todo esse horizonte banhado por montanhas, com toda a infinitude do planeta, com essa flor amarela que resiste primavera atrás de primavera, percebo que, mais do que dor, essa vida também pode ser paz. E que não devo me sentir na obrigação de lutar todas as lutas e de me atentar à todos os males, porque, enquanto eu eu estava olhando para o lugar errado, toda essa beleza, toda essa excelência, todo o magnífico, estava bem aqui, no meu jardim.

Quando olho para a flor amarela, sei que posso ser como ela e me recusar a ser morta. Ser morta por olhares, ou palavras, ou por qualquer chuva ou sol forte ou qualquer esquecimento. Porque não me importo mais com o que eles pensam, falam ou deixam de falar. A cada passo, eu deixo minha marca no mundo e, como ela, me deixo ser mistério, deixo com que não entendam, quase desejo que não entendam; nem a minha força, nem a minha esperança, nem a minha paz em ser tão pequena num mundo tão gigante.

QUE CHOVA

Entende: é que às vezes eu me perco nos meus próprios labirintos. Eu sei que fui eu, eu sei que são meus, que eu deveria saber o caminho, que eles são frutos das minhas próprias e mirabolantes ideias de quartas feiras a tarde, mas eu esqueço o mapa… Se fico sozinha comigo mesma as coisas ficam meio perigosas e eu tenho é medo do meu escuro.

Quando dou de cara nas minhas próprias paredes, a escalada parece fria e eu desisto. Prefiro aqui no chão, mesmo que a sala não tenha janelas, porque tudo é morno. E eu sei que é tão difícil me ler… Porque eu nunca indico quando fico sem saída, gritando dentro de mim e em silêncio pra todo mundo ao redor, ninguém entende o desespero que é olhar para os lados e ver todas as pontes quebradas, só paredes brancas e fechadas. Brancas e eternas. E por isso eu me desculpo, por isso eu lamento. Eu me esforço, tento, mas ser um livro aberto não adianta nada quando não trago minha própria tradução.

O difícil é ficar me traduzindo o tempo todo para mim mesma e para o resto do mundo. Queria ter sido feita em alguma linguagem universal; por que não posso ser feita toda de música ou de números? Veja, se eu fosse toda matemática, talvez eu teria menos perguntas sem respostas. Talvez eu soubesse sorrir e indicar o caminho para quem quer que se arriscasse perguntar. O problema é esse também: ninguém nem se arrisca, nem chega perto. Sou um edifício em chamas.

Mas é nesse ardor que eu sinto toda a luz preenchendo cada rachadura, cada espaço vazio, cada parte do nada passando a fazer sentido, porque em nenhuma linguagem é possível traduzir ninguém, porque as paredes brancas não são eternas, são completamente mutáveis assim como todas as minhas curvas e esquinas, porque não devo me desculpar por ser mais reticências e interrogações que pontos finais e em um instante todas as frases sem pausa percorrem meu corpo e tudo se concretiza em certezas (temporárias). E são as chamas que me consomem e que me sustentam. Tudo é silêncio naquele segundo paradoxal que precede uma explosão.

Hoje, se chover, eu me deixo queimar.