Uma conversa sobre “Eu Nunca”, Fabíola Torres e heteronormatividade

Você provavelmente já ouviu falar da série Eu Nunca (Never Have I Ever), recentemente lançada pela Netflix, que conta a história de Devi, uma adolescente de origem indiana que, no meio do Ensino Médio, tenta lidar com questões comuns à qualquer pessoa que já teve 16 anos: mudanças nas amizades, busca por popularidade, perda da virgindade, conflitos familiares e, claro, suas paixões. Mas, para além disso, Devi também tenta lidar com a perda recente do pai e com seus questionamentos relativos à sua cultura e tradições. 

A série é leve, divertida e trata de assuntos sérios e profundos de uma maneira didática e cativante. Neste sentido, o que mais me chamou a atenção não foi a história da protagonista, mas sim de uma de suas melhores amigas: Fabíola Torres, uma menina negra, apaixonada por tecnologia e que começa a questionar sua sexualidade. Já devo me adiantar esclarecendo que a trajetória de Fabíola passa longe de ser o foco da primeira temporada, mas os poucos momentos em que a nossa atenção é voltada para a vida dela me proporcionou um sentimento de identificação e me fez pensar que a Eu Nunca retrata muito bem algumas vivências não-heterossexuais em uma sociedade heteronormativa. 

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A heteronormatividade, segundo a cientista política Cathy J. Cohen, é um conjunto de “práticas e instituições que legitimam e privilegiam a heterossexualidade e relacionamentos heterossexuais como fundamentais e ‘naturais’ dentro da sociedade”. 

Logo no começo da série, quando Devi começa a pensar em um plano para que ela e suas amigas sejam populares, uma das primeiras estratégias é que todas elas consigam namorados. O fato de Devi assumir, automaticamente, que suas amigas são heterossexuais reflete muito o que acontece a todo momento e em qualquer lugar. Quando todos ao nosso redor presumem o mesmo, não nos resta muito tempo e espaço para questionar isso, principalmente quando não temos mais ninguém para conversar sobre o que estamos pensando. Esse tipo de comportamento é uma consequência direta da heteronormatividade ao mesmo tempo que a reforça, alimentando a ideia de que o natural e esperado é que todos se atraiam pelo sexo oposto.

Em um outro momento, Fabiola e sua mãe estão na manicure juntas e, embora a garota deseje unhas limpas e simples, a mãe continua insistindo para que ela faça algo mais “feminino”. Poderíamos discutir uma infinidade de coisas a partir dessa cena: a pressão por feminilidade, a questão dos estereótipos e papéis de gênero, e, principalmente, ressaltar que o desinteresse por pintar as unhas não deveria dizer nada sobre a sexualidade de ninguém. O que mais me chamou atenção foi o diálogo entre mãe e filha que veio logo depois, quando Fabiola conta que acabou ficando mais tempo na escola fazendo um projeto de história com seus colegas de turma, Ben e Eve, e a mãe assume automaticamente que ela gosta de Ben. Não só nesta conversa, mas também em vários outros momentos da série, a mãe pressiona a filha para que ela tenha logo um namorado, o que também diz muito sobre as expectativas que são colocadas sobre nós ao nascermos: assim que a notícia de que “é uma menina!” é dada, as paredes do quarto são pintadas de rosa, os parentes tratam de comprar vestidos, saias e lacinhos e, na infância, já começam as brincadeiras sobre os “namoradinhos”. O que é esperado de nós é que, no momento certo – e jamais antes disso – nos casemos com um homem forte e viril. Essa expectativa desde que nascemos reflete que a instituição da família é uma grande perpetuadora dos valores heteronormativos. 

Never Have I Ever Recap Season 1 Episode 3: …Gotten Drunk

A primeira vez que Fabiola tem coragem de admitir que gosta de outras garotas é quando ela programa um robô para dizer a frase “i’m gay”. A cena me lembrou do momento em que, nos meus 15 anos, às três e meia da manhã, falei pela primeira vez que não era heterossexual. Com a voz baixa, quase sumida, no escuro e na solidão do meu quarto e de porta fechada, depois de horas sem conseguir dormir. De certa forma, o que mais poderíamos esperar de um momento que exige que finalmente nos reconheçamos como o que toda a sociedade rotula como “anormal”, “doentio” ou “perverso”? É cruel pensar quantos de nós tenham de passar por uma dor tão intensa simplesmente para poderem ser livremente quem são e o quanto de nossa juventude é roubada por este processo.

