“Secreto e Proibido”: por que devemos contar as nossas histórias?

Ontem eu decidi assistir o novo documentário original da Netflix, Secreto e Proibido (ou “A Secret Love”, em inglês), que conta a história de vida de Terry e Pat, duas senhoras que se conheceram na década de 1940 e viveram um romance de quase 70 anos. Durante a maior parte desse tempo, no entanto, esconderam a verdade da maior parte das pessoas que conheciam, afirmando continuamente que eram apenas “duas grandes amigas” que decidiram viver juntas pois “a vida nos Estados Unidos é muito cara”. 

Não consigo imaginar como deve ser amar alguém por tantas décadas e esperar até a velhice para soltar a respiração e poder ser quem você é e amar livremente. Por mostrar essa vivência de forma tão crua e real, intercalando relatos sobre a juventude de ambas com momentos do presente, quando elas estão aprendendo a lidar com a velhice (e, por vezes, reencontrando o passado), o documentário é muito emocionante. É realmente impressionante assistir uma história de amor entre mulheres que atravessou tantas fases, especialmente uma que teve início em uma época em que a noção de liberdade feminina mal existia, fosse ela individual, sexual ou afetiva. É doloroso pensar no quanto deve ter sido difícil viver como um casal lésbico durante a maior parte do século passado e é, de fato, muito bonito ver o quanto esse amor foi resiliente. 

Imagem recortada do pôster oficial do documentário original da Netflix, “A Secret Love”.

Qualquer pessoa que seja LGBT e, principalmente, qualquer mulher que se relacione com mulheres, vai se identificar com inúmeros sentimentos retratados ao longo do filme. A identificação é algo poderoso, porque percebemos que não andamos sozinhos e que, na realidade, muitas outras pessoas, em muitos outros lugares, experienciam vivências similares às nossas. Terry e Pat se mudaram do Canadá, seu país de origem, para Chicago, nos EUA, ainda muito novas, em uma tentativa de se livrarem das pressões familiares para se casarem com seus respectivos pretendentes e motivadas pelo medo que sentiam de serem descobertas por suas famílias e conhecidos. Talvez não nos identifiquemos com a situação de um casamento precoce, mas quantos de nós não escolhem viver longe de suas famílias para poderem, finalmente, ser quem são? Quantos de nós escolhem, propositalmente, uma faculdade longe de casa, para poderem “começar” a viver aos quase 20 anos? 

As senhoras também relembram o medo que sentiram quando finalmente decidiram contar às sobrinhas que eram um casal. Isso aconteceu apenas após muitas décadas juntas, e Terry descreve a sensação de “estar vivendo uma mentira”. Não há nada mais exaustivo do que viver fingindo e nada mais doloroso do que esconder uma parte tão grande de nós de pessoas que amamos. O medo da perda, do abandono, simplesmente por revelarmos ser quem somos – só o fato de termos que passar por isso já é absolutamente injusto. Mas a gente acaba se acostumando com as inúmeras injustiças que somos submetidos e, apesar de tanta coisa ter mudado no mundo desde 1940 até hoje, não é curioso como ainda compartilhamos desse medo de forma tão idêntica? 

O documentário também provoca uma  percepção muito importante do quanto mulheres lésbicas e bissexuais de gerações passadas tiveram que lutar para conquistar alguns direitos que nos parecem tão corriqueiros hoje, como simplesmente sentar em um bar conhecidamente LGBT sem ter medo de ser preso. Nas décadas de 1950 e 1960 eram muito comuns, nos EUA, as batidas policiais à bares queer, que resultaram em centenas de pessoas presas. Não sendo suficiente, os nomes dessas pessoas e suas profissões eram publicados nos jornais de grande circulação das cidades, de modo que a maioria delas – senão todas – ficavam desempregadas e tinham grande dificuldade de serem contratadas novamente. Algumas ativistas relatam, ainda, que as mulheres que não estivessem vestidas com, no mínimo, três peças consideradas femininas, eram levadas para a cadeia acusadas de “crime homossexual”. Em 1969, uma dessas batidas acabou provocando a chamada Revolução de Stonewall, um marco para a organização do movimento LGBT de forma mais consolidada e, consequentemente, da garantia de direitos para essa população – mas isso eu vou contar em outro texto. 

Pat e Terry em sua casa, em Chicago.
Mais um registro do casal em sua juventude.

De qualquer maneira, como lésbica, não conheço muitas histórias de mulheres como eu que sejam assumidas aos quase 80 anos e estejam dispostas a relatar suas vivências, como Terry e Pat. Essa falta de referências não é puro acaso. A história de indivíduos LGBT em geral e de mulheres lésbicas em específico é apagada de forma sistemática e constante, com um propósito político que serve àqueles que se beneficiam da heteronorma sobre a qual nossa sociedade se constitui. A falta de evidências de nossa existência nos séculos passados justifica o argumento da lesbianidade como uma patologia, já que sua ocorrência é tão rara, e que a heterossexualidade é inata aos indivíduos. Esta é uma ideia desenvolvida pela pensadora estadunidense Adrienne Rich (1929 – 2012) em seu artigo “Existência Lésbica e Heterossexualidade Compulsória”, no qual a autora cita uma passagem da historiadora Blanche W. Cook, que afirma:

“Em um mundo hostil em que não se supõe que as mulheres sobrevivam a não ser através das relações com e a serviço dos homens, comunidades inteiras de mulheres são simplesmente apagadas. A História tende a enterrar o que ela procura rejeitar.”

