A história do movimento LGBT+: origem e luta

Pessoas LGBT+ sempre existiram no mundo e existem diversos relatos documentados que comprovam a ocorrência de relacionamentos homossexuais e comportamentos de mudança de gênero nas mais variadas culturas.  No entanto, o marco inicial da formação de um movimento social organizado se consolidou na data 28 de junho de 1969, quando aconteceu, em Greenwich Village (Nova Iorque), a chamada Rebelião de Stonewall. 

A revolta de Stonewall, 28 de junho de 1969. Fonte: BBC, 2019.

Nos anos 60, ainda era crime ser homossexual em grande parte dos Estados Unidos, incluindo no estado de Nova Iorque. Na cidade, o bar Stonewall Inn era um ponto de encontro popular entre gays, lésbicas, bissexuais, transsexuais e travestis, uma vez que os donos do local, que faziam parte da máfia italiana, mantinham o policiamento afastado através do pagamento de propina. No entanto, isso não protegia a população LGBT+ que ali estava de sofrer discriminação e serem vítimas de violência. Frequentemente, policiais prendiam ou expulsavam indivíduos que “praticavam comportamento homossexual” ou que não estavam vestidos adequadamente para o seu sexo, o que configurava “crime contra a natureza”. (JIMÉNEZ, 2009; GEOGHEGAN, 2019; ROSSINI, 2019). 

Em 28 de junho, policiais invadiram o bar, agredindo e tentando levar, à força, o grupo que ali estava, que, finalmente, decidiu resistir, reagindo às agressões e atirando moedas e garrafas em direção às forças policiais. Apesar das tentativas da polícia de dispersar a multidão, cada vez mais chegavam pessoas para dar força à resistência, marcando o início de uma série de protestos e formações de grupos organizados que passaram a lutar pela garantia de direitos para a população LGBT+, sendo os principais deles o Gay Liberation Front (GLF) e o Gay Activists Alliance (GAA). (CARTER, 2004). A Rebelião de Stonewall foi um marco na história da luta pelos direitos LGBT+, provocando uma série de pressões sociais realizadas pelos grupos que se organizaram a partir desta data. O dia 28 de junho ficou consolidado como o dia do orgulho LGBT+ e é quando se realizam as inúmeras Paradas LGBT+ ao redor do mundo, que têm o objetivo de celebrar o orgulho de ser quem é e relembrar as necessidades e demandas de pessoas da sigla ainda nos dias de hoje. 

Primeira Parada do Orgulho LGBT+, Nova Iorque, 28 de junho de 1970. Fonte: CNN, 2016.

Entretanto, é interessante ressaltar que, mesmo antes de 1969, já haviam sido criados alguns grupos de organização homossexual, principalmente nos Estados Unidos, como o La Mattachine Society, fundado em 1951, em Los Angeles, por homens gays, e o The Daughters of Bilitis, um grupo lésbico criado em 1955 em São Francisco, que atuava em paralelo ao primeiro. Em relação ao movimento transsexual, a criação do periódico Transvestia: The Journal of the American Society for Equality in Dress, em 1952, é considerado um marco da organização de pessoas transsexuais e travestis em prol da luta por seus direitos. Desse modo, entende-se a articulação LGBT+ como um movimento gradual que foi sendo construído ao longo do início da segunda metade do século XX, através da criação uma rede de contatos que foi essencial para o fortalecimento do movimento que ocorreu após 1969. (FERRAZ, 2017; JIMÉNEZ, 2009).

No Brasil, o movimento LGBT+ articulou-se, principalmente, a partir da década de 1970, durante o período da ditadura civil – militar (1964 a 1985), através da publicação de periódicos e panfletos que expunham as pautas e reivindicações desta população. O jornal Lampião da Esquina foi fundado em 1978 e era abertamente homossexual, denunciando violências contra a população LGBT+, como prisões arbitrárias, além de abordar outras pautas sociais, fazendo oposição ao regime militar. No ano de 1981, um grupo de mulheres lésbicas criou o jornal ChanacomChana, que era comercializado no Ferro’s Bar, local do centro de São Paulo frequentado, principalmente, por mulheres lésbicas e bissexuais. A venda não era aprovada pelos donos do local que, em julho de 1983, tentaram expulsar as ativistas que vendiam os jornais, proibindo sua circulação. No mês seguinte, na noite de 19 de agosto, o Grupo de Ação Lésbica Feminista (Galf) articulou-se com a imprensa, outros ativistas e até mesmo figuras públicas como a vereadora Irene Cardoso e promoveu a invasão do Ferro’s Bar para a leitura de um manifesto em defesa dos direitos das mulheres lésbicas, conseguindo derrubar a proibição e restabelecer a circulação do periódico. O episódio ficou conhecido como “pequeno Stonewall brasileiro”. (COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2014; FÁBIO, 2017; FERRAZ, 2017). 

