UMA FLOR AMARELA

Há uma flor amarela em meu jardim que se recusa a morrer e insiste na vida. Mesmo quando a chuva cessa e promete nunca mais voltar, como um amante magoado, e o sol castiga sem piedade; mesmo quando as nuvens descarregam sem dó nem trégua e tudo vira água; nem quando a humanidade se esquece da sua cor bonita e da sua vontade de permanecer. Ela permanece, independente de qualquer intensidade ou esquecimento.

É uma força visceral que faz com que ela permaneça ali. E é, também, uma escolha: sucumbir nada mais é que desistir de escolher estar, todos os dias, um após o outro. E ela permanece estando, permanece escolhendo, enquanto toda gente a observa das janelas, numa expectativa quase sádica, naquela apreensão toda enquanto a vida vai sendo vivida nas ruas: os bois passam, a cidade conversa, o sereno do anoitecer chega e os olhos continuam curiosos, tentando disfarçar que sempre olham para o quintal.

E em toda sua cor, a florzinha amarela continua, brilhante, viva, forte. Eu acho que é a música que a deixa com vontade de ficar. Aquele sambinha que me acorda de manhã, um violão que não gosta de ficar com as cordas paradas, o céu azulzinho trazendo toda a esperança. Com samba e sol não há tristeza que perdure, não há choro que valha a pena, não há flor que queira morrer.

E é nessa simplicidade toda que eu tomo consciência do quanto sou pequena frente ao mundo: quando escuto o barulho do rio que corre sem parar, quando deito na grama e olho para todas essas estrelas piscando para mim, quando encaro essa florzinha amarela, questiono meus desesperos, medos e inseguranças. Com todo esse horizonte banhado por montanhas, com toda a infinitude do planeta, com essa flor amarela que resiste primavera atrás de primavera, percebo que, mais do que dor, essa vida também pode ser paz. E que não devo me sentir na obrigação de lutar todas as lutas e de me atentar à todos os males, porque, enquanto eu eu estava olhando para o lugar errado, toda essa beleza, toda essa excelência, todo o magnífico, estava bem aqui, no meu jardim.

Quando olho para a flor amarela, sei que posso ser como ela e me recusar a ser morta. Ser morta por olhares, ou palavras, ou por qualquer chuva ou sol forte ou qualquer esquecimento. Porque não me importo mais com o que eles pensam, falam ou deixam de falar. A cada passo, eu deixo minha marca no mundo e, como ela, me deixo ser mistério, deixo com que não entendam, quase desejo que não entendam; nem a minha força, nem a minha esperança, nem a minha paz em ser tão pequena num mundo tão gigante.

NADA

 

Esse mundo é grande, mas continua sendo pequeno demais. Talvez não deveria ser assim, mas as pessoas o tornam um lugar limitado, despreparado, cheio de regras e pontos finais. Esse mundo é cruel demais, cheio de desigualdade e miséria e fome e gente nas ruas, gente sem lar, gente perdendo a mente pelo caminho e gente fechando os olhos para o que tem e focando no que deixa de ter (tão pouco). Esse mundo é rápido demais, nossa existência é um sopro, efêmeros, e tudo aqui é construído pra desabar; quem consegue deixa uma marca mais permanente, uma cicatriz mais profunda, mas nunca eterna. Esse mundo é cheio de maldade e egoísmo, cheio de incompreensão e preconceito, esse mundo carece amor, empatia e entendimento. Respeito. Esse mundo é pequeno demais pra imensidão de algumas pessoas que transbordam e não nasceram pra estar aqui. Esse mundo é morno e não suporta a existência ardente de quem nasceu pra bater de frente, pra falar verdades que as pessoas não pedem pra escutar, mas que precisam ser faladas. O final disso tudo é mais complexo que paraíso e inferno e as pessoas brincam com a morte com descaso, não há diálogo, não há escapatória para o sofrimento que nos é imposto, ninguém pediu pra nascer. Afinal, isso tudo não é apenas uma piada cósmica? Sou uma partícula indiferente num universo de possibilidades. Sou nada num mundo em que todos acham que são tudo.