5 FILMES COM REPRESENTATIVIDADE LÉS/BI PARA ASSISTIR NA QUARENTENA

Na semana passada, falei um pouco sobre a importância de darmos voz à mulheres que amam mulheres para que elas possam contar suas histórias – seja de forma direta ou através de representações na televisão, no cinema e na literatura. Hoje, vou fugir um pouco do formato tradicional de texto/conto/prosa poética para dar espaço à divulgação de filmes com protagonistas lésbicas ou bissexuais dirigidos por mulheres (algumas delas assumidamente lésbicas/bissexuais). É necessário que obras como estas tenham, cada vez mais, um maior alcance: precisamos valorizar trabalhos que abordem a temática sáfica, principalmente aqueles feitos por mulheres lés/bi. Espero que aproveitem e que as sugestões sejam úteis em tempo de isolamento social!

RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS (Céline Sciamma, 2019)

O filme é um drama romântico que se passa na França, durante o século XVIII, e conta a história de Marianne, uma jovem pintora encarregada de pintar o retrato de casamento de Héloise secretamente, de modo que passa a observá-la ao longo do dia para retratá-la pela noite. Ao longo do tempo, as duas mulheres se aproximam e compartilham os últimos momentos da noiva antes de seu casamento.

A diretora, Céline Sciamma, é uma cineasta e roteirista francesa e foi premiada em Cannes pelo roteiro do filme. Em sua carreira, Sciamma busca representar histórias de jovens mulheres, inclusive participando de um movimento internacional pela representação feminina no cinema internacional.

“[…] eu queria produzir uma história de amor, um filme que fala sobre uma história de amor e descreve passo a passo como é se apaixonar e também mostra o escopo de uma história de amor – o filme foi construído em torno dessas duas ideias, desses dois pilares. E também queria falar sobre mulheres artistas, mulheres pintoras, em geral.”

Céline Sciamma

Assista ao trailer aqui.

D.E.B.S. – AS SUPER ESPIÃS (Angela Robinson, 2004)

Este filme de ação cômica estadunidense foi, na realidade, uma adaptação de um curta-metragem de mesmo nome lançado no ano anterior. Conta a história de um grupo de espiãs juvenis (as D.E.B.S.) que foram recrutadas por uma agência governamental por suas habilidades potenciais para espionagem e agora possuem a missão de capturar a vilã Lucy Diamond – a questão é que uma das espiãs acaba se envolvendo com Lucy.

A diretora, Angela Robinson, é também produtora e roteirista, e costuma abordar questões de vivência lésbica em seus trabalhos. Robinson é casada com Alexandra Kondracke – as duas se conheceram na faculdade, em Nova York – com quem teve um filho em 2009.

Angela Robinson

Assista ao trailer aqui. O filme está disponível na Netflix!

LIVRANDO A CARA (Alice Wu, 2008)

Esta comédia dramática conta a história de Wil Pang, uma jovem cirurgiã solteira aos 28 anos que se descobre lésbica quando se apaixona pela bailarina Vivian. As duas mulheres se encontram em segredo enquanto Wil pensa em como contará sobre o relacionamento para sua mãe viúva, Ma. Inesperadamente, a mãe aparece em sua casa contando que está grávida e que foi expulsa da comunidade chinesa onde vivia por se negar a revelar quem é o pai da criança – e agora mãe e filha terão que conversar.

A diretora, Alice Wu, declarou que o filme foi inspirado em sua própria história e no momento em que se assumiu lésbica na comunidade chinesa em que vivia. Ela afirmou que seu desejo era de que, ao assistirem seu filme, as pessoas sentissem que, independente de quem fossem ou a qual cultura pertencessem, nunca será tarde demais para conquistar aquilo que desejam secretamente – seja o desejo de viver um grande amor ou qualquer outro.

“Eu quero que eles [os espectadores] saiam do cinema com um sentimento de esperança e possibilidade”.

Alice Wu

Assista ao trailer aqui.