Capa do ChanacomChana, setembro de 1983. Fonte: Acervo Bajubá.

O primeiro grupo homossexual criado no Brasil foi o Somos (Grupo de Afirmação Homossexual), em 1978, que organizava, primordialmente, demandas de homens gays. No ano seguinte, mulheres lésbicas juntaram-se ao grupo, criando uma subdivisão denominada Lésbicas Feministas. No entanto, o grupo se dissolveu em 1983, devido à grande dificuldade de articulação de movimentos sociais durante a ditadura. No ano de 1992, foi fundado o primeiro coletivo de articulação política de travestis e transsexuais da América Latina, o ASTRAL (Associação de Travestis e Liberados). (FÁBIO, 2017). Nesse sentido, o debate acerca das necessidades de cada uma das letras da sigla numa escala nacional foi sendo construído em um período de intensa repressão, sendo a articulação também gradual e marcada por episódios de resistência contra o regime ditatorial. 

Na década de 1980, a explosão do vírus HIV representou uma nova fase para o movimento LGBT+ no Brasil e no mundo, pois a epidemia atingiu, em imensa escala, homens gays e bissexuais, além de transsexuais e travestis. Estes indivíduos ficaram marcados por um estigma de portadores e transmissores de uma doença mortal e sem cura, conhecida como o “câncer gay”. (FERRAZ, 2017). Houve uma reorganização das pautas políticas e a saúde pública tornou-se prioridade em lugar da demanda por libertação sexual. (FÁBIO, 2017). No entanto, o desconhecimento de um tratamento eficaz resultou em um índice de mortes muito alto, e, além disso, o preconceito e a discriminação fizeram com que muitos indivíduos infectados não tivessem acesso à um tratamento humanizado.

A eclosão da epidemia resultou na criação de diversos fundos e casas de apoio dedicados ao tratamento de pessoas com AIDS, fazendo com que o movimento LGBT+ se organizasse mais fortemente em busca de visibilidade e atenção adequada. Apesar do estigma prevalecer até hoje, por exemplo, na proibição de doação de sangue por homens gays no Brasil, a crise da AIDS foi um momento crucial para a reorganização política do movimento e determinação de pautas mais específicas e urgentes.

Ao longo da história, o movimento LGBT+ foi responsável pela criação de uma consciência de que qualquer indivíduo merece acesso à direitos básicos independente de sua orientação sexual ou identidade de gênero. O reconhecimento de que a não-heterossexualidade e não-cisgeneridade são expressões sexuais válidas, além de outra série de direitos (casamento homossexual e adoção por casais homossexuais, direitos trabalhistas, direito ao nome social) garantidos em grande parte do mundo são resultados de pressões realizadas durante anos, numa demanda por visibilidade e respeito. 

Todavia, ainda há muito no que se avançar no que diz respeito à direitos LGBT+, uma vez que, atualmente, 70 países ainda possuem legislações contra essa população, inclusive condenação à pena de morte em alguns deles. A homofobia internalizada na sociedade ainda é um problema até mesmo nos países mais desenvolvidos no quesito de garantia de direitos à esta população, e a luta contra os esteriótipos, a estigmatização e o preconceito é constante. Entretanto, grupos como a Associação Internacional de Gays e Lésbicas (ILGA) e ONGs como a Stonewall, no Reino Unido, são essenciais não só para dar suporte à essa população, mas também para realizar pressões na opinião pública, nos órgãos internacionais e até mesmo nos governos dos Estados para que se garanta direitos básicos aos quais qualquer indivíduo deveria ter acesso, além de ajudarem na construção de um ideal de respeito, empatia e da igualdade como algo saudável e desejável. 

Em um momento como o atual, é importante ressaltar que a luta LGBT+ não existe se não há recortes de raça, gênero e classe, visto que não somos uma coletividade homogênea e, portanto, nossas demandas são divergentes quando consideramos esses aspectos. Mais do que nunca, que lembremos que Stonewall não foi um ato pacífico e teve em sua vanguarda mulheres lésbicas e transsexuais negras, corajosas o suficiente para reagir à repressão policial e dar início a um longo processo de conquista dos direitos que temos hoje. Não podemos nos esquecer disto.

Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, 2019. Fonte: GoHurb.

CARTER, David. Stonewall: The Riots That Sparked the Gay Revolution. Boston: Macmillan Publishers, 2004.

Chanacomchana. Chanacomchana Edição 4. Disponivel em: http://acervobajuba.com.br/chanacomchana-edicao-4/ Acesso em: 01 Ago. 2019.

Comissão da Verdade do Estado de São Paulo (Brasil). Ditadura e Homossexualidades: Iniciativas da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”, 2014. Disponivel em: http://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/relatorio/tomo-i/downloads/I_Tomo_Parte_2_Ditadura-e-Homossexualidades-Iniciativas-da-Comissao-da-Verdade-do-Estado-de-Sao-Paulo-Rubens-Paiva.pdf Acesso em: 01 Ago. 2019.

FÁBIO, André Cabette. A trajetória e as conquistas do movimento LGBT brasileiro, 2017. Disponivel em: https://www.nexojornal.com.br/explicado/2017/06/17/A-trajet%C3%B3ria-e-as-conquistas-do-movimento-LGBT-brasileiro Acesso em: 02 Ago. 2019.

FERRAZ, Thaiz. Dia do Orgulho LGBT: Conheça a história do movimento por direitos, 2017. Disponivel em: https://guiadoestudante.abril.com.br/blog/atualidades-vestibular/dia-do-orgulho-lgbt-conheca-a-historia-do-movimento-por-direitos/ Acesso em: 01 Ago. 2019.

GAUCHAZ. 30 anos após aids virar epidemia, homens gays ainda são impedidos de doar sangue, 2014.  Diaponivel em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/noticia/2014/10/30-anos-apos-aids-virar-epidemia-homens-gays-ainda-sao-impedidos-de-doar-sangue-4610201.html Acesso em: 01 Ago. 2019.

GEOGEGHAM, Tom. Stonewall: A riot that changed millions of lives, 2019. Disponivel em: https://www.bbc.com/news/world-us-canada-48643756 Acesso em: 01 Ago. 2019.

GMT. The first gay pride parades, 2016. Disponível em: https://edition.cnn.com/2016/06/16/us/gallery/tbt-first-pride-parades/index.html Acesso em: 02 Ago. 2019.

GUERRA, Veronica. As atrações da semana da Parada LGBT de São Paulo, 2019. Disponivel em: https://www.hurb.com/viajantehu/as-atracoes-da-semana-da-parada-lgbt-de-sao-paulo/ Acesso em: 31 Jul. 2019.

JIMÉNEZ, Rafael M. Mérida. Manifiestos gays, lesbianos y queer: Testimonios de una lucha (1969 – 1994). Barcelona: Icaria editorial, 2009.

O GLOBO. Apesar de avanços, ser gay ainda é crime em 70 países (em alguns deles com pena de morte), 2019. Disponivel em: https://oglobo.globo.com/celina/apesar-de-avancos-ser-gay-ainda-crime-em-70-paises-em-alguns-deles-com-pena-de-morte-23674176 Acesso em: 31 Jul. 2019.

ROSSINI, Maria Clara. O que foi a rebelião de Stonewall? 2019. Disponivel em: https://super.abril.com.br/historia/o-que-foi-a-rebeliao-de-stonewall/ Acesso em: 01 ago. 2019.

UNITED NATIONS. Living free and equal, 2016. Disponivel em: https://www.ohchr.org/Documents/Publications/LivingFreeAndEqual.pdf Acesso em: 01 Ago. 2019.

Uma conversa sobre “Eu Nunca”, Fabíola Torres e heteronormatividade

Você provavelmente já ouviu falar da série Eu Nunca (Never Have I Ever), recentemente lançada pela Netflix, que conta a história de Devi, uma adolescente de origem indiana que, no meio do Ensino Médio, tenta lidar com questões comuns à qualquer pessoa que já teve 16 anos: mudanças nas amizades, busca por popularidade, perda da virgindade, conflitos familiares e, claro, suas paixões. Mas, para além disso, Devi também tenta lidar com a perda recente do pai e com seus questionamentos relativos à sua cultura e tradições. 

A série é leve, divertida e trata de assuntos sérios e profundos de uma maneira didática e cativante. Neste sentido, o que mais me chamou a atenção não foi a história da protagonista, mas sim de uma de suas melhores amigas: Fabíola Torres, uma menina negra, apaixonada por tecnologia e que começa a questionar sua sexualidade. Já devo me adiantar esclarecendo que a trajetória de Fabíola passa longe de ser o foco da primeira temporada, mas os poucos momentos em que a nossa atenção é voltada para a vida dela me proporcionou um sentimento de identificação e me fez pensar que a Eu Nunca retrata muito bem algumas vivências não-heterossexuais em uma sociedade heteronormativa. 