A heteronormatividade é uma ferramenta muito eficaz para marginalizar sistematicamente um segmento da população. Essa marginalização causa não apenas efeitos psicológicos severos nesses indivíduos, como também – e principalmente – produz uma desvantagem social para este grupo, que acaba por ter seus direitos violados ou negados, e não possuem as mesmas oportunidades de inserção social ou o mesmo amparo legal que os indivíduos heterossexuais. A história de Fabiola retrata apenas uma face mais individual da heteronorma, que, muito mais gravemente, justifica agressões, torturas e até mesmo execuções de pessoas LGBT. Embora muito da discussão apresentada acima pareça ser privada, o fato de a heteronormatividade regular os modos de viver e os desejos corporais dos indivíduos também torna-se um debate de âmbito público ao estabelecer que indivíduos heterossexuais, por serem “normais”, merecem um tratamento privilegiado em relação aos que não o são. Esta noção hierárquica de sexualidades leva ao que chamamos de homofobia, que, muito mais que um preconceito relacionado à aversão e desprezo por homossexuais, compreende um conjunto de crenças, valores, padrões normativos e mecanismos discriminatórios que definem relações de poder e sistemas de exclusão.

É importante lembrar que o debate sobre homofobia não pode ser tido de maneira isolada e que estes sistemas de exclusão se intercalam quando consideramos outros fatores como classe social, gênero e raça. A própria Fabiola, por ser uma mulher negra, não sofre unicamente por ser lésbica, mas também por ser uma mulher e por ser negra. Dessa maneira, sua vivência também é afetada pela misoginia, pelo racismo e pela lesbofobia, ou seja, a intolerância e perseguição de mulheres que não cumprem com normas de gênero estabelecidas culturalmente pelo poder masculino. As vivências lésbicas sofrem dupla vulnerabilidade ao não serem completamente incluídas nas pautas de combate ao machismo e da homofobia. A lesbofobia não é, simplesmente, uma soma destas duas realidades e, portanto, demanda debates que não podem ser simplesmente uma reprodução de discursos anti-homofóbicos ou anti-misóginos. Mulheres que se relacionam com mulheres e, principalmente, mulheres lésbicas, possuem suas próprias demandas. Isto também é assunto para outro texto. 

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No fim das contas, a família de Fabiola aceita bem sua sexualidade e a garota engata um romance com Eve – que eu realmente espero que seja mais explorado nas próximas temporadas, já que há muito a ser dito. Li em uma resenha da série um comentário que criticava esse desfecho porque ele “não condizia com a realidade”. Bom, eu fico genuinamente feliz de ver histórias lésbicas serem narradas de forma leve e com um final feliz, já que isso é bem raro de se ver no audiovisual – quantos filmes de mulheres lésbicas você conhece e, mais do que isso, quantos deles contam uma história feliz? Imagino que poucos (se você ainda não viu o meu post recomendando cinco filmes de mulheres lésbicas ou bissexuais dirigidos por mulheres, clica aqui). Na verdade, quanto mais histórias assim forem contadas, mais condizente a realidade ficará com esse tipo de desfecho. E é exatamente isso que a gente quer. 

Algumas referências:

COHEN, Cathy J. Punks, bulldaggers, and welfare queen: The radical potential of queer politics? in “Black Queer Studies”. E. Patrick Johnson e Mae G. Henderson, eds. Duke UP, 2005. 24

JUNQUEIRA, Rogério Diniz. Homofobia: limites e possibilidades de um conceito em meio a disputas. Bagoas – estudos gays: gênero e sexualidades, Rio Grande do Norte, v. 1, n. 1, nov. 2012.

5 FILMES COM REPRESENTATIVIDADE LÉS/BI PARA ASSISTIR NA QUARENTENA

Na semana passada, falei um pouco sobre a importância de darmos voz à mulheres que amam mulheres para que elas possam contar suas histórias – seja de forma direta ou através de representações na televisão, no cinema e na literatura. Hoje, vou fugir um pouco do formato tradicional de texto/conto/prosa poética para dar espaço à divulgação de filmes com protagonistas lésbicas ou bissexuais dirigidos por mulheres (algumas delas assumidamente lésbicas/bissexuais). É necessário que obras como estas tenham, cada vez mais, um maior alcance: precisamos valorizar trabalhos que abordem a temática sáfica, principalmente aqueles feitos por mulheres lés/bi. Espero que aproveitem e que as sugestões sejam úteis em tempo de isolamento social!

RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS (Céline Sciamma, 2019)

O filme é um drama romântico que se passa na França, durante o século XVIII, e conta a história de Marianne, uma jovem pintora encarregada de pintar o retrato de casamento de Héloise secretamente, de modo que passa a observá-la ao longo do dia para retratá-la pela noite. Ao longo do tempo, as duas mulheres se aproximam e compartilham os últimos momentos da noiva antes de seu casamento.

A diretora, Céline Sciamma, é uma cineasta e roteirista francesa e foi premiada em Cannes pelo roteiro do filme. Em sua carreira, Sciamma busca representar histórias de jovens mulheres, inclusive participando de um movimento internacional pela representação feminina no cinema internacional.

“[…] eu queria produzir uma história de amor, um filme que fala sobre uma história de amor e descreve passo a passo como é se apaixonar e também mostra o escopo de uma história de amor – o filme foi construído em torno dessas duas ideias, desses dois pilares. E também queria falar sobre mulheres artistas, mulheres pintoras, em geral.”

Céline Sciamma

Assista ao trailer aqui.

D.E.B.S. – AS SUPER ESPIÃS (Angela Robinson, 2004)

Este filme de ação cômica estadunidense foi, na realidade, uma adaptação de um curta-metragem de mesmo nome lançado no ano anterior. Conta a história de um grupo de espiãs juvenis (as D.E.B.S.) que foram recrutadas por uma agência governamental por suas habilidades potenciais para espionagem e agora possuem a missão de capturar a vilã Lucy Diamond – a questão é que uma das espiãs acaba se envolvendo com Lucy.

A diretora, Angela Robinson, é também produtora e roteirista, e costuma abordar questões de vivência lésbica em seus trabalhos. Robinson é casada com Alexandra Kondracke – as duas se conheceram na faculdade, em Nova York – com quem teve um filho em 2009.

Angela Robinson

Assista ao trailer aqui. O filme está disponível na Netflix!

LIVRANDO A CARA (Alice Wu, 2008)

Esta comédia dramática conta a história de Wil Pang, uma jovem cirurgiã solteira aos 28 anos que se descobre lésbica quando se apaixona pela bailarina Vivian. As duas mulheres se encontram em segredo enquanto Wil pensa em como contará sobre o relacionamento para sua mãe viúva, Ma. Inesperadamente, a mãe aparece em sua casa contando que está grávida e que foi expulsa da comunidade chinesa onde vivia por se negar a revelar quem é o pai da criança – e agora mãe e filha terão que conversar.

A diretora, Alice Wu, declarou que o filme foi inspirado em sua própria história e no momento em que se assumiu lésbica na comunidade chinesa em que vivia. Ela afirmou que seu desejo era de que, ao assistirem seu filme, as pessoas sentissem que, independente de quem fossem ou a qual cultura pertencessem, nunca será tarde demais para conquistar aquilo que desejam secretamente – seja o desejo de viver um grande amor ou qualquer outro.

“Eu quero que eles [os espectadores] saiam do cinema com um sentimento de esperança e possibilidade”.

Alice Wu

Assista ao trailer aqui.

ELISA Y MARCELA – ALÉM DOS HOMENS (Isabel Coixet, 2019)

Baseado em uma história real sobre a primeira (e única) união católica lésbica na Europa, o filme se passa na Espanha de 1901 e retrata como a jovem Elisa Sánchez Loriga adotou uma identidade masculina para conseguir se casar na igreja com a mulher que amava, Marcela Gracia Iberas.

Isabel Coixet é uma cineasta espanhola que conheceu a história das duas mulheres em uma viagem para Galícia, decidindo levá-la para as telas pelo seu desejo de “retratar mulheres fortes” e por acreditar que “as pessoas deveriam conhecer uma história como essa”. Aqui também tem uma entrevista em que a diretora fala um pouco sobre o filme.

Isabel Coixet

Assista ao trailer aqui. O filme está disponível na Netflix!

