Eu disse que não escreveria mais sobre isso.

Decidi não escrever mais sobre o amor quando descobri que tudo que um dia me ensinaram sobre o que era amar era uma armadilha. Uma história bem contada, floreada e bonita, mas fictícia. Ilusória e enganosa, calculada, que contrariava tudo que aparentava ser – nada espontânea ou quente; apenas um lençol frio e branco cobrindo mentiras. Porque quando descobri quem eu era, me disseram também que o amor não era para pessoas como eu.

O ato de amar me foi negado. Mais do que negado; impossibilitado. Porque o que me ensinaram sobre o amor contraria tudo o que eu sou capaz de sentir;  contraria também o que eu sou e ponto. Me ensinaram que as pessoas são divididas em dois tipos: as que são merecedoras de amor e as que não são. Como se amor fosse uma moeda de troca, um tipo de benefício que recebe quem preenche alguns requisitos. 

Me vi sem saber quem era – ou desejando não ser o que era – porque arrancaram as minhas verdades de mim. Todos os livros, filmes e músicas pareciam dizer que eles estavam certos e eu, errada. O mundo despencou e dependurou-se de ponta cabeça na direção contrária à minha caminhada. 

Tentei redescobrir o que era o amor nas entrelinhas, entre toda aquela informação bombardeada de manuais e listas que tomavam o sentimento como uma verdade dada, com limites bem delineados, regras bem estabelecidas. Vaguei no meu cotidiano e fui percebendo amor nas coisas mais minúsculas. Nas manhãs amarelas de março que cheiravam a café fresco e ovos mexidos, no barulho do arrastar das cadeiras de madeira, no ato de observar em silêncio as nuvens se arrastarem no céu e sentir as bochechas espremerem os olhos imaginando formas improváveis de animais branquinhos – essa sensação de infância e conforto. Nas mãos enrugadas que me entregavam potes de biscoito recém assados, no cheiro de laranjas sendo cortadas ao meio, na textura das roupas recém-lavadas em casa. No tom de preocupação genuína em uma pergunta sobre o que quer que fosse e no toque de mãos cheias de ternura. Em um olhar demorado. 

Li num livro de poemas que a ideia de morrer por amor não fazia sentido porque o amor é o contrário do fim. O amor perdura, terreno, se transforma em criaturas de tantas formas, tão mutável que não se explica. E não se acomoda com qualquer identidade que lhe é imposta – transcende o que quer que seja que chamamos de tempo.

E todas aquelas canções que deveriam ser sobre amar, de repente, não eram. E metade das pessoas que diziam falar sobre o amor, de repente, pareciam não entender do que falavam. Porque o amor não tem a ver com sacrifício; tem a ver com rendição. Não tem a ver com grandes atos, é uma peça de teatro independente num subúrbio qualquer. Não tem a ver com gaiolas e amarras – o amor é anarquista, insubordinado, não colonial. É persistente, preenche tudo – feito cheiro de hortelã molhado. O amor anda descalço.

O amor é tudo aquilo que disseram que não era.

(Acho que finalmente entendi Bukowski).

O QUE A VIDA QUER DA GENTE

Maria Fernanda teve que se esforçar para não chorar ao olhar para ele, todo arrumado, em cima do altar. A barba recém feita e um sorriso estampado no rosto, o cabelo meio molhado de gel e o terno azul claro que combinava com seus olhos. Olhos que estavam rodeados de marcas, causadas não só pelo sorriso, mas também pelo tempo. Mesmo com as novas rugas, ela reconheceria aqueles olhos em qualquer lugar. Eram exatamente os mesmos que ela olhara pela primeira vez vinte anos antes, quando o novato perdido entrara na sala de aula com uma confiança que ela jamais havia visto em ninguém antes. 

Não conversaram muito durante aquele ano em que ele entrou na escola. Era o último ano do colegial, e ela soube que ele havia se mudado para a vizinhança junto com a mãe. Não sabia de onde ele havia vindo e o mistério fazia com que ele carregasse certo charme. A verdade é que ela o achava lindo, muito mais bonito que todos os garotos da escola, e, justamente por isso, não teve coragem de se aproximar e iniciar alguma conversa. Era muito tímida e suas poucas amigas não acharam nada de excepcional no “garoto novo” que, por sua vez, já tratou de se enturmar com o grupo dos mais populares da sala.

