O QUE A VIDA QUER DA GENTE

Maria Fernanda teve que se esforçar para não chorar ao olhar para ele, todo arrumado, em cima do altar. A barba recém feita e um sorriso estampado no rosto, o cabelo meio molhado de gel e o terno azul claro que combinava com seus olhos. Olhos que estavam rodeados de marcas, causadas não só pelo sorriso, mas também pelo tempo. Mesmo com as novas rugas, ela reconheceria aqueles olhos em qualquer lugar. Eram exatamente os mesmos que ela olhara pela primeira vez vinte anos antes, quando o novato perdido entrara na sala de aula com uma confiança que ela jamais havia visto em ninguém antes. 

Não conversaram muito durante aquele ano em que ele entrou na escola. Era o último ano do colegial, e ela soube que ele havia se mudado para a vizinhança junto com a mãe. Não sabia de onde ele havia vindo e o mistério fazia com que ele carregasse certo charme. A verdade é que ela o achava lindo, muito mais bonito que todos os garotos da escola, e, justamente por isso, não teve coragem de se aproximar e iniciar alguma conversa. Era muito tímida e suas poucas amigas não acharam nada de excepcional no “garoto novo” que, por sua vez, já tratou de se enturmar com o grupo dos mais populares da sala.

Ela se lembrava como se fosse ontem da primeira vez que conversaram. Era o baile de formatura e a festa já estava se encaminhando para acabar e, enquanto uma música lenta do ABBA tocava, ele se aproximou da mesa na qual ela estava sentada. 

-Não acredito que uma garota como você está sentada aí, sozinha, uma hora dessas – Ele disse, mas ela não entendeu a frase inteira, por causa da música alta, de modo que ele repetiu as palavras, dessa vez, bem perto do ouvido dela. 

-Uma garota como eu? – Perguntou, sem saber se ficava lisonjeada ou ofendida. 

-É. Linda desse jeito, com o vestido mais bonito da festa… 

Ela percebia que o hálito dele já cheirava a álcool e automaticamente decidiu que não ia ceder à nenhuma cantada barata, ainda mais sendo a última das últimas opções, porque todos os casais já haviam se formado muitas horas antes. 

-Não vai adiantar, é melhor você não desperdiçar seu tempo comigo – Ela respondeu, já meio impaciente – A festa está acabando e acho que você deveria procurar qualquer outra garota bêbada em vez de se esforçar para fingir que já estava interessado em mim. 

Apesar de achá-lo lindo (aliás, “lindo” poderia muito bem ser um eufemismo para “absolutamente maravilhoso” naquela noite, porque qualquer um fica dez vezes melhor vestindo roupas de gala), ela tinha amor próprio o suficiente para saber diferenciar aqueles com os quais valia a pena se envolver. Marcelo não era um deles. Marcelo era sinônimo de problema, e ela gostava de manter sua vida sob controle, pacífica e tranquila. 

-Fingir? De onde veio isso? – Ele sorriu, erguendo as sobrancelhas, e puxou uma cadeira ao lado dela. – Onde estão suas amigas? 

-Foram buscar alguma coisa para comer. Já devem estar voltando. – Mentiu ela, porque não iria admitir que, na verdade, estava esperando sua carona terminar de beijar um primo de alguém. 

Ele ficou um tempo em silêncio, olhando ao redor, sem pressa alguma de esclarecer o motivo de ter sentado ali. Ela evitava olhar diretamente para ele, sem saber o que fazer com as mãos, um pouco irritada. 

-Você deve me achar um idiota – Ele começou, fazendo contato visual. – Troquei no máximo quatro palavras com você em todos esses meses e agora venho aqui, tentando ser engraçadinho… 

-Acho, mesmo. – Ela respondeu, pensando que deveria ser por isso que continuava solteira, o que sua mãe fazia questão de lembrar sempre que podia. 

Mais alguns segundos de silêncio. O contato visual só acaba porque ela desvia o olhar, mas ele continua encarando-a. 