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A heteronormatividade, segundo a cientista política Cathy J. Cohen, é um conjunto de “práticas e instituições que legitimam e privilegiam a heterossexualidade e relacionamentos heterossexuais como fundamentais e ‘naturais’ dentro da sociedade”. 

Logo no começo da série, quando Devi começa a pensar em um plano para que ela e suas amigas sejam populares, uma das primeiras estratégias é que todas elas consigam namorados. O fato de Devi assumir, automaticamente, que suas amigas são heterossexuais reflete muito o que acontece a todo momento e em qualquer lugar. Quando todos ao nosso redor presumem o mesmo, não nos resta muito tempo e espaço para questionar isso, principalmente quando não temos mais ninguém para conversar sobre o que estamos pensando. Esse tipo de comportamento é uma consequência direta da heteronormatividade ao mesmo tempo que a reforça, alimentando a ideia de que o natural e esperado é que todos se atraiam pelo sexo oposto.

Em um outro momento, Fabiola e sua mãe estão na manicure juntas e, embora a garota deseje unhas limpas e simples, a mãe continua insistindo para que ela faça algo mais “feminino”. Poderíamos discutir uma infinidade de coisas a partir dessa cena: a pressão por feminilidade, a questão dos estereótipos e papéis de gênero, e, principalmente, ressaltar que o desinteresse por pintar as unhas não deveria dizer nada sobre a sexualidade de ninguém. O que mais me chamou atenção foi o diálogo entre mãe e filha que veio logo depois, quando Fabiola conta que acabou ficando mais tempo na escola fazendo um projeto de história com seus colegas de turma, Ben e Eve, e a mãe assume automaticamente que ela gosta de Ben. Não só nesta conversa, mas também em vários outros momentos da série, a mãe pressiona a filha para que ela tenha logo um namorado, o que também diz muito sobre as expectativas que são colocadas sobre nós ao nascermos: assim que a notícia de que “é uma menina!” é dada, as paredes do quarto são pintadas de rosa, os parentes tratam de comprar vestidos, saias e lacinhos e, na infância, já começam as brincadeiras sobre os “namoradinhos”. O que é esperado de nós é que, no momento certo – e jamais antes disso – nos casemos com um homem forte e viril. Essa expectativa desde que nascemos reflete que a instituição da família é uma grande perpetuadora dos valores heteronormativos. 

Never Have I Ever Recap Season 1 Episode 3: …Gotten Drunk

A primeira vez que Fabiola tem coragem de admitir que gosta de outras garotas é quando ela programa um robô para dizer a frase “i’m gay”. A cena me lembrou do momento em que, nos meus 15 anos, às três e meia da manhã, falei pela primeira vez que não era heterossexual. Com a voz baixa, quase sumida, no escuro e na solidão do meu quarto e de porta fechada, depois de horas sem conseguir dormir. De certa forma, o que mais poderíamos esperar de um momento que exige que finalmente nos reconheçamos como o que toda a sociedade rotula como “anormal”, “doentio” ou “perverso”? É cruel pensar quantos de nós tenham de passar por uma dor tão intensa simplesmente para poderem ser livremente quem são e o quanto de nossa juventude é roubada por este processo.

A heteronormatividade é uma ferramenta muito eficaz para marginalizar sistematicamente um segmento da população. Essa marginalização causa não apenas efeitos psicológicos severos nesses indivíduos, como também – e principalmente – produz uma desvantagem social para este grupo, que acaba por ter seus direitos violados ou negados, e não possuem as mesmas oportunidades de inserção social ou o mesmo amparo legal que os indivíduos heterossexuais. A história de Fabiola retrata apenas uma face mais individual da heteronorma, que, muito mais gravemente, justifica agressões, torturas e até mesmo execuções de pessoas LGBT. Embora muito da discussão apresentada acima pareça ser privada, o fato de a heteronormatividade regular os modos de viver e os desejos corporais dos indivíduos também torna-se um debate de âmbito público ao estabelecer que indivíduos heterossexuais, por serem “normais”, merecem um tratamento privilegiado em relação aos que não o são. Esta noção hierárquica de sexualidades leva ao que chamamos de homofobia, que, muito mais que um preconceito relacionado à aversão e desprezo por homossexuais, compreende um conjunto de crenças, valores, padrões normativos e mecanismos discriminatórios que definem relações de poder e sistemas de exclusão.