I CAN’T THINK STRAIGHT (Shamim Sarif, 2008)

O filme retrata a descoberta do amor entre duas jovens de origens muito distintas que vivem em Londres. Tala, de ascendência palestina, é uma cristã que está planejando seu casamento com um homem jordano, enquanto Leyla é uma muçulmana tímida que conhece Tala através de seu amigo em comum, Ali. 

Shamim Sarif é uma novelista, roteirista e diretora de descendência sul-asiática que aborda questões LGBT e relativas aos direitos das mulheres em suas obras. I Can’t Think Straight foi vencedor de 11 prêmios na época em que foi lançado.

Shamim Sarif

Assista ao trailer aqui.

“Secreto e Proibido”: por que devemos contar as nossas histórias?

Ontem eu decidi assistir o novo documentário original da Netflix, Secreto e Proibido (ou “A Secret Love”, em inglês), que conta a história de vida de Terry e Pat, duas senhoras que se conheceram na década de 1940 e viveram um romance de quase 70 anos. Durante a maior parte desse tempo, no entanto, esconderam a verdade da maior parte das pessoas que conheciam, afirmando continuamente que eram apenas “duas grandes amigas” que decidiram viver juntas pois “a vida nos Estados Unidos é muito cara”. 

Não consigo imaginar como deve ser amar alguém por tantas décadas e esperar até a velhice para soltar a respiração e poder ser quem você é e amar livremente. Por mostrar essa vivência de forma tão crua e real, intercalando relatos sobre a juventude de ambas com momentos do presente, quando elas estão aprendendo a lidar com a velhice (e, por vezes, reencontrando o passado), o documentário é muito emocionante. É realmente impressionante assistir uma história de amor entre mulheres que atravessou tantas fases, especialmente uma que teve início em uma época em que a noção de liberdade feminina mal existia, fosse ela individual, sexual ou afetiva. É doloroso pensar no quanto deve ter sido difícil viver como um casal lésbico durante a maior parte do século passado e é, de fato, muito bonito ver o quanto esse amor foi resiliente. 

Imagem recortada do pôster oficial do documentário original da Netflix, “A Secret Love”.

Qualquer pessoa que seja LGBT e, principalmente, qualquer mulher que se relacione com mulheres, vai se identificar com inúmeros sentimentos retratados ao longo do filme. A identificação é algo poderoso, porque percebemos que não andamos sozinhos e que, na realidade, muitas outras pessoas, em muitos outros lugares, experienciam vivências similares às nossas. Terry e Pat se mudaram do Canadá, seu país de origem, para Chicago, nos EUA, ainda muito novas, em uma tentativa de se livrarem das pressões familiares para se casarem com seus respectivos pretendentes e motivadas pelo medo que sentiam de serem descobertas por suas famílias e conhecidos. Talvez não nos identifiquemos com a situação de um casamento precoce, mas quantos de nós não escolhem viver longe de suas famílias para poderem, finalmente, ser quem são? Quantos de nós escolhem, propositalmente, uma faculdade longe de casa, para poderem “começar” a viver aos quase 20 anos? 

As senhoras também relembram o medo que sentiram quando finalmente decidiram contar às sobrinhas que eram um casal. Isso aconteceu apenas após muitas décadas juntas, e Terry descreve a sensação de “estar vivendo uma mentira”. Não há nada mais exaustivo do que viver fingindo e nada mais doloroso do que esconder uma parte tão grande de nós de pessoas que amamos. O medo da perda, do abandono, simplesmente por revelarmos ser quem somos – só o fato de termos que passar por isso já é absolutamente injusto. Mas a gente acaba se acostumando com as inúmeras injustiças que somos submetidos e, apesar de tanta coisa ter mudado no mundo desde 1940 até hoje, não é curioso como ainda compartilhamos desse medo de forma tão idêntica? 