-Eu nunca tive coragem. Sempre fiquei te olhando meio de longe, sem saber o que fazer, porque você é muito calada e nunca me deu uma pista sobre qual assunto puxar. Prometi a mim mesmo que não ia me formar sem puxar assunto com a garota mais bonita da sala, que não ia perder essa chance. Achei que conseguiria hoje, mas aí… Você apareceu com esse vestido, e me deixou completamente sem ar. Precisei de uma ajudinha – Ele balançou o copo, já meio vazio, e deu um sorriso sem graça. 

Ela ainda se lembrava do modo com que seu coração começou a bater forte e rápido, sem acreditar no que estava ouvindo. Ela ainda lembrava de sustentar o olhar dele e tentar identificar alguma mentira, porque aquilo só poderia ser brincadeira… 

Não chegou a nenhuma conclusão, porque, nesse exato momento, Isadora – a carona – apareceu, com o batom todo borrado, dizendo que a mãe já estava esperando na porta para irem embora. 

 

Lembrar daquilo parecia surreal agora, tantos anos depois. Tanta coisa havia se passado, tanta história no meio do caminho. Parecia meio ridículo pensar que Maria Fernanda se lembrava até mesmo da música que estava tocando quando essa primeira conversa aconteceu. E agora, com os violinistas tocando notas lentas, uma música completamente diferente preenchia o ambiente, mas as mesmas borboletas daquele dia da formatura tomavam conta de seu estômago. 

 

Por um tempo, ela acreditou que nunca mais ouviria falar de Marcelo. Ela queria estudar Farmácia e ele, pelo que diziam, Jornalismo. Não fazia ideia se ele ficaria na cidade ou iria fazer faculdade em outro lugar e, ao mesmo tempo, não queria pensar muito a respeito, porque depois de toda aquela declaração, ela mal olhou para ele ao se despedir correndo. 

Se sentia estúpida. E se ele estivesse falando a verdade, afinal? Bom, ela decidiu que não faria nada para procurá-lo, porque a parte racional do seu cérebro insistia que ele estava apenas bêbado e que ela não deveria inventar histórias de amor em sua cabeça. 

Mas ela não precisou inventar nada, porque, três semanas depois do baile, ele tocou o interfone da casa dela. 

-Acontece que aquela sua amiga, Isadora, estava beijando o Luís, que é primo do meu melhor amigo, Pedro Henrique, e, para um homem determinado, conseguir seu endereço até que foi uma tarefa fácil. – Foi a explicação que ele deu, alguns minutos depois, após ela ser convencida pela mãe a abrir a porta para o “rapaz bonito” que estava esperando, com o argumento de que é mal educado deixar as pessoas na rua. 

Naquela tarde, conversaram por horas e horas, apesar da desconfiança da moça. Ao pôr do sol, Marcelo já tinha conseguido arrancar algumas risadas dela, que começava a se convencer que o garoto havia sido sincero na formatura. 

O primeiro beijo dos dois aconteceu alguns dias depois, por iniciativa dela. Resolveu ser corajosa uma vez na vida e colou os lábios nos dele na hora de se despedir, depois que ele a levou para um piquenique na praça mais bonita da cidade. A coragem durou apenas alguns segundos – não o suficiente para a fazer olhar para trás e conferir o sorriso estampado no rosto dele.

 

O mesmo sorriso que agora aprofundava as rugas nos olhos dele. Tão bonito. No altar. Era difícil acreditar. 

 

O namoro era digno de aparecer nos cinemas: muita paixão, cartas de amor, surpresas clichês e buquês de flores. Os dois eram românticos incuráveis e se aventuravam juntos viajando pelas cidades do interior, bebendo vinhos baratos e participando de cantorias nas praças. Estudaram, afinal, Farmácia e Jornalismo, como bem queriam, mas, nas férias entre o primeiro e o segundo ano de faculdade, enquanto estavam deitados na grama do sítio de Maria Fernanda, olhando as estrelas, Marcelo fez o anúncio: 

-Mafê, quero largar a faculdade. 

-Como assim, Marcelo? 

-Acho que não é pra mim, isso de estudar. A gente aprende tão mais vivendo a vida real. Saindo pelo mundo. Tirando a cara dos livros. 

