QUE CHOVA

Entende: é que às vezes eu me perco nos meus próprios labirintos. Eu sei que fui eu, eu sei que são meus, que eu deveria saber o caminho, que eles são frutos das minhas próprias e mirabolantes ideias de quartas feiras a tarde, mas eu esqueço o mapa… Se fico sozinha comigo mesma as coisas ficam meio perigosas e eu tenho é medo do meu escuro.

Quando dou de cara nas minhas próprias paredes, a escalada parece fria e eu desisto. Prefiro aqui no chão, mesmo que a sala não tenha janelas, porque tudo é morno. E eu sei que é tão difícil me ler… Porque eu nunca indico quando fico sem saída, gritando dentro de mim e em silêncio pra todo mundo ao redor, ninguém entende o desespero que é olhar para os lados e ver todas as pontes quebradas, só paredes brancas e fechadas. Brancas e eternas. E por isso eu me desculpo, por isso eu lamento. Eu me esforço, tento, mas ser um livro aberto não adianta nada quando não trago minha própria tradução.

O difícil é ficar me traduzindo o tempo todo para mim mesma e para o resto do mundo. Queria ter sido feita em alguma linguagem universal; por que não posso ser feita toda de música ou de números? Veja, se eu fosse toda matemática, talvez eu teria menos perguntas sem respostas. Talvez eu soubesse sorrir e indicar o caminho para quem quer que se arriscasse perguntar. O problema é esse também: ninguém nem se arrisca, nem chega perto. Sou um edifício em chamas.

Mas é nesse ardor que eu sinto toda a luz preenchendo cada rachadura, cada espaço vazio, cada parte do nada passando a fazer sentido, porque em nenhuma linguagem é possível traduzir ninguém, porque as paredes brancas não são eternas, são completamente mutáveis assim como todas as minhas curvas e esquinas, porque não devo me desculpar por ser mais reticências e interrogações que pontos finais e em um instante todas as frases sem pausa percorrem meu corpo e tudo se concretiza em certezas (temporárias). E são as chamas que me consomem e que me sustentam. Tudo é silêncio naquele segundo paradoxal que precede uma explosão.

Hoje, se chover, eu me deixo queimar.