Ela se lembrava como se fosse ontem da primeira vez que conversaram. Era o baile de formatura e a festa já estava se encaminhando para acabar e, enquanto uma música lenta do ABBA tocava, ele se aproximou da mesa na qual ela estava sentada. 

-Não acredito que uma garota como você está sentada aí, sozinha, uma hora dessas – Ele disse, mas ela não entendeu a frase inteira, por causa da música alta, de modo que ele repetiu as palavras, dessa vez, bem perto do ouvido dela. 

-Uma garota como eu? – Perguntou, sem saber se ficava lisonjeada ou ofendida. 

-É. Linda desse jeito, com o vestido mais bonito da festa… 

Ela percebia que o hálito dele já cheirava a álcool e automaticamente decidiu que não ia ceder à nenhuma cantada barata, ainda mais sendo a última das últimas opções, porque todos os casais já haviam se formado muitas horas antes. 

-Não vai adiantar, é melhor você não desperdiçar seu tempo comigo – Ela respondeu, já meio impaciente – A festa está acabando e acho que você deveria procurar qualquer outra garota bêbada em vez de se esforçar para fingir que já estava interessado em mim. 

Apesar de achá-lo lindo (aliás, “lindo” poderia muito bem ser um eufemismo para “absolutamente maravilhoso” naquela noite, porque qualquer um fica dez vezes melhor vestindo roupas de gala), ela tinha amor próprio o suficiente para saber diferenciar aqueles com os quais valia a pena se envolver. Marcelo não era um deles. Marcelo era sinônimo de problema, e ela gostava de manter sua vida sob controle, pacífica e tranquila. 

-Fingir? De onde veio isso? – Ele sorriu, erguendo as sobrancelhas, e puxou uma cadeira ao lado dela. – Onde estão suas amigas? 

-Foram buscar alguma coisa para comer. Já devem estar voltando. – Mentiu ela, porque não iria admitir que, na verdade, estava esperando sua carona terminar de beijar um primo de alguém. 

Ele ficou um tempo em silêncio, olhando ao redor, sem pressa alguma de esclarecer o motivo de ter sentado ali. Ela evitava olhar diretamente para ele, sem saber o que fazer com as mãos, um pouco irritada. 

-Você deve me achar um idiota – Ele começou, fazendo contato visual. – Troquei no máximo quatro palavras com você em todos esses meses e agora venho aqui, tentando ser engraçadinho… 

-Acho, mesmo. – Ela respondeu, pensando que deveria ser por isso que continuava solteira, o que sua mãe fazia questão de lembrar sempre que podia. 

Mais alguns segundos de silêncio. O contato visual só acaba porque ela desvia o olhar, mas ele continua encarando-a. 

-Eu nunca tive coragem. Sempre fiquei te olhando meio de longe, sem saber o que fazer, porque você é muito calada e nunca me deu uma pista sobre qual assunto puxar. Prometi a mim mesmo que não ia me formar sem puxar assunto com a garota mais bonita da sala, que não ia perder essa chance. Achei que conseguiria hoje, mas aí… Você apareceu com esse vestido, e me deixou completamente sem ar. Precisei de uma ajudinha – Ele balançou o copo, já meio vazio, e deu um sorriso sem graça. 

Ela ainda se lembrava do modo com que seu coração começou a bater forte e rápido, sem acreditar no que estava ouvindo. Ela ainda lembrava de sustentar o olhar dele e tentar identificar alguma mentira, porque aquilo só poderia ser brincadeira… 

Não chegou a nenhuma conclusão, porque, nesse exato momento, Isadora – a carona – apareceu, com o batom todo borrado, dizendo que a mãe já estava esperando na porta para irem embora. 

 

Lembrar daquilo parecia surreal agora, tantos anos depois. Tanta coisa havia se passado, tanta história no meio do caminho. Parecia meio ridículo pensar que Maria Fernanda se lembrava até mesmo da música que estava tocando quando essa primeira conversa aconteceu. E agora, com os violinistas tocando notas lentas, uma música completamente diferente preenchia o ambiente, mas as mesmas borboletas daquele dia da formatura tomavam conta de seu estômago. 