Ela não conseguia entender. Gostava de estabilidade, gostava de estudar Farmácia e queria um diploma para garantir uma vida boa para os filhos que, um dia, gostaria de ter com ele. Gostava das viagens, das praças e das cantorias, mas aquilo só tinha graça porque quebravam a rotina, e, antes de tudo, porque havia uma rotina para ser quebrada. Aquilo era seu tempo livre, não a vida que queria levar em tempo integral. 

Muito choro se seguiu, muitas tentativas de convencimento partiram das duas partes, mas ninguém deu o braço a torcer. Decidiram namorar à distância, e, sem mesmo passar em casa, Marcelo saiu pelo país apenas com a mala que havia levado para passar alguns dias no sítio de Maria Fernanda. Os primeiros três meses foram razoáveis. Ele sempre ligava, mandava cartas românticas pelo Correios, fotos de paisagens bonitas. Foi para o sul e conheceu os três estados da região. Nas ligações, contava sobre as grandes plantações, sobre as serras e sobre o clima. A partir do quarto mês, o contato começou a ficar menos frequente. Ele nem sempre atendia e quase nunca ligava. “Deve estar muito ocupado conhecendo tanta coisa”, pensava Maria Fernanda. O coração cheio de saudade que se misturava com um pouco de raiva e remorso. 

Um ano se passou, depois dois. Às vezes, ela ouvia falar de Marcelo, principalmente porque Isadora, com quem ainda mantinha amizade, continuou com o primo do melhor amigo dele por muito tempo. O tal melhor amigo (“Pedro Henrique, certo?”, ela perguntou, certa vez), portanto, estava sempre presente nos aniversários de Isadora, e, obviamente, também aparecia nos encontros que a turma do colegial fazia todo ano. Maria Fernanda ouvia Pedro Henrique contar histórias e o via mostrar fotos de Marcelo nos mais diversos lugares. Ele passou por São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Mato Grosso, Tocantins, Maranhão, Bahia. Eventualmente, ela não conseguia mais acompanhar todos os casos. Ele parecia feliz, mas sempre sozinho. E ela se perguntava se ele sentia falta dela da maneira com que ela sentia dele. E se, um dia, ele voltaria. 

Ela se envolveu com outros homens. Alguns. Nenhum que fazia seu coração bater do jeito que batia quando olhava para Marcelo, nenhum que a olhava como um dia ele havia olhado. Ela não admitia isso para si mesma e nem tinha intenção de se afastar de Isadora ou de sua antiga turma de colegial porque, no fundo, gostava de ficar sabendo por onde Marcelo andava. Sempre perguntava à Pedro Henrique, num tom casual e como quem não quer nada, se ele tinha notícias do amigo. Gostava de ver, nas fotos, como Marcelo estava mudando. Gostava de imaginar que ouviria todas os casos das aventuras dele, um dia. 

E, depois de quinze anos, ele voltou. 

Ela não ficou sabendo por Isadora, nem por ninguém da turma. Por alguma ironia, o destino fez com que ele entrasse na mesma padaria em que ela sempre tomava um café depois do trabalho. Com a mesma confiança que havia entrado na sala de aula, na primeira vez que ela o viu. E ela não pôde evitar que seu estômago se revirasse num misto de excitação, medo e desejo. E saudade. Quanta saudade. 

Caminhou até ele e encostou em seu ombro, porque, com os anos, aprendeu que deveria ser corajosa sempre. E porque fantasmas do passado não entram pela porta de padarias todos os dias, e porque havia passado os últimos anos sem conseguir tirar aquele homem de sua cabeça. E não poderia deixar passar uma oportunidade daquelas. 

Os olhos dele brilharam ao vê-la e ele abriu os braços para envolvê-la num abraço forte. Meio desajeitados, sem saber como recuperar todos os anos de conversas perdidas, conversaram por horas no pequeno balcão de padaria. Ainda estavam se acostumando com o quanto haviam mudado depois de mais de uma década. Ela contou sobre seu emprego, seu novo apartamento, e sobre como estava sua família. Ele contou um pouco sobre o nordeste e de como se orgulhava de falar para os seus passageiros no Uber que, quando era adolescente, falou com sua mãe que iria passar uns dias no sítio da namorada e só voltou quinze anos depois. 