É importante lembrar que o debate sobre homofobia não pode ser tido de maneira isolada e que estes sistemas de exclusão se intercalam quando consideramos outros fatores como classe social, gênero e raça. A própria Fabiola, por ser uma mulher negra, não sofre unicamente por ser lésbica, mas também por ser uma mulher e por ser negra. Dessa maneira, sua vivência também é afetada pela misoginia, pelo racismo e pela lesbofobia, ou seja, a intolerância e perseguição de mulheres que não cumprem com normas de gênero estabelecidas culturalmente pelo poder masculino. As vivências lésbicas sofrem dupla vulnerabilidade ao não serem completamente incluídas nas pautas de combate ao machismo e da homofobia. A lesbofobia não é, simplesmente, uma soma destas duas realidades e, portanto, demanda debates que não podem ser simplesmente uma reprodução de discursos anti-homofóbicos ou anti-misóginos. Mulheres que se relacionam com mulheres e, principalmente, mulheres lésbicas, possuem suas próprias demandas. Isto também é assunto para outro texto. 

Você shippa Fabiola e Eve? Vote agora! - Enquetepop

No fim das contas, a família de Fabiola aceita bem sua sexualidade e a garota engata um romance com Eve – que eu realmente espero que seja mais explorado nas próximas temporadas, já que há muito a ser dito. Li em uma resenha da série um comentário que criticava esse desfecho porque ele “não condizia com a realidade”. Bom, eu fico genuinamente feliz de ver histórias lésbicas serem narradas de forma leve e com um final feliz, já que isso é bem raro de se ver no audiovisual – quantos filmes de mulheres lésbicas você conhece e, mais do que isso, quantos deles contam uma história feliz? Imagino que poucos (se você ainda não viu o meu post recomendando cinco filmes de mulheres lésbicas ou bissexuais dirigidos por mulheres, clica aqui). Na verdade, quanto mais histórias assim forem contadas, mais condizente a realidade ficará com esse tipo de desfecho. E é exatamente isso que a gente quer. 

Algumas referências:

COHEN, Cathy J. Punks, bulldaggers, and welfare queen: The radical potential of queer politics? in “Black Queer Studies”. E. Patrick Johnson e Mae G. Henderson, eds. Duke UP, 2005. 24

JUNQUEIRA, Rogério Diniz. Homofobia: limites e possibilidades de um conceito em meio a disputas. Bagoas – estudos gays: gênero e sexualidades, Rio Grande do Norte, v. 1, n. 1, nov. 2012.

ME DEIXA GRITAR!

Olha, para de falar nesse tom baixo porque eu não nasci pra ser segredo. O que é pra ser sigilo escolho eu, e isso não vai ser nunca. A partir do momento que virou certeza para mim, eu não pretendo esconder de ninguém. Que me aceitem desse jeito – talvez não aceitem, mas que me respeitem e me engulam. Porque eu existo. 

“Lesbian kiss steals spotlight at French anti-gay parenting protest”, France 24.

Eu não me importo com o que vão pensar, ou falar, ou sussurrar entre eles. Eu não me importo se vão rir de mim, ridicularizar o meu cabelo, a minha voz, as minhas roupas, as minhas opiniões, o meu jeito de rir ou o meu senso de humor. Eu não me importo se quiserem dizer que estou errada, que nasci doente, que estou desvirtuando as crianças deles: eu tenho dó das crianças deles. Estou aqui e existo, faço barulho, ocupo espaço. Também sou matéria e falarei tão alto quanto for necessário para incomodá-los. 

Eu não sou fetiche, eu não sou piada, eu não sou vergonha. Não sou estranha, doente, anormal. E eu não vou me esconder numa gaveta, calar meu riso frouxo, me pintar de preto e branco ou deixar que queimem e escondam nosso passado, que finjam que nunca existimos. Não volto para mais nenhum armário e não vou mais apresentar a mulher que amo como uma amiga ou inventar histórias sobre o meu namorado para as pessoas do trabalho. Não vou me manter atrás de uma cortina fechada ou deixar de apertar a mão de outra igual a mim no meio da avenida. Não vou, porque o mundo precisa é de mais saúde, e qualquer amor já é um pouco. Eu não vou passar despercebida, porque eu também narro essa história.