ELISA Y MARCELA – ALÉM DOS HOMENS (Isabel Coixet, 2019)

Baseado em uma história real sobre a primeira (e única) união católica lésbica na Europa, o filme se passa na Espanha de 1901 e retrata como a jovem Elisa Sánchez Loriga adotou uma identidade masculina para conseguir se casar na igreja com a mulher que amava, Marcela Gracia Iberas.

Isabel Coixet é uma cineasta espanhola que conheceu a história das duas mulheres em uma viagem para Galícia, decidindo levá-la para as telas pelo seu desejo de “retratar mulheres fortes” e por acreditar que “as pessoas deveriam conhecer uma história como essa”. Aqui também tem uma entrevista em que a diretora fala um pouco sobre o filme.

Isabel Coixet

Assista ao trailer aqui. O filme está disponível na Netflix!

I CAN’T THINK STRAIGHT (Shamim Sarif, 2008)

O filme retrata a descoberta do amor entre duas jovens de origens muito distintas que vivem em Londres. Tala, de ascendência palestina, é uma cristã que está planejando seu casamento com um homem jordano, enquanto Leyla é uma muçulmana tímida que conhece Tala através de seu amigo em comum, Ali. 

Shamim Sarif é uma novelista, roteirista e diretora de descendência sul-asiática que aborda questões LGBT e relativas aos direitos das mulheres em suas obras. I Can’t Think Straight foi vencedor de 11 prêmios na época em que foi lançado.

Shamim Sarif

Assista ao trailer aqui.

POR MAIS ARMÁRIOS VAZIOS

Hoje, não trago um texto muito literário. Venho com algumas considerações:

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Sempre escrevi para mim mesma. Nenhuma das minhas palavras é para agradar ninguém além do meu próprio ser, que precisa transbordar em prosa e verso para que eu não me afogue em minha existência. A não ser, é claro, quando me abstenho dessa necessidade egoísta e resolvo dedicar qualquer rabisco a alguém que eu sinta vontade (nem assim, no entanto, deixo de ser sincera. Não sei mentir pro papel e nem quero aprender).

Sempre gostei de escrever utilizando pronomes femininos. Sou louca pelo “ela”, “dela”, enfim. Gosto dos meus textos escritos dessa forma. Para elas. Por elas. Sobre elas. É um gosto antigo, não sei explicar: é assim desde que abracei meu amor pela escrita.

Por último, sempre gostei de escrever sobre sentimentos, no geral. Adoro inventar qualquer romance, seja de forma totalmente fictícia e inventada ou baseada em qualquer experiência pessoal.

Ter o comprometimento de publicar toda semana exige certa produtividade constante. Mantenho-me escrevendo em todo tempo livre, sobre tudo que me interessa, tudo que me faz sentir. Expor meus textos sempre foi um ato de coragem: como eu disse, eu não minto pro papel. Expor meus textos é sinônimo de expor minhas verdades – ou pelo menos deveria ser.

Há meses, antes de publicar, modifico alguns textos para retirar os pronomes femininos que foram colocados (ou para trocá-los por pronomes masculinos) e faço de tudo para manter qualquer texto romântico dentro de um padrão de relação heterossexual. Faço isso por medo do que terei que escutar por ser uma mulher escrevendo sobre outra, faço isso por medo do que terei que escutar por retratar cotidianamente indivíduos do mesmo sexo que se amam.

Ando sendo incoerente comigo mesma. Se nunca escrevi dentro das exigências de ninguém, se o papel em branco sempre foi meu confessionário, por que devo, então, me autocensurar quanto a algo que tanto defendo?

Hoje, eu trouxe um aviso. Não mudarei pronomes, não me impedirei de escrever sobre o amor em geral porque ele existe, sim, em outras formas além do modelo tradicional. A censura, o silenciamento e o medo são formas de diminuir não apenas as coisas em que acredito, mas também quem sou. Representatividade literária é importante e, mesmo que em pequenas doses, posso contribuir com isso – e o farei.

Dia 17 de maio foi o dia internacional da luta contra a LGBTfobia e me fez pensar um pouco sobre tudo isso. Voltemos à sinceridade habitual: eles com elas, eles com eles, elas com elas. Com quem houver sentimento e reciprocidade.