O CENTRO

N’outro dia desci lá pro centro da cidade e deixei meus olhos curiosos (mas míopes) tentarem explorar cada canto de cada prédio cada vidro de cada janela quebrada cada esquina virada feito dois recém nascidos num mundo sem vírgula nem tempo pra respirar. E mesmo com tudo embaçado, o centro não precisa ser visto; ele é imediatamente sentido. E me senti sozinha dentro de uma poesia imensa, tipo a Tabacaria, cheia de curvas inesperadas, bruscas, rápidas: me senti colocada num novo espaço assim, de repente. Saí de mim. Fui passear. 

Naquele asfalto plano, senti uma aventura. Atravessar o quarteirão era me colocar em outra dimensão, me permitir sentir outras coisas. Daquele outro lado, estavam cores que eu nunca havia pensado em ver, cheiros que não conhecia, detalhes que fugiam do meu olhar como se implorassem para não serem notados, exigindo privacidade, segredo. Me sinto uma fugitiva descrevendo em prosa algo tão urgentemente secreto quanto as particularidades daquele perímetro central, sempre tão exposto, que só queria ser um pouco de mistério. 

Mas luzes e os sons refletiam e ecoavam de forma tão singela naquele ambiente tão aberto, tudo parecia tão perfeitamente sincronizado, o caos sendo feito de bobo por uma beleza singular que só aquele exclusivo ponto de vista tornava possível, que parece quase pecado não registrar. Pensei que se existe um lugar para que os homens possam encontrar a si mesmos, seria ali, no meio de tantas existências colidindo que é impossível não esbarrar no seu próprio corpo, eventualmente. Fui passear ali, num lugar que tornava impossível com que eu me perdesse de mim mesma. Fixei raízes num chão sujo, no coração de tantos ruídos, gritos, debaixo de um viaduto. Plantei minhas sementes sem olhar para trás, sem querer saber do resultado; que o mundo tomasse conta delas agora, que essas sementes criassem suas próprias pernas e por sua vez saíssem andando por aí descobrindo outros detalhes secretos e observando outras colisões. 

Ao voltar pra casa, percebi que metade de mim havia ficado por lá. E a outra metade que voltou comigo já se regenerava, tomando outras formas, outras cores, gritando em outras vozes dentro de mim. Não pensei em voltar para buscar nada e me permiti sentir o desespero agridoce de perder o controle. Há algo de engrandecedor em deixar a parte fugitiva de mim enrolar-se nos mistérios centrais. Quem sabe, em breve, outro olhar míope, curioso e em busca de alguma coisa – qualquer coisa – me veja por aí, olhando de volta, entregando qualquer resposta que eu mesma não tinha consciência de que guardava em alguma parte de mim.

O QUE ME RESTA

Mato e morro nas minhas rimas, um suicídio ocasional. Me jogo ao acaso, respiro poesia, derrapo nas curvas de cada letra e me estaciono em cada ponto final, apreciando a paz conquistada ou angústia obtida no processo. Escrevo em qualquer lugar: nas sacolas de padaria, nas bordas de uma folha amassada, nas paredes do meu quarto, na minha própria carne. Escrevo porque é tudo que tenho, porque é tudo que sou. Romantizo o meu sufoco pra tentar algum alívio, tudo que eu quero é respirar. Escrevo cada linha com a intenção de que seja a última, fugindo de cada ideia que nasce no fundo do meu ser. Escrevo sobre guerra porque é necessário, escrevo sobre mim porque sou o que conheço melhor (apesar de não tão bem assim), escrevo sobre os outros porque é o que me fascina, escrevo sobre amor porque transbordo, porque é tudo que há. Porque é o que me resta.

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Escrevo no imperativo para tentar escutar a mim mesma e a subjetividade é pra alimentar o que está faminto dentro do meu corpo. Escrevo porque é a única coisa que sei fazer, porque sem isso eu morro afogada, porque não sei gritar se não for através do papel. Desabafo minhas fantasias numa folha em branco passiva, violento-me com cenas e cenários, danço com meu alter-ego e mergulho em um universo sem saída. Nunca encontro o caminho de volta, mesmo tentando incansavelmente. Eu lhe pertenço; quando me perco de mim mesma, minha única chance está ali.

A poesia é que me mantém viva quando me falta o ar: a minha e a dos outros. Principalmente a dos outros. Sou viciada em arte alheia e a minha droga está por todos os cantos. Queria conseguir injetá-la em meu sangue, senti-la correr nas minhas veias, tomando meu corpo, sendo parte de mim. Gosto de me misturar a eles, de ser parte deles, de me autodenominar artista. Com um orgulho rasgado e gritado por aí.

Não tenho rumo, se me vêem nas ruas e pensam que sei o que estou fazendo, estão enganados. Eu não faço ideia. Ando em cada esquina tentando me afirmar, me encontrar, perguntando mais que respondendo. Sei pouco do que quero e muito do que não quero, não sei lidar com a maioria das minhas questões e sou prisioneira dos meus velhos hábitos. Eu sou saudade, sou a dúvida, sou o caos; sou minhas rimas estampadas nos muros da cidade. A arte é o que me resta, a arte é o que me salva.