Quando narro, narro com minha voz lésbica e gesticulo com minhas mãos lésbicas. Escrevo minhas vivências com meus dedos lésbicos que tocam outros corpos – femininos – e deixam por aí as minhas digitais lésbicas. Se me agridem, sangro lésbica e quando grito também não deixo para trás essa parte de mim. Que, é verdade, não me define unicamente, mas que em sua ausência não me sou inteira. E não me permito esconder nem um milímetro meu: não tenho outra possibilidade a não ser a de me jogar no mundo como sou, sendo como posso. E a liberdade mais bonita e intensa a certeza de que nada nesse mundo pode me fazer sentir vergonha da pessoa que vejo quando encaro o espelho. 

Eu não quero saber, não é pra falar nesse tom baixo sobre mim, porque eu não vou esconder de ninguém esse carnaval que carrego no peito e esse sorriso aberto que mostra o meu orgulho de ser quem sou. 

Me deixa gritar, porque eles precisam ouvir.

Eu disse que não escreveria mais sobre isso.

Decidi não escrever mais sobre o amor quando descobri que tudo que um dia me ensinaram sobre o que era amar era uma armadilha. Uma história bem contada, floreada e bonita, mas fictícia. Ilusória e enganosa, calculada, que contrariava tudo que aparentava ser – nada espontânea ou quente; apenas um lençol frio e branco cobrindo mentiras. Porque quando descobri quem eu era, me disseram também que o amor não era para pessoas como eu.

O ato de amar me foi negado. Mais do que negado; impossibilitado. Porque o que me ensinaram sobre o amor contraria tudo o que eu sou capaz de sentir;  contraria também o que eu sou e ponto. Me ensinaram que as pessoas são divididas em dois tipos: as que são merecedoras de amor e as que não são. Como se amor fosse uma moeda de troca, um tipo de benefício que recebe quem preenche alguns requisitos. 

Me vi sem saber quem era – ou desejando não ser o que era – porque arrancaram as minhas verdades de mim. Todos os livros, filmes e músicas pareciam dizer que eles estavam certos e eu, errada. O mundo despencou e dependurou-se de ponta cabeça na direção contrária à minha caminhada. 

Tentei redescobrir o que era o amor nas entrelinhas, entre toda aquela informação bombardeada de manuais e listas que tomavam o sentimento como uma verdade dada, com limites bem delineados, regras bem estabelecidas. Vaguei no meu cotidiano e fui percebendo amor nas coisas mais minúsculas. Nas manhãs amarelas de março que cheiravam a café fresco e ovos mexidos, no barulho do arrastar das cadeiras de madeira, no ato de observar em silêncio as nuvens se arrastarem no céu e sentir as bochechas espremerem os olhos imaginando formas improváveis de animais branquinhos – essa sensação de infância e conforto. Nas mãos enrugadas que me entregavam potes de biscoito recém assados, no cheiro de laranjas sendo cortadas ao meio, na textura das roupas recém-lavadas em casa. No tom de preocupação genuína em uma pergunta sobre o que quer que fosse e no toque de mãos cheias de ternura. Em um olhar demorado. 

Li num livro de poemas que a ideia de morrer por amor não fazia sentido porque o amor é o contrário do fim. O amor perdura, terreno, se transforma em criaturas de tantas formas, tão mutável que não se explica. E não se acomoda com qualquer identidade que lhe é imposta – transcende o que quer que seja que chamamos de tempo.

E todas aquelas canções que deveriam ser sobre amar, de repente, não eram. E metade das pessoas que diziam falar sobre o amor, de repente, pareciam não entender do que falavam. Porque o amor não tem a ver com sacrifício; tem a ver com rendição. Não tem a ver com grandes atos, é uma peça de teatro independente num subúrbio qualquer. Não tem a ver com gaiolas e amarras – o amor é anarquista, insubordinado, não colonial. É persistente, preenche tudo – feito cheiro de hortelã molhado. O amor anda descalço.

O amor é tudo aquilo que disseram que não era.

(Acho que finalmente entendi Bukowski).

Eu sou lésbica. E esse é um desabafo.

Há pouco mais de 4 anos, escrevi um texto enorme (para mim mesma, um outro desabafo) contando como foi me descobrir bissexual.

Acontece que eu não sou bissexual.

Fonte: Pinterest

Qualquer pessoa que já se assumiu, ao menos para si mesmo, há algum tempo, entende o quão problemático foi crescer sem referências não-heterossexuais e os impactos disso no entendimento da própria identidade e sexualidade. Não me lembro de saber, pelo menos até meus 10 anos de idade, que meninas como eu nem sempre gostavam de meninos. Não me lembro de saber que essa era uma opção, e também não me lembro de saber que as pessoas também podem gostar de meninos e meninas.

