A CADA ROTAÇÃO

Parece ter sido ontem que te vi entre esses morros mineiros, entre essas serras verdes e nuvens de cerrado. Parece ter sido ontem que vi as sombras do entardecer esconderem seu rosto, de um jeito ligeiramente diferente de como ele se esconde entre as minhas pernas, mas com o mesmo mistério. Parece ter sido ontem que tudo que eu enxergava no vazio da noite era seu olhar.

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Quando te conheci, meus pés eram ingênuos e tinham caminhado poucas distâncias – nem mesmo sabiam o quanto queriam andar. Seus olhos nunca foram inocentes e com o tempo os observei ganhar um tom a mais de malícia e sede de viver. Seu corpo e seu toque afiados nunca deixaram de ser contraste à sua voz macia. Poucas vezes tenho o gosto de revisitar quem eu era e quem era você, e a nostalgia me afoga e ponto de me deixar sem ar – mas se teve um tempo que sofri por causa de uma saudade infundada e irracional, hoje, não sofro mais. Aprendi a observar suas novas versões se formarem e irem ficando para trás e isso me dá certo desejo; fico curiosa para te conhecer a cada nascer do sol.

Sinto que amadureço como uma fruta – de um dia pro outro, mas lentamente, exatamente da maneira com que adormeço. Não sinto sempre aquele amor que incendeia tudo – às vezes, ele aparece de visita, mas, depois de uns dias, faz as malas e me deixa com o vento fresco que faz música com as folhas de árvores como se fossem pandeiros. E é melhor amar assim; um amor que caminha junto ao meu próprio, que respeita o tempo em vez de ir contra ele. Gosto assim: amo feito roda de samba na beira do mar sob a luz horizontal do sol, mas sei quando ser carnaval…

COM SABOR DE FRUTA MORDIDA

Desde o primeiro dia que percebi que eu estava apaixonada por você, sorri comigo mesma pensando que aquilo era fácil. Ter um amor assim não tem nada de incerto, não dói, não traz dúvida. Tem jeito de MPB, cantado com a voz grave da Cássia Eller que inevitavelmente transforma o tédio em melodia.
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Seu amor sempre foi completo e denso, sempre foi certeza e segurança. Sempre foi e é algo que eu penso que posso fazer pelo resto da vida, não cansa, não faz com que eu me sinta como se estivesse rasgando minha própria pele de dentro pra fora.

Isso me surpreende porque é diferente de todos os outros amores que passaram por mim. O seu é calmaria e saúde, me traz paz, me faz passar bem. Seu amor é cuidado, sabe? É o que me faz querer me alimentar melhor e ter uma boa rotina de sono. Não é a insônia torturante, a incerteza e o receio, a urgência, a correria. Seu amor é mais como atravessar um rio em uma canoa no amanhecer de uma quarta-feira enquanto todos os outros eram correr pela Paulista com o medo constante de morrer com o impacto de um ônibus acima do limite de velocidade.

Deve ser por isso que eu chorei quando saí da sua casa e percebi que eu já tinha me doado. Chorei porque achei algo lindo. Porque o começo daquilo tudo era tão suave e gentil que eu tinha medo de deixar cair e quebrar. Porque você é a pessoa mais adorável desse universo e eu não conseguia acreditar que numa infinidade de mundos e tempos a gente conseguiu se esbarrar nessa vida.

O que mais me faz sorrir é saber que você sabe quando ser tempestade e quando deve ser garoa. Sabe quando carregar nossos silêncios num abraço e quando deve falar. Sabe ser a calmaria do meu drama, a solução quando eu só consigo ver o problema, sabe a hora de um olhar.

Você é companhia de todos os momentos, seja carnaval ou qualquer domingo ruim.

 

AQUELE SAMBA

pandeiro
Carnaval passou e com ele todo o barulho, euforia e calor. O silêncio que me dava paz ultimamente apenas me agride, o escuro onde eu me confortava agora é refúgio pro choro que não consigo engolir. Sinto falta da festa, da música, de poder dançar livre pelas avenidas.

A bagunça de lá nem se compara com a bagunça daqui de dentro. De hoje. O samba de lá não dá nota por aqui. Por aqui é ausência e só. De muito, mas não de tudo, puro caos. Sei que sinto, são sei o quê ou por quê. Não sei das causas e consequências. A coragem não bateu, te vejo de longe.

Talvez eu sinta falta mesmo é do barulho de distração que me afastava do fato de eu já estar meio longe de tudo. Talvez eu sinta falta de quando a poesia não vinha fácil: a arte só vem quando a vida pesa em desequilíbrio.

Ando meio exausta de tentar falar o que nunca parece ser devidamente transmitido por palavras. Quietude. Nem gosto de admitir que na verdade carnaval é só mais uma metáfora pro que foi, mas nesse caso, não volta ano que vem.