O documentário também provoca uma  percepção muito importante do quanto mulheres lésbicas e bissexuais de gerações passadas tiveram que lutar para conquistar alguns direitos que nos parecem tão corriqueiros hoje, como simplesmente sentar em um bar conhecidamente LGBT sem ter medo de ser preso. Nas décadas de 1950 e 1960 eram muito comuns, nos EUA, as batidas policiais à bares queer, que resultaram em centenas de pessoas presas. Não sendo suficiente, os nomes dessas pessoas e suas profissões eram publicados nos jornais de grande circulação das cidades, de modo que a maioria delas – senão todas – ficavam desempregadas e tinham grande dificuldade de serem contratadas novamente. Algumas ativistas relatam, ainda, que as mulheres que não estivessem vestidas com, no mínimo, três peças consideradas femininas, eram levadas para a cadeia acusadas de “crime homossexual”. Em 1969, uma dessas batidas acabou provocando a chamada Revolução de Stonewall, um marco para a organização do movimento LGBT de forma mais consolidada e, consequentemente, da garantia de direitos para essa população – mas isso eu vou contar em outro texto. 

Pat e Terry em sua casa, em Chicago.
Mais um registro do casal em sua juventude.

De qualquer maneira, como lésbica, não conheço muitas histórias de mulheres como eu que sejam assumidas aos quase 80 anos e estejam dispostas a relatar suas vivências, como Terry e Pat. Essa falta de referências não é puro acaso. A história de indivíduos LGBT em geral e de mulheres lésbicas em específico é apagada de forma sistemática e constante, com um propósito político que serve àqueles que se beneficiam da heteronorma sobre a qual nossa sociedade se constitui. A falta de evidências de nossa existência nos séculos passados justifica o argumento da lesbianidade como uma patologia, já que sua ocorrência é tão rara, e que a heterossexualidade é inata aos indivíduos. Esta é uma ideia desenvolvida pela pensadora estadunidense Adrienne Rich (1929 – 2012) em seu artigo “Existência Lésbica e Heterossexualidade Compulsória”, no qual a autora cita uma passagem da historiadora Blanche W. Cook, que afirma:

“Em um mundo hostil em que não se supõe que as mulheres sobrevivam a não ser através das relações com e a serviço dos homens, comunidades inteiras de mulheres são simplesmente apagadas. A História tende a enterrar o que ela procura rejeitar.”

Se na história não há registros de vivência lésbica, nos tornamos frágeis e vulneráveis, pois vivemos sem referências, sem tradição e acreditando que não existem – nem nunca existiram – mulheres como nós. Não temos acesso à como grupos de ação lésbica se organizaram politicamente na sociedade, ou como pressionaram as instâncias de poder para concretizar suas demandas. Desse modo, crescemos acreditando que nunca existimos politicamente – e tendemos a continuar assim, inertes, por não saber como fazer com que nossas vozes sejam ouvidas. Pior que isso – crescemos acreditando que não temos o direito de sermos ouvidas, porque nossas demandas não importam. 

Em âmbito mais pessoal, também não temos acesso à histórias de amor entre mulheres que resistiram através do anos, apesar do preconceito e de todas as dificuldades, e também crescemos acreditando que uma vida “comum” e feliz ao lado de nossa parceira não é uma realidade possível para nós. O casamento, a família e a felicidade nos é negada, porque simplesmente não conhecemos outras mulheres lésbicas que viveram dessa maneira, logo, como poderíamos? 

Em certo momento do filme, Pat encontra algumas cartas de amor que ela escreveu para Terry. A sobrinha delas pergunta o motivo de todas as folhas estarem com a parte de baixo rasgadas, e a resposta é: “tínhamos medo de algo acontecer com uma de nós e nossos familiares encontrarem as cartas e descobrirem que éramos lésbicas”. Isso demonstra o quanto a homofobia – mais especificamente, a lesbofobia – manipula indivíduos ao colocá-los em tamanho risco a ponto de que eles mesmos não possam deixar suas histórias registradas. É um ciclo que só pode – e deve – ser quebrado a partir de iniciativas como a desse próprio filme, de documentar e expor essas vivências para que gritemos para as próximas gerações: NÓS SEMPRE EXISTIMOS

Terry relembra seu romance com Pat através de fotos e cartas.