A consequência disso é bem óbvia: o início da minha adolescência foi marcado pela reprodução de falas e comportamentos preconceituosos e, claro, como a pouca referência que eu tinha sobre a não-heterossexualidade era pejorativa, a última coisa que passava pela minha cabeça era questionar a minha — tida como certa, óbvia, fixa — heterossexualidade.

Beijei um garoto pela primeira vez quando eu tinha 11 anos. Continuei beijando exclusivamente garotos até os meus 15. E considero que me descobri cedo quando escuto falar casos de mulheres que se perceberam não-héteros só depois dos 20. Todo o processo de entender que eu não era heterossexual foi muito exaustivo, penoso. Eu não conseguia admitir em voz alta nem para mim mesma, sozinha no quarto e às 3 da manhã, que eu não era hétero. E toda essa exaustão se repetiu de maneira quase tão intensa dois anos depois, quando comecei a pensar que eu talvez gostasse  de meninas.

A palavra lésbica é um tanto assustadora. Por muitos anos, a escutei sendo dita com desprezo, raiva, nojo ou de maneira completamente sexualizada. Ninguém quer ser identificado como algo que tem essa conotação. Mesmo depois de entender que eu realmente era sexualmente e afetivamente atraída por mulheres (com muito, muito custo, choro e noites mal dormidas, porque isso significava uma mudança enorme na lógica da minha passagem por esse mundo), acreditei que o mesmo acontecia com homens. Mantê-los na equação era o que fazia mais sentido, afinal, eu já tinha ficado com vários deles e até namorado um por um bom tempo. Na minha cabeça, essa soma dava um resultado bem claro: se eu tinha histórico de me envolver com homens, a opção ser lésbica estava anulada. Fim dos meus problemas comigo mesma.

Na prática, eu me sentia fisicamente e psicologicamente deprimida depois de me envolver de qualquer forma com algum cara, mesmo que fossem só alguns beijos. Não entendia o motivo de me sentir tão mal. Queria tomar vários e vários banhos e fingir que nunca tinha acontecido nada; era uma ressaca moral que durava semanas. Não conhecia nenhuma outra garota que gostasse de garotas e a internet nunca sabe exatamente pelo que estamos passando, nunca responde todas as nossas perguntas. Isso fez com que eu me sentisse muito sozinha e deslocada de qualquer ambiente que eu estivesse, porque grande parte das coisas pelas quais eu estava passando e queria falar eram invalidadas: minhas amigas não entenderam quando eu disse que perdi a virgindade com uma menina (“ah, foi com uma menina! então você ainda é virgem, teoricamente, né?”) e também não entendiam como era namorar uma pessoa que não segurava a minha mão na rua, que só me recebia em casa me chamando de “amiga”, que não pretendia me levar como acompanhante em nenhum evento de família nem naquele momento, nem nunca.

Estar em contato com mulheres que se relacionavam com mulheres foi algo transformador e definitivo quando, lá para os meus 18, tive coragem de falar: eu sou lésbica. Bom, não saiu assim de primeira. Começou com “acho que prefiro garotas… mas também não é que não gosto dos meninos!”, chegou em “eu acho que não me interesso por homens” e… bom, na maior parte do tempo, eu afirmo com muita certeza que sou lésbica (agora quase com 21). Mas em vários momentos, esse medo da palavra e de tudo que ela traz ainda me perseguem. Em vários momentos, me pergunto se é realmente isso… mesmo que eu não me imagine estando com um homem sexualmente ou afetivamente em nenhuma situação a curto, médio ou longo prazo. Mesmo que eu não pretenda, de forma alguma, construir minha vida tendo um homem como companheiro. Então por quê a dúvida?

I'm lesbian, so what? - Home | Facebook

Parte disso talvez seja porque a comunidade lésbica, por vezes, continua usando termos como “lésbica gold star” (que nunca se relacionou com homens) que invalidam e deslegitimam a identidade de mulheres que se descobriram lésbicas apenas após terem tido experiências com homens. Alguns comportamentos da própria comunidade fazem com que acreditemos que não somos dignas de ocuparmos esse espaço — que é político. Mas, acredito que acima disso, o que mais faz falta são referências e espaços nos quais podemos nos expressar livremente, compartilhar dúvidas e experiências. Conheço poucas mulheres lésbicas, mesmo agora, e percebo que ainda me sinto muito sozinha. Percebo que não falo quase nunca sobre determinadas inseguranças e determinados sentimentos porque não sei onde ou quando falar. Porque ainda fala-se pouco sobre lesbianidade.