Se na história não há registros de vivência lésbica, nos tornamos frágeis e vulneráveis, pois vivemos sem referências, sem tradição e acreditando que não existem – nem nunca existiram – mulheres como nós. Não temos acesso à como grupos de ação lésbica se organizaram politicamente na sociedade, ou como pressionaram as instâncias de poder para concretizar suas demandas. Desse modo, crescemos acreditando que nunca existimos politicamente – e tendemos a continuar assim, inertes, por não saber como fazer com que nossas vozes sejam ouvidas. Pior que isso – crescemos acreditando que não temos o direito de sermos ouvidas, porque nossas demandas não importam. 

Em âmbito mais pessoal, também não temos acesso à histórias de amor entre mulheres que resistiram através do anos, apesar do preconceito e de todas as dificuldades, e também crescemos acreditando que uma vida “comum” e feliz ao lado de nossa parceira não é uma realidade possível para nós. O casamento, a família e a felicidade nos é negada, porque simplesmente não conhecemos outras mulheres lésbicas que viveram dessa maneira, logo, como poderíamos? 

Em certo momento do filme, Pat encontra algumas cartas de amor que ela escreveu para Terry. A sobrinha delas pergunta o motivo de todas as folhas estarem com a parte de baixo rasgadas, e a resposta é: “tínhamos medo de algo acontecer com uma de nós e nossos familiares encontrarem as cartas e descobrirem que éramos lésbicas”. Isso demonstra o quanto a homofobia – mais especificamente, a lesbofobia – manipula indivíduos ao colocá-los em tamanho risco a ponto de que eles mesmos não possam deixar suas histórias registradas. É um ciclo que só pode – e deve – ser quebrado a partir de iniciativas como a desse próprio filme, de documentar e expor essas vivências para que gritemos para as próximas gerações: NÓS SEMPRE EXISTIMOS

Terry relembra seu romance com Pat através de fotos e cartas.

Outro exemplo de iniciativas neste sentido é o projeto Lesbian History Archives, organizado em Nova York com o objetivo de preservar  e expor, gratuitamente, registros contemporâneos sobre a existência de mulheres lésbicas e suas comunidades, atuando contra a censura e o apagamento de suas expressões culturais. Você pode ler um pouco mais sobre a história e o propósito da missão deste grupo clicando aqui

Quanto mais histórias de mulheres que amam mulheres forem difundidas, publicizadas, contadas nos bares entre grupos de amigas, mais seguras, confiantes e conscientes estaremos sobre quem somos e de onde viemos e mais palpáveis nos tornamos sob os olhos do resto do mundo. Isto também diz respeito à produção e divulgação de histórias fictícias na literatura, no cinema e na televisão, ou seja, à representatividade. A arte deve nos representar como as pessoas reais que somos, presentes em todos os âmbitos da sociedade, com as mais diversas narrativas, mostrando que o nosso amor é real. Em um dos primeiros bilhetes que Pat escreveu para Terry, ela diz:

“Eu sou uma leitora, Terry, e já li as mais diversas histórias. Mas em nenhuma delas havia uma mulher que se apaixonasse por outra.”

Escrevo esse e todos os meus outros textos na tentativa de que isso nunca mais seja dito por nenhuma jovem garota que descobre estar apaixonada por outra. Escrevo para que não sejamos nunca mais anônimas, invisíveis, para que existam milhões de histórias como as nossas, porque, então, se tornará impossível apagar todas elas. Escrevo porque cada vez que uma mulher lésbica fala em voz alta sobre o seu afeto, ela firma raízes cada vez mais profundas para todas as outras que são como ela. Eu escrevo para que nunca mais tenhamos que rasgar as assinaturas de nossas cartas de amor. 

Terry e Pat – finalmente casadas!

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Algumas referências: 

COOK, Blanche, W. “Women Alone Stir My Imagination”: lesbianism and the Cultural Tradition”. In: Journal Of Women in Culture and Society, x.4, p. 719-720, 1979. Disponível em: https://www.journals.uchicago.edu/doi/10.1086/493659?mobileUi=0&

RICH, A. Heterossexualidade compulsória e existência lésbica. Bagoas – Estudos gays: gêneros e sexualidades, v. 4, n. 05, 27 nov. 2012. Disponível em: https://periodicos.ufrn.br/bagoas/article/view/2309.

Projeto The Lesbian History Archives: http://www.lesbianherstoryarchives.org/

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