Outro exemplo de iniciativas neste sentido é o projeto Lesbian History Archives, organizado em Nova York com o objetivo de preservar  e expor, gratuitamente, registros contemporâneos sobre a existência de mulheres lésbicas e suas comunidades, atuando contra a censura e o apagamento de suas expressões culturais. Você pode ler um pouco mais sobre a história e o propósito da missão deste grupo clicando aqui

Quanto mais histórias de mulheres que amam mulheres forem difundidas, publicizadas, contadas nos bares entre grupos de amigas, mais seguras, confiantes e conscientes estaremos sobre quem somos e de onde viemos e mais palpáveis nos tornamos sob os olhos do resto do mundo. Isto também diz respeito à produção e divulgação de histórias fictícias na literatura, no cinema e na televisão, ou seja, à representatividade. A arte deve nos representar como as pessoas reais que somos, presentes em todos os âmbitos da sociedade, com as mais diversas narrativas, mostrando que o nosso amor é real. Em um dos primeiros bilhetes que Pat escreveu para Terry, ela diz:

“Eu sou uma leitora, Terry, e já li as mais diversas histórias. Mas em nenhuma delas havia uma mulher que se apaixonasse por outra.”

Escrevo esse e todos os meus outros textos na tentativa de que isso nunca mais seja dito por nenhuma jovem garota que descobre estar apaixonada por outra. Escrevo para que não sejamos nunca mais anônimas, invisíveis, para que existam milhões de histórias como as nossas, porque, então, se tornará impossível apagar todas elas. Escrevo porque cada vez que uma mulher lésbica fala em voz alta sobre o seu afeto, ela firma raízes cada vez mais profundas para todas as outras que são como ela. Eu escrevo para que nunca mais tenhamos que rasgar as assinaturas de nossas cartas de amor. 

Terry e Pat – finalmente casadas!

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Algumas referências: 

COOK, Blanche, W. “Women Alone Stir My Imagination”: lesbianism and the Cultural Tradition”. In: Journal Of Women in Culture and Society, x.4, p. 719-720, 1979. Disponível em: https://www.journals.uchicago.edu/doi/10.1086/493659?mobileUi=0&

RICH, A. Heterossexualidade compulsória e existência lésbica. Bagoas – Estudos gays: gêneros e sexualidades, v. 4, n. 05, 27 nov. 2012. Disponível em: https://periodicos.ufrn.br/bagoas/article/view/2309.

Projeto The Lesbian History Archives: http://www.lesbianherstoryarchives.org/

ELA(S)

Ela é um grito melodioso e surpreendente no meio de um silêncio impenetrável. Ela é barulho, tempestade e trovoadas.

Ela é um plural singularizado, uma roupa que, com peças separadas, parece incorreta, mas o conjunto não poderia estar mais certo. Ela é um infinito “por quê?”, cheia de curvas fechadas e manobras difíceis.

Fonte: via tumblr

Seus olhos são como duas galáxias distintas, mas que possuem uma sincronia tremenda. Seu olhar é como a fusão de dois universos, capaz de sugar qualquer um para dentro de si própria. Seus lábios são fronteiras de segurança máxima que apenas os que fazem por merecer ganham o direito de conhecê-los. Sua voz é suave e traiçoeira, talvez um pouco superestimada, mas possui uma melodia inegável. Seu corpo é uma empresa cuja qual ela possui total controle: seus movimentos são calculados e espertos, e ela é dona de cada centímetro de pele que possui. Seu sorriso é encantador e, quando verdadeiro, pode iluminar um bairro inteiro.

Sua alma ninguém nunca conheceu o suficiente para escrever a história. Uma, duas linhas no máximo: é um mistério quase completo. Ela em si é contida, porém possui uma aura capaz de arrepiar até os mais insensíveis.

Sua confiança e poder são notáveis, por mais que ela tente escondê-los com a modéstia. A mente é agitada e ilimitável, sempre a procura de algo mais. Suas ideias surgem tão rapidamente quanto vão embora, e o barulho provocado pelo seu cérebro pode ser escutado do outro lado da rua.

A maioria das pessoas é incapaz de entender a complexidade que a menina possui dentro de si. Quase ninguém lhe lança um segundo olhar mais cuidadoso. Mas quem para pra reparar… pode ganhar um daqueles sorrisos que mencionei acima e, quem sabe, um lugar especial na vida dela.

Ela é só mais uma, mas não é só mais uma. É uma metáfora sem fim, inexplicável, indecifrável e inquestionável. O tipo de pessoa que faz com que os escritores percam seu tempo para fazer poesias que tentam envolver tudo que ela é. Mas é impossível: ela possui a poesia em si, mas não possui a tradução; Ela é um verbo intransitível: ela apenas é.