Mulheres lésbicas são historicamente excluídas de movimentos sociais mais encorpados, como o movimento LGBT+ ou o movimento feminista, porque não são contempladas por todas as suas pautas. É claro, somos um grupo com vivências específicas e, portanto, demandas específicas — mas se a estruturação de um movimento lésbico por si só já é complexa, aliar essa luta com outras é ainda mais, mesmo que nos micro-espaços. O pressuposto de que homens não são incluídos em nossas vidas afronta diretamente o patriarcado, que rege nossas relações sociais e, portanto, nossas próprias expressões de individualidade. A ausência masculina é uma declaração de guerra, algo impensado, blasfêmico. Sempre que eu lia algo nesse sentido em manifestos lésbicos achava um tanto exagerado, mas não é. Mulheres que planejam suas vidas sem considerar a presença de um cara são uma ameaça. E, por isso, deslegitimadas de todas as formas. É uma questão de observar dos mínimos detalhes à lesbofobia mais escancarada.

E é um ciclo infinito: a falta de espaços e de referências faz com que muitas mulheres passem por dificuldades ao se identificarem como lésbicas, e essa dificuldade de dizer essa palavra tão assustadora em voz alta e para o mundo faz com que poucas o façam e, logo, que poucas criem e ocupem espaços que sejam seguros para quem está no início do processo de entender a própria sexualidade.

Ainda estou na minha própria jornada de entender o meu lugar no mundo e nem tudo é transparente, ainda. Me cercar de espaços e mulheres que amam mulheres é uma medida que preciso tomar, pela minha saúde mental e meu esforço de autoconhecimento. Ninguém consegue se entender sozinho – e nem precisa. Porque em algum lugar do mundo, alguém já passou pelo mesmo que nós. Só precisamos nos conectar.

POR MAIS ARMÁRIOS VAZIOS

Hoje, não trago um texto muito literário. Venho com algumas considerações:

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Sempre escrevi para mim mesma. Nenhuma das minhas palavras é para agradar ninguém além do meu próprio ser, que precisa transbordar em prosa e verso para que eu não me afogue em minha existência. A não ser, é claro, quando me abstenho dessa necessidade egoísta e resolvo dedicar qualquer rabisco a alguém que eu sinta vontade (nem assim, no entanto, deixo de ser sincera. Não sei mentir pro papel e nem quero aprender).

Sempre gostei de escrever utilizando pronomes femininos. Sou louca pelo “ela”, “dela”, enfim. Gosto dos meus textos escritos dessa forma. Para elas. Por elas. Sobre elas. É um gosto antigo, não sei explicar: é assim desde que abracei meu amor pela escrita.

Por último, sempre gostei de escrever sobre sentimentos, no geral. Adoro inventar qualquer romance, seja de forma totalmente fictícia e inventada ou baseada em qualquer experiência pessoal.

Ter o comprometimento de publicar toda semana exige certa produtividade constante. Mantenho-me escrevendo em todo tempo livre, sobre tudo que me interessa, tudo que me faz sentir. Expor meus textos sempre foi um ato de coragem: como eu disse, eu não minto pro papel. Expor meus textos é sinônimo de expor minhas verdades – ou pelo menos deveria ser.

Há meses, antes de publicar, modifico alguns textos para retirar os pronomes femininos que foram colocados (ou para trocá-los por pronomes masculinos) e faço de tudo para manter qualquer texto romântico dentro de um padrão de relação heterossexual. Faço isso por medo do que terei que escutar por ser uma mulher escrevendo sobre outra, faço isso por medo do que terei que escutar por retratar cotidianamente indivíduos do mesmo sexo que se amam.

Ando sendo incoerente comigo mesma. Se nunca escrevi dentro das exigências de ninguém, se o papel em branco sempre foi meu confessionário, por que devo, então, me autocensurar quanto a algo que tanto defendo?

Hoje, eu trouxe um aviso. Não mudarei pronomes, não me impedirei de escrever sobre o amor em geral porque ele existe, sim, em outras formas além do modelo tradicional. A censura, o silenciamento e o medo são formas de diminuir não apenas as coisas em que acredito, mas também quem sou. Representatividade literária é importante e, mesmo que em pequenas doses, posso contribuir com isso – e o farei.

Dia 17 de maio foi o dia internacional da luta contra a LGBTfobia e me fez pensar um pouco sobre tudo isso. Voltemos à sinceridade habitual: eles com elas, eles com eles, elas com elas. Com quem houver sentimento e reciprocidade.