 

Por um tempo, ela acreditou que nunca mais ouviria falar de Marcelo. Ela queria estudar Farmácia e ele, pelo que diziam, Jornalismo. Não fazia ideia se ele ficaria na cidade ou iria fazer faculdade em outro lugar e, ao mesmo tempo, não queria pensar muito a respeito, porque depois de toda aquela declaração, ela mal olhou para ele ao se despedir correndo. 

Se sentia estúpida. E se ele estivesse falando a verdade, afinal? Bom, ela decidiu que não faria nada para procurá-lo, porque a parte racional do seu cérebro insistia que ele estava apenas bêbado e que ela não deveria inventar histórias de amor em sua cabeça. 

Mas ela não precisou inventar nada, porque, três semanas depois do baile, ele tocou o interfone da casa dela. 

-Acontece que aquela sua amiga, Isadora, estava beijando o Luís, que é primo do meu melhor amigo, Pedro Henrique, e, para um homem determinado, conseguir seu endereço até que foi uma tarefa fácil. – Foi a explicação que ele deu, alguns minutos depois, após ela ser convencida pela mãe a abrir a porta para o “rapaz bonito” que estava esperando, com o argumento de que é mal educado deixar as pessoas na rua. 

Naquela tarde, conversaram por horas e horas, apesar da desconfiança da moça. Ao pôr do sol, Marcelo já tinha conseguido arrancar algumas risadas dela, que começava a se convencer que o garoto havia sido sincero na formatura. 

O primeiro beijo dos dois aconteceu alguns dias depois, por iniciativa dela. Resolveu ser corajosa uma vez na vida e colou os lábios nos dele na hora de se despedir, depois que ele a levou para um piquenique na praça mais bonita da cidade. A coragem durou apenas alguns segundos – não o suficiente para a fazer olhar para trás e conferir o sorriso estampado no rosto dele.

 

O mesmo sorriso que agora aprofundava as rugas nos olhos dele. Tão bonito. No altar. Era difícil acreditar. 

 

O namoro era digno de aparecer nos cinemas: muita paixão, cartas de amor, surpresas clichês e buquês de flores. Os dois eram românticos incuráveis e se aventuravam juntos viajando pelas cidades do interior, bebendo vinhos baratos e participando de cantorias nas praças. Estudaram, afinal, Farmácia e Jornalismo, como bem queriam, mas, nas férias entre o primeiro e o segundo ano de faculdade, enquanto estavam deitados na grama do sítio de Maria Fernanda, olhando as estrelas, Marcelo fez o anúncio: 

-Mafê, quero largar a faculdade. 

-Como assim, Marcelo? 

-Acho que não é pra mim, isso de estudar. A gente aprende tão mais vivendo a vida real. Saindo pelo mundo. Tirando a cara dos livros. 

Ela não conseguia entender. Gostava de estabilidade, gostava de estudar Farmácia e queria um diploma para garantir uma vida boa para os filhos que, um dia, gostaria de ter com ele. Gostava das viagens, das praças e das cantorias, mas aquilo só tinha graça porque quebravam a rotina, e, antes de tudo, porque havia uma rotina para ser quebrada. Aquilo era seu tempo livre, não a vida que queria levar em tempo integral. 

Muito choro se seguiu, muitas tentativas de convencimento partiram das duas partes, mas ninguém deu o braço a torcer. Decidiram namorar à distância, e, sem mesmo passar em casa, Marcelo saiu pelo país apenas com a mala que havia levado para passar alguns dias no sítio de Maria Fernanda. Os primeiros três meses foram razoáveis. Ele sempre ligava, mandava cartas românticas pelo Correios, fotos de paisagens bonitas. Foi para o sul e conheceu os três estados da região. Nas ligações, contava sobre as grandes plantações, sobre as serras e sobre o clima. A partir do quarto mês, o contato começou a ficar menos frequente. Ele nem sempre atendia e quase nunca ligava. “Deve estar muito ocupado conhecendo tanta coisa”, pensava Maria Fernanda. O coração cheio de saudade que se misturava com um pouco de raiva e remorso. 