Ele continuava encantador e, quando perguntou se ela era casada, ela ficou um tempo em silêncio pensando no que responder. E decidiu ser sincera. 

-Não casei, Marcelo. 

Ele pareceu genuinamente surpreso. 

-Mas você sempre foi tão bonita, imaginei que com a nossa idade você já tivesse conhecido alguém… 

-Eu conheci. – Ela respirou fundo. “Coragem”, pensou. – No último ano do colegial, conheci. O homem da minha vida. Ele decidiu viajar por aí e tem quinze anos que estou esperando ele voltar. 

A frase o pegou de surpresa. Ela lembrava como se fosse ontem da maneira com que ele sustentou o olhar dela, sorriu e olhou para baixo, sem graça… 

 

Agora, alguns anos depois do reencontro, ela ouvia o padre falar, quase chegando na parte final, e a maior parte dos convidados já estava meio emocionada. Maria Fernanda, por sua vez, continuava na sua luta contra o choro, para não borrar a maquiagem cuidadosamente feita para aquele dia especial, mas toda aquela nostalgia e a cabeça cheia de lembranças tão vívidas não estava ajudando em nada. 

-Eles formam um casal tão bonito, não é? – Ela sentiu a mão de Pedro Henrique, o melhor amigo de Marcelo, apertando a sua. 

E, nessa hora, ela não conseguiu mais segurar o choro. Chorou, silenciosamente, enquanto apertava a mão do namorado – que não amava. 

Chorou enquanto observava o amor da sua vida dizer “sim” para outra mulher.

O MUNDO VAI ACABAR AMANHÃ

O mundo vai acabar amanhã e eu não vou fazer mil telefonemas rápidos para o máximo de parentes que eu conseguir. Não vou procurar saber onde estão meus irmãos, não vou correr para o colo da minha mãe, não vou pedir um último conselho ao meu pai. Não vou comer um último pedaço do bolo da minha avó, não vou ouvir uma última piada do meu tio no almoço de família.

O mundo vai acabar amanhã e eu não vou ver meu time ser campeão de qualquer campeonato até lá. Não vou assistir a um último jogo no estádio, sentir toda aquela energia, escutar todos gritando por uma mesma razão.

O mundo vai acabar amanhã e eu não ganhei o título de funcionário do mês. Não realizei nenhum projeto genial, não apareci na televisão. Não dei palestras sobre minha vivência, não fui promovida, não ganhei vinte mil em um mês.

Não vou a nenhum churrasco neste último dia, não vou procurar desesperadamente uma ONG para colaborar, não vou visitar asilos ou creches, não vou comprar uma passagem de última hora para a Europa, Austrália ou Tailândia. Não vou plantar nenhuma árvore.

O mundo vai acabar amanhã e eu não vou encontrar meus amigos para últimos abraços, últimas risadas, últimos momentos. Não tem dessa de dizer, finalmente, tudo que um dia eu quis falar para cada um deles. Não vou fazer um último brinde, não vai haver discurso final nem uma grande comoção.

Não vou fazer nenhuma loucura, praticar bungee jumping, escalar o Everest, surfar no Havaí. Não vou experimentar drogas, me arriscar fazendo roleta russa, deitar no meio da avenida às quatro da manhã. Não vou me embebedar. Não vou à festa alguma.

O mundo vai acabar amanhã e eu não vou me declarar. Não vou morrer de amor, não vou escrever últimos poemas nem mandar mensagens de despedida.

Não vou ver os filmes que eu pretendia nem saber o final daquela série de suspense. Não vou atingir o Nirvana nem fazer uma última reza. Não vou tentar vencer a insônia. Não vou acender um último cigarro.

O mundo vai acabar amanhã e já sabíamos disso há décadas. Acordamos sempre sabendo que a manhã seguinte é o fim de tudo e isso não é grande coisa. Minhas últimas palavras já foram ditas, apesar de que, naquele momento, não pareciam as últimas.