Um ano se passou, depois dois. Às vezes, ela ouvia falar de Marcelo, principalmente porque Isadora, com quem ainda mantinha amizade, continuou com o primo do melhor amigo dele por muito tempo. O tal melhor amigo (“Pedro Henrique, certo?”, ela perguntou, certa vez), portanto, estava sempre presente nos aniversários de Isadora, e, obviamente, também aparecia nos encontros que a turma do colegial fazia todo ano. Maria Fernanda ouvia Pedro Henrique contar histórias e o via mostrar fotos de Marcelo nos mais diversos lugares. Ele passou por São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Mato Grosso, Tocantins, Maranhão, Bahia. Eventualmente, ela não conseguia mais acompanhar todos os casos. Ele parecia feliz, mas sempre sozinho. E ela se perguntava se ele sentia falta dela da maneira com que ela sentia dele. E se, um dia, ele voltaria. 

Ela se envolveu com outros homens. Alguns. Nenhum que fazia seu coração bater do jeito que batia quando olhava para Marcelo, nenhum que a olhava como um dia ele havia olhado. Ela não admitia isso para si mesma e nem tinha intenção de se afastar de Isadora ou de sua antiga turma de colegial porque, no fundo, gostava de ficar sabendo por onde Marcelo andava. Sempre perguntava à Pedro Henrique, num tom casual e como quem não quer nada, se ele tinha notícias do amigo. Gostava de ver, nas fotos, como Marcelo estava mudando. Gostava de imaginar que ouviria todas os casos das aventuras dele, um dia. 

E, depois de quinze anos, ele voltou. 

Ela não ficou sabendo por Isadora, nem por ninguém da turma. Por alguma ironia, o destino fez com que ele entrasse na mesma padaria em que ela sempre tomava um café depois do trabalho. Com a mesma confiança que havia entrado na sala de aula, na primeira vez que ela o viu. E ela não pôde evitar que seu estômago se revirasse num misto de excitação, medo e desejo. E saudade. Quanta saudade. 

Caminhou até ele e encostou em seu ombro, porque, com os anos, aprendeu que deveria ser corajosa sempre. E porque fantasmas do passado não entram pela porta de padarias todos os dias, e porque havia passado os últimos anos sem conseguir tirar aquele homem de sua cabeça. E não poderia deixar passar uma oportunidade daquelas. 

Os olhos dele brilharam ao vê-la e ele abriu os braços para envolvê-la num abraço forte. Meio desajeitados, sem saber como recuperar todos os anos de conversas perdidas, conversaram por horas no pequeno balcão de padaria. Ainda estavam se acostumando com o quanto haviam mudado depois de mais de uma década. Ela contou sobre seu emprego, seu novo apartamento, e sobre como estava sua família. Ele contou um pouco sobre o nordeste e de como se orgulhava de falar para os seus passageiros no Uber que, quando era adolescente, falou com sua mãe que iria passar uns dias no sítio da namorada e só voltou quinze anos depois. 

Ele continuava encantador e, quando perguntou se ela era casada, ela ficou um tempo em silêncio pensando no que responder. E decidiu ser sincera. 

-Não casei, Marcelo. 

Ele pareceu genuinamente surpreso. 

-Mas você sempre foi tão bonita, imaginei que com a nossa idade você já tivesse conhecido alguém… 

-Eu conheci. – Ela respirou fundo. “Coragem”, pensou. – No último ano do colegial, conheci. O homem da minha vida. Ele decidiu viajar por aí e tem quinze anos que estou esperando ele voltar. 

A frase o pegou de surpresa. Ela lembrava como se fosse ontem da maneira com que ele sustentou o olhar dela, sorriu e olhou para baixo, sem graça… 

 

Agora, alguns anos depois do reencontro, ela ouvia o padre falar, quase chegando na parte final, e a maior parte dos convidados já estava meio emocionada. Maria Fernanda, por sua vez, continuava na sua luta contra o choro, para não borrar a maquiagem cuidadosamente feita para aquele dia especial, mas toda aquela nostalgia e a cabeça cheia de lembranças tão vívidas não estava ajudando em nada. 

-Eles formam um casal tão bonito, não é? – Ela sentiu a mão de Pedro Henrique, o melhor amigo de Marcelo, apertando a sua. 

E, nessa hora, ela não conseguiu mais segurar o choro. Chorou, silenciosamente, enquanto apertava a mão do namorado – que não amava. 

Chorou enquanto observava o amor da sua vida dizer “sim” para outra mulher.

A CADA ROTAÇÃO

Parece ter sido ontem que te vi entre esses morros mineiros, entre essas serras verdes e nuvens de cerrado. Parece ter sido ontem que vi as sombras do entardecer esconderem seu rosto, de um jeito ligeiramente diferente de como ele se esconde entre as minhas pernas, mas com o mesmo mistério. Parece ter sido ontem que tudo que eu enxergava no vazio da noite era seu olhar.

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Quando te conheci, meus pés eram ingênuos e tinham caminhado poucas distâncias – nem mesmo sabiam o quanto queriam andar. Seus olhos nunca foram inocentes e com o tempo os observei ganhar um tom a mais de malícia e sede de viver. Seu corpo e seu toque afiados nunca deixaram de ser contraste à sua voz macia. Poucas vezes tenho o gosto de revisitar quem eu era e quem era você, e a nostalgia me afoga e ponto de me deixar sem ar – mas se teve um tempo que sofri por causa de uma saudade infundada e irracional, hoje, não sofro mais. Aprendi a observar suas novas versões se formarem e irem ficando para trás e isso me dá certo desejo; fico curiosa para te conhecer a cada nascer do sol.

Sinto que amadureço como uma fruta – de um dia pro outro, mas lentamente, exatamente da maneira com que adormeço. Não sinto sempre aquele amor que incendeia tudo – às vezes, ele aparece de visita, mas, depois de uns dias, faz as malas e me deixa com o vento fresco que faz música com as folhas de árvores como se fossem pandeiros. E é melhor amar assim; um amor que caminha junto ao meu próprio, que respeita o tempo em vez de ir contra ele. Gosto assim: amo feito roda de samba na beira do mar sob a luz horizontal do sol, mas sei quando ser carnaval…

PRIMÁRIO

Dia desses decidi passar na praia, em plena terça-feira, seis da tarde, o mundo gritando e eu só querendo silêncio. Sentei na areia e afundei meus dedos entre aquelas pedras minúsculas, sentindo as ondas indo e vindo, molhando meus pés e logo os deixando em paz. Daí pensei em você. Não como penso cotidianamente, nas pequenas coisas, de um jeito que já se tornou rotina. Pensei em você.

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Ficar ao seu lado é como observar o oceano. Essa calma toda de ouvir e enxergar o vem e vai. Ficar te olhando dá o mesmo sentimento de maresia e eu me distraio, me perco nas suas linhas. O gosto da sua pele salgada também me lembra praia. E esse teu cheiro litoral… Dá vontade de me afogar no espaço em branco entre seu ombro e seu pescoço. 

Estar com você é uma viagem em alto-mar. O silêncio misturado ao nosso som, o azul ao redor. Monocromático e ondulatório. Pacífico. No entanto, é paradoxal. Enquanto eu te observo, tudo é paz, calma e cuidado, mas no minuto que seu olhar encontra o meu, soma-se a isso o redemoinho que se instala no meu estômago e os arrepios que me percorrem por inteiro. É aí que entra o vermelho, que o fogo encontra a água sem ser anulado, coexistindo em alguma realidade que você cria quando está por perto, onde o impossível ocorre com certa frequência e normalidade.

Toda essa intensidade cuidadosa é como eu estava dizendo antes, sobre viajar em alto-mar. É como olhar para toda aquela imensidão azul e saber do que é capaz de fazer. Está ali, em quietude, mas carrega tanta fúria e força, tanto poder em repouso. E é isso que me faz querer fugir, e é isso que me faz querer ficar…

Aqui, sentada, olhando a imensidão que se estende diante de mim, lembrei de outra vez que pensei em você com tamanha intensidade que consegui sentir sua presença ao meu lado. Ao contrário de agora, naquele dia, eu não poderia estar mais continental. Numa estrada que parecia um desenho infantil, tudo plano ao redor, o céu muito azul e campos e campos de girassóis que tocavam a linha do horizonte. Tudo que eu via era amarelo. Minha mente foi tomada por você de imediato. E, agora, acaba de me ocorrer que você marcou a ferro ardente todas as cores primárias com um pedaço teu.

Esse amor todo que eu sinto, toda a explosão multicor que se faz presente em meu peito, é só resultado de cada pequena pincelada que aos poucos você foi deixando por aqui…

EM ALGUMA OUTRA GALÁXIA DISTANTE

Se estivéssemos em alguma outra galáxia distante, eu te convidaria, entre um jantar e outro, para ser protagonista dos meus contos de romance que eu traço e rabisco nas noites de terça. Você certamente riria e eu ficaria sem graça, mas, estando em uma galáxia distante, você me diria que poderia pensar no caso.
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Em um tom místico, eu contaria alguma história sobre os meus ex-amores e você desviaria o olhar, lentamente. Diria para irmos para casa mesmo sabendo que lar não é um conceito concreto e eu, em silêncio, ponderaria suas intenções. A ideia de te ver dançando pelo quarto pareceria inalcançável, em contrapartida, lá estaria você, sorrindo em perversão. Nesse mundo, quando falo sobre mulheres, tudo começa em um dia nublado na grama de uma praça e tudo termina em cheiros e memórias impregnados em meus lençóis. Penso que, em qualquer outra galáxia, as coisas talvez comecem em restaurantes.

Eu sentiria seus olhos queimando os meus, um ardor capaz de transformar o subjuntivo em indicativo. Nessa minha galáxia distante, a gramática seria uma certeza ainda menos estática, insuficiente. Eu deixaria com que ardêssemos por algum tempo e numa fração de segundo todas as frases e toques e beijos e efeitos sonoros e frios no estômago e silêncios aconteceriam ao mesmo tempo.

No final, eu nos apagaria num sopro de realidade. Por aqui, as coisas não podem e nem devem começar em restaurantes e nenhum dos diálogos idealizados tem permissão para se concretizar. Nossa reciprocidade é insuficiente quando tenta contra-argumentar o fato de termos cromossomos iguais. Tudo permanece no não dito, no pensado, porque apenas em alguma outra galáxia distante nos é permitido amar.

Tudo acaba escrito nas folhas em branco de qualquer diário.

COM SABOR DE FRUTA MORDIDA

Desde o primeiro dia que percebi que eu estava apaixonada por você, sorri comigo mesma pensando que aquilo era fácil. Ter um amor assim não tem nada de incerto, não dói, não traz dúvida. Tem jeito de MPB, cantado com a voz grave da Cássia Eller que inevitavelmente transforma o tédio em melodia.
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Seu amor sempre foi completo e denso, sempre foi certeza e segurança. Sempre foi e é algo que eu penso que posso fazer pelo resto da vida, não cansa, não faz com que eu me sinta como se estivesse rasgando minha própria pele de dentro pra fora.

Isso me surpreende porque é diferente de todos os outros amores que passaram por mim. O seu é calmaria e saúde, me traz paz, me faz passar bem. Seu amor é cuidado, sabe? É o que me faz querer me alimentar melhor e ter uma boa rotina de sono. Não é a insônia torturante, a incerteza e o receio, a urgência, a correria. Seu amor é mais como atravessar um rio em uma canoa no amanhecer de uma quarta-feira enquanto todos os outros eram correr pela Paulista com o medo constante de morrer com o impacto de um ônibus acima do limite de velocidade.

Deve ser por isso que eu chorei quando saí da sua casa e percebi que eu já tinha me doado. Chorei porque achei algo lindo. Porque o começo daquilo tudo era tão suave e gentil que eu tinha medo de deixar cair e quebrar. Porque você é a pessoa mais adorável desse universo e eu não conseguia acreditar que numa infinidade de mundos e tempos a gente conseguiu se esbarrar nessa vida.

O que mais me faz sorrir é saber que você sabe quando ser tempestade e quando deve ser garoa. Sabe quando carregar nossos silêncios num abraço e quando deve falar. Sabe ser a calmaria do meu drama, a solução quando eu só consigo ver o problema, sabe a hora de um olhar.

Você é companhia de todos os momentos, seja carnaval ou qualquer domingo ruim.

 

INCÊNDIO

fogo
Te sinto
finita e lúcida
transparente, nua
te inspiro

te olho
eterna e louca
tua vaidade pouca
te enforco

te tenho
permanente assim
viva em mim
te entendo.

Desisto
te mantenho fogo
meu desejo fosco
insisto

me entrego
vivendo em calor
às custas de